23/mar/2018 por

#VaiTerMaeNaUniversidadeSim!

Maira pinheiro

Essa semana me deparei com uma notícia de que um professor havia expulsado uma estudante porque ela estava com seu filho nas aulas. Também li um texto imenso (bláh!) desse professor, dizendo que era tudo mentira e afirmando com o rigor da ciência que crianças não deveriam permanecer nas suas aulas porque o conteúdo delas é impróprio, ok, toda história tem dois lados.

Há um tempo, também vi viralizar um vídeo em que o professor “nina” um bebê no seu colo enquanto dá aula. A criança começou a chorar no colo da mãe estudante e o professor viu que ela estava triste em ter que sair da sala, pegou o bebê no colo e ele parou de chorar, problema resolvido.

Com esses dois acontecimentos, vi um movimento se formar na internet, sobretudo em grupos de estudantes bolsistas, “#vaitermãenauniversidadesim!”. Por isso resolvi escrever este texto para contar mais uma história. Eu vou falar de mim, novamente. Vou fazer isso porque acredito que a minha história é a história de milhares de outras mulheres neste país e no mundo afora, e porque, afinal, estamos no mês de março, marcado pela luta das mulheres.

Vou falar disso também porque um ponto comum e importantíssimo nessa história toda é o fato de que a MULHER está na sala de aula com a cria no braço. Teve professor incomodado, teve professor que ninou, teve mãe/estudante julgada e rechaçada, teve mãe/estudante acolhida, mas, não vi ninguém perguntando do pai. Isso, o pai. Sabe? O cara do espermatozoide? Sim, porque o bebê que vai com a mãe para a sala de aula há de ter um pai, certo?

Hoje eu tenho vinte e seis anos. Quando meu irmão começou a ir para a escola eu tinha uns dois ou três aninhos e eu queria de todos os modos ir para escola também. Oras, eu ouvia minha mãe sábia dizer para ele: “você vai pra escola, estudar bastante e crescer um menino muito lindo e inteligente”. E eu? Uai, eu também queria crescer uma menina linda e inteligente e saía correndo todos os dias atrás do meu irmão para ir na escola junto com ele. Até que me colocaram no jardim das crianças precoces de mentirinha só para eu dar sossego.

Minha mãe tinha uns 19 anos de idade quando se casou. Ela ainda não tinha concluído o ensino médio, havia reprovado porque tinha que estudar e trabalhar. Largou tudo para se casar. Foi embora de uma cidade do interior do PR para capital de SP, onde meu pai já morava. Teve dois filhos e se dedicou integralmente ao cuidado e desenvolvimento da família.

Quando eu tinha uns 7 anos, meus pais se separaram. Obviamente, não à toa. Entre tantos motivos que dizem respeito apenas aos meus pais, a “gota d´água”, como diz minha mãe, foi uma tentativa de homicídio [ou feminicídio] por parte do meu pai, completamente bêbado, que minha mãe se livrou sozinha. Uma sobrevivente.

Daí em diante tudo mudou. Minha mãe voltou a trabalhar para nos sustentar e também voltou a estudar a noite em uma escola pública. Ela me levava todos os dias para a escola. Eu comia a merenda e depois tirava um cochilo deitada no edredom. Mas, antes de dormir, eu copiava todinha a tarefa do quadro, rs, era minha chance de crescer linda e inteligente!

Minha mãe fez tudo isso sozinha. Trabalhava, estudava e cuidava de nós duas. Depois de concluir o ensino médio, ela fez um curso técnico de enfermagem que deu a ela a profissão que ela exerceu por muitos anos com amor e dedicação e eu, claro, ia para aula de enfermagem com ela [sou uma técnica de enfermagem sem diploma, haha]. Quando eu terminei o ensino médio fui cursar a graduação, especialização, mestrado, trabalhar e doutorado. Meus planos de ser linda e inteligente eram realmente sérios!

