16/mar/2018 por

Vincent van Gogh e o Japão

 No século 19, o Japão era um mundo recluso; por 200 anos, o shogunato de Tokugawa havia fechado o país para o exterior. Era o Sakoku, o período do País Acorrentado. Nenhum estrangeiro podia entrar, e nenhum japonês podia sair do arquipélago.

Era nesse mundo fechado que vivia Utagawa Hiroshige, um mestre pintor, que elevou as ukiyo-e, pinturas japonesas em tabuletas de madeira, para o seu mais alto grau artístico. Ele pintava cenas do cotidiano flutuante; mulheres em jardins, pequenas flores; o Monte Fuji. Suas tabuletas eram compradas em todo o Japão. Ele criou uma nova escola de pintura, e centenas de artistas vinham aprender seu estilo. Um novo sol nascia no Japão de Tokugawa, um sol que iria estender seu brilho mesmo em bordas ocidentais…

Em 1853, o fim do shogunato se aproximava e, com ele, o início das reformas da Era Meiji, quando o poder voltaria para o Imperador. O Japão abria finalmente seus portos para o mundo, e com isso o comércio com o Ocidente fervilhava. Entre as porcelanas e as sedas, entre os chás e o algodão, viajavam também milhares de ukiyo-e.

Esses objetos começaram a aparecer em lojas e butiques de Paris e, logo, todos os modernistas estavam absorvendo a influência artística direta do distante oriente. Manet, Degas, Monet, todos os impressionistas copiavam, moldavam, alteravam, e criavam sua nova arte através das pinturas de Masanobu, Haronobu e Hiroshige. Foi cunhado um novo termo, “Japonaiserie”, para simbolizar essa influência.

Japonaiserie para sempre!“ dizia De Goncourt;  “Eu odeio a arte tradicional! Portanto, amo a arte Japonesa” dizia Mary Cassat; Delacroix tinha dezenas de ukiyo-e em seu estúdio na Antuérpia; Degas colecionava os blocos comprados na La Porte Chinoise; Toulouse-Latrec tirava fotos de kimono e representava o Kabuki, o teatro japonês; Gauguin, Klimt, Renoir, Tissot… toda a avant-garde de Paris criava uma nova renascença na arte, imbuída na troca de influências, na busca de novos estilos que fugissem da estética ocidental, na quebra de regras e convenções, que é, na realidade, o estado permanente da arte…

Fotografia de Henri de Toulouse-Lautrec em roupas Japonesas, c. 1890, Museu de Arte Moderna, Nova York

Fotografia de Henri de Toulouse-Lautrec em roupas Japonesas, c. 1890, Museu de Arte Moderna, Nova York

 

Gustav Klimt, Dana com Leque, 1917/18

Gustav Klimt, Dama com Leque, 1917/18

Van Gogh, em especial, se apaixonou por essa nova moda. Ao chegar em Paris em 1886 e perceber o impacto do Oriente, ele decidiu modernizar a própria arte.

Se os outros artistas bebiam o Japão em pequenos goles, Van Gogh se intoxicava; tão forte foi a profusão estética de Hiroshige em sua arte, que ele chegou a dizer, em carta ao irmão, que “toda a minha arte é baseada, em alguma extensão, na arte Japonesa…”

Ele admirava a simplicidade do traço, e a objetividade. “Nunca é maçante, e nunca parece ter sido feita com pressa. O trabalho deles parece ser simples como a respiração, o traçado é feito com a confiança e facilidade de quem abotoa um paletó”.

Os artistas japoneses frequentemente deixavam o meio das suas composições vazias, enquanto que objetos em primeiro plano eram alargados. Costumavam excluir o horizonte também, ou cortavam abruptamente os elementos das pinturas nos cantos. Os artistas ocidentais logo aprenderam que não precisavam arranjar suas pinturas de maneiras tradicionais.

Claude Monet, Ponte Japonesa e Lírios, 1899.

Claude Monet, Ponte Japonesa e Lírios, 1899.

