23/nov/2017 por

Uma reverência à África

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Quando era garoto, em 1973 ou 1974, certa vez assisti na TV (eu morava em São Paulo) uma reportagem que continha breve pronunciamento do principal dirigente do MPLA (Movimento Popular de Libertação de Angola) e líder da resistência, Agostinho Neto.

O que me chamou a atenção, e ativou minha curiosidade, foi a surpresa que tive ao entender praticamente tudo que escutei pela voz daquele homem; diferente de quando eu ouvia a fala de alguém de Portugal.

Então comecei a me perguntar como isso era possível; afinal haviam sido os colonizadores portugueses que legaram o idioma e influíram (eu assim pensava) na entonação e pronúncia: prosódia e ortoépia. De onde vinha a aproximação na maneira de falar no Brasil e em Angola? Por que o afastamento do sotaque português? Uma resposta possível me alcançou alguns anos depois ao ler o livro de Gilberto Freyre (1900-1987) “Casa-Grande & Senzala” (1933). Sua interessante hipótese sobre a semelhança da oralidade linguística era lúcida o bastante para preencher o vácuo da minha antiga ignorância.

Começou daí o meu interesse pelas coisas de África que se ampliou ao tomar conhecimento de Manuel Querino (1851-1923), e seu “Costumes Africanos no Brasil” (1918). O capítulo intitulado ‘O colono preto como fator da civilização brasileira’ traz informações da relevância cultural relacionando os prévios conhecimentos técnicos e tecnológicos já desenvolvido pelos povos africanos ao tempo da escravização pelos traficantes europeus. Como exemplo esclarece que a manufatura metalúrgica do ferro fazia parte inclusiva dos atributos fabris. Habilidades e competências desenvolvidas, de inestimável valor agregado, foram quase totalmente sufocadas no trabalho braçal forçado; os proprietários de escravos impunham também esta forma de afastamento de sua natural humanização a essas pessoas.

Como uma dissimulada, e não anunciada, ‘mea culpa’ pela degradação imposta às gerações sobreviventes ao massacre quase genocida sofrido pelos povos negros, costumou-se recorrer ao eufemismo “afro-descendente” para designar as pessoas de pele negra que nasceram fora da África; entretanto isso não faz o menor sentido posto que os povos magrebinos autóctones residentes ao norte do Sahel também são africanos e, em sua maioria, não são negros. Como sustentar tal equívoco, senão por desprezível jogo de palavras vãs?

O termo afro-descendente cabe a todo nascido fora da África que compõe a espécie humana; se não é assim qual motivo considerar certas conclusões da Antropologia que dão conta da origem e da genealogia da humanidade ligada umbilicalmente à África?

Enquanto a tese antropológica — que por ora ainda prevalece — não for contraditada vale afirmar que africanos ou afro-descendentes somos todos os humanos, queiram ou não os racistas de plantão que se revestem de um discurso purista para disfarçar suas ignóbeis e desprezíveis intolerâncias atávicas.

Em África existe uma palavra magnífica -“ubuntu”- utilizada por quem sabe aceitar com alegria sua condição de pertencer ao coletivo de toda a humanidade; nesse contexto a própria liberdade só tem razão de ser se for compartilhada, pois não haveria sentido viver mergulhado em um isolamento egoísta e distante de qualquer solidariedade e apelidar isso de liberdade, esta designação seria estranha para quem é consciente de que ninguém é uma ilha. Afinal, precisamos de outras pessoas inclusive para formar e demarcar nossa individualidade.

Não há justificativa para a exclusão deliberada, que apregoam racistas e outros degenerados desse jaez a se valer de absurdos raciocínios alimentando seus desprezíveis preconceitos.

Cabe aos comprometidos com a ideia que estende a todas as procedências étnicas e culturais a igualitária condição de pertencer à RAÇA HUMANA fazer causa comum para restabelecer nossa tradição de maior nobreza; a gênese ancestral liga todos os habitantes do planeta.

Agindo juntos poderemos nos salvar desse mundo atual submergido em desarmonia, egoísmo, falta de solidariedade e desrespeito. Isso tende a acabar, cedo ou tarde, por atingir todos indivíduos desumanizados e isolados em seus labirintos. Vamos restaurar a singela dignidade perdida dizendo: “UBUNTU!”

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