07/out/2017 por

uma despedida (não censurada)

22323479_1705503899469915_1650762835_n

faz tempo eu preciso escrever um texto, faz tempo eu tento. fazia tempo, também, que eu não sentia o ímpeto do texto-sentimento, que é meu cartão de visitas – das palavras que me cabem e das que não cabem. meu corpo vibra emoções espalhadas e de vez em quando eu não tenho outra forma de respirar que não seja te transformar em palavra escrita.

acima dos cacos de vidro do chão do mundo e das andanças de marcha ré da humanidade, minhas lágrimas vão secando – uma por uma – numa quase dança que de repente estanca e me deixa ver a verdade da solidão. ainda solidão, ainda dor, ainda dói. como a cicatriz do dedo indicador que sangrou abrindo um vinho médio com rótulo laranjado. não sangra mais, mas é marca de lembrar machucado. basta bater o olho.

o chico buarque escreveu uma música minha pras lembranças que ainda ficaram do teu nome – ou com a falta das rimas melhores que eu já tinha feito com essas três letrinhas que viram sete quando assim convém. recentemente, eu comemorei um gol do flamengo no maracanã, virei criança e queria ter contado, mas passou de brisa quando lembrei da vida vivida, de gente viva, quinem você dizia. coisa dessas lembranças que me deixam apalavrada aparecendo de repente em qualquer mínimo detalhe.

eu me pego perguntando aos ventos por onde você anda e pra onde você corre, pra que lado da vida olha, pra que coisa bonita para, que cheiro tem sua nuca, que som te emociona, que suspiro te acalma e pra que número você se atenta nas placas dos carros e na contagem do sinal de trânsito.

[enquanto te escrevo, sinto que agora as lembranças pertencem só a mim enquanto se espalham pelo universo inteiro em tom de despedida]

meus olhos esporadicamente molhados vão secando assim como as palavras que consigo dedicar à minha saudade. e nesse adeus solitário, dedico um silêncio pausado pelo barulho da fumaça do cigarro saindo da boca às incontáveis coisas lindas que sonhei viver contigo quando ainda havia espaço pro nosso tempo.

[as palavras desembarcam outonos passados e queimam dentro quase tanto quanto o sol desses dias quentes. assumo a inspiração e respiro a íntima/última lembrança no contra-fluxo de ser quase]

Imagem: Renata Schettino

Acompanhe as publicações e curta a página d’O Novelo no Facebook aqui