Van Gogh fez algumas cópias de Hiroshige, mas imprimiu nelas seu estilo próprio, com cores mais intensas, com seus traços rodopiantes e urgentes. Ele também passava a decorar seu estúdio com ukiyo-e, tendo dito que “meu estúdio agora é tolerável, principalmente porque eu pendurei um conjunto de quadros japoneses que julgo divertidos. Você sabe, pequenas figuras femininas em jardins ou na praia, cavaleiros, flores, ramos retorcidos de árvores…”

Neste retrato, pode-se ver diversos uikyo-e atrás de Tanguy. Vincent van Gogh, Retrato de Julien Tanguy, 1887, Musée Rodin, Paris.

Neste retrato, pode-se ver diversos ukiyo-e atrás de Tanguy. Vincent van Gogh, Retrato de Julien Tanguy, 1887.

Sem nunca ter ido ao Japão, ele determinou que o sul da França seria um gêmeo do país, e decidiu se mudar para Arles, em 1888. Para seu irmão, disse que “esta parte do mundo me parece tão bela quanto o Japão, pela clareza da sua atmosfera e pelos alegres efeitos das cores”. Para seu amigo Gauguin, escreveu que “me pegava olhando pela janela do trem para ver se já era como o Japão. Um pouco infantil, não acha?”

Foi em Arles que ele definiu seu estilo. “Depois de algum tempo sua visão muda, e você começa a ver com um olhar japonês, você passa a sentir a cor diferentemente”. Ele decidiu transformar sua casa em um retiro seguro para os artistas se reunirem e passarem os dias pintando; ele a chamou de “A Casa Amarela”, e seu conceito vinha da idealização do artista japonês e de uma casa de monges. Convidou Gauguin, e esperava que os outros o seguissem.

Capa da Paris Illustré, 4 (Maio, 1886)

Capa da Paris Illustré, 4 (Maio, 1886)

 

Vincent van Gogh, A Cortesã (depois de Eisen), 1887

Vincent van Gogh, A Cortesã (depois de Eisen), 1887

Gauguin, no entanto, não compartilhava da sua visão de uma casa de artistas. Foi nessa época que os dois tiveram uma briga violenta e romperam. A saúde mental de Vincent começou a se deteriorar. Ele passou a se referir cada vez menos à arte japonesa em suas cartas. Dois anos depois, em 1890, Van Gogh estava morto, em um suposto suicídio.

Van Gogh nasceu em 1853, o mesmo ano da abertura do Japão, e apenas 4 anos antes da morte de Utagawa Hiroshige. Ele tinha 37 anos quando morreu.

A natureza sempre foi o ponto de partida para a arte de Van Gogh. A natureza também o era para os artistas japoneses, e ele reconhecia isso. Vincent respondeu ansiosamente ao chamado para uma forma mais moderna e mais primitiva de pintura. A arte japonesa, com suas cores expansivas e sua estilização, mostraram o caminho. Era um encontro ideal.

Vincent van Gogh, Borboletas e Papoulas, 1889.

Vincent van Gogh, Borboletas e Papoulas, 1889.

“Apenas pense nisso, meu irmão: não seria esta uma nova religião que os Japoneses nos ensinam, a de serem tão simples e viverem na natureza como se eles próprios fossem flores?”

Podemos ficar tristes imaginando como teria sido ainda mais grandioso o mundo da arte se Van Gogh tivesse feito florescer sua Casa Amarela da maneira que imaginou, com diversos pintores morando juntos e trocando influências. Mas ao mesmo tempo, ficamos satisfeitos em imaginar como teria sido menor esse mesmo mundo, se o Oriente e o Ocidente não tivessem um dia se encontrado através dos pincéis.

Utagawa Hiroshige, A Residência com Ameixeiras em Kameido, 1857

Utagawa Hiroshige, A Residência com Ameixeiras em Kameido, 1857

 

Vincent van Gogh, Árvore de Ameixa em Florescência - depois de Hiroshige, 1887

Vincent van Gogh, Ameixeira em Florescência – depois de Hiroshige, 1887

**

“E nós não seríamos capazes de estudar a arte Japonesa, me parece, sem nos tornarmos nós próprios muito mais felizes e mais alegres, pois ela nos faz retornar para a natureza, apesar de nossa educação e do nosso trabalho em um mundo cheio de convenções…” (carta de Van Gogh ao irmão, 24 de Setembro de 1888).

Imagem: Katsushika Hokusai – The Great Wave off Kanagawa

Acompanhe as publicações e curta a página d’O Novelo no Facebook aqui