Eu também me tornei professora. Tive alunas com mais do que o dobro da minha idade. Tive alunas trabalhadoras, avós, esposas, com problemas de saúde, com problemas emocionais, com problemas financeiros, com problemas de violência doméstica e no meio de tudo isso, também tinham as alunas que levavam seus filhos para a aula. E vou ser muito sincera, isso nunca me incomodou e nunca me atrapalhou. Eu tive uma aluna que levou sua filha durante os quatro anos de graduação, e, no dia da formatura, brincávamos assim: “cadê o canudo da XX, ela é graduada também!”.

A propósito, eu não tenho filhos, mas também levei minha mãe para a faculdade várias vezes. Ela já assistiu aula, já participou de evento, já foi na biblioteca, já fez todo o trajeto de busão que eu fazia para ir e voltar da aula e também já assistiu, emocionada, a uma aula minha na faculdade. E eu a levei não porque não tinha com quem deixá-la, mas porque apesar da educação formal ser tão importante na nossa vida, ela nunca tinha ido à universidade.

Não sei se alguém acredita que a mãe acha super legal ir de ônibus para a faculdade a noite com o filho nos braços, depois de um dia de trabalho [quando se tem trabalho], por exemplo, correndo o risco de ser rechaçada pelos professores ou acometida daquele sentimento de que está atrapalhando. Quantas vezes notei em sala de aula que minhas alunas dividiam a atenção com o conteúdo que eu ministrava e com as necessidades dos filhos que ali estavam. E o pai da criança está onde? O meu estava no bar se divertindo com amigos depois do trabalho ou em sua casa dormindo. Ele sempre me incentivou muito a estudar e em determinadas situações me ajudou de forma objetiva, mas nunca esteve presente na trajetória que eu estou narrando. Minha mãe nunca pôde contar com meu pai para ir à aula ou para o trabalho.

Antes que haja qualquer dúvida, não, eu não estou romantizando essa situação problema que exponho aqui. Eu sou o tipo de pessoa que acredita em uma sociedade em que todo mundo tenha acesso digno a tudo que precisa para viver e se desenvolver. Sou o tipo de pessoa que luta por uma universidade pública, gratuita, de qualidade e com acesso universal. Ou seja, essa realidade vai muito além das discussões ridículas sobre se é certo ou errado levar o filho na aula quando precisa, se a mãe está certa ou errada, se o professor gosta ou não gosta, aceita ou não aceita os filhos das suas alunas na sua aula.

Eu não acho nem um pouco bonito a situação vivida pela minha mãe e por tantas mães nesse país. [Aliás, também existem pais estudantes que dividem com as mães/esposas/estudantes a tarefa de estudar, trabalhar e cuidar dos filhos, mas a gente sabe que isso é quase uma espécie em extinção]. O Estado e as universidades precisam dar conta das especificidades que as famílias enfrentam para conseguir acessar o ensino superior e os professores precisam perder essa síndrome de semi-deus, senhor do conhecimento absoluto e encarar a realidade vivida pelos seus alunos.

Isso não significa dizer que os professores devem concordar com os estudantes que levam as crianças para sala de aula, nem que os pais e mães que não tem com quem deixar seus filhos devam leva-los para dentro da sala de aula indiscriminadamente, a coisa vai muito além disso, reitero. Eu estou falando de direito, de acesso, de política pública, de tempo aproveitando com responsabilidade e qualidade. Eu estou falando de, por exemplo, um ambiente com profissionais responsáveis no período noturno nas escolas de ensino de adulto e nas universidades em que as crianças possam permanecer enquanto seus pais e mães frequentam as aulas. Eu estou falando de ensino infantil em período integral obrigatório, para que as mães e pais que estudam e/ou trabalham de manhã e à tarde tenham onde deixar suas crias, e essas crias, por sua vez, recebam tratamento adequado. Dá para entender?

Enquanto isso, vai ter mãe na universidade sim, vai ter filho vivendo a universidade desde a infância sim e vai ter superação pela educação sim, doa a quem doer, vocês vão ter que nos engolir!

Imagem: Maira Pinheiro – a foto retrata Betânia, filha de Maira Pinheiro, que vai com a mãe para a universidade

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