Um serão de Dona Benta

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Há uns dois anos eu havia começado a fazer uma entrevista fictícia: eu era um repórter que entrevistava a personagem Dona Benta.

Acabei fazendo só três perguntas pra ela…

Hoje relembrei do meu exercício, reli e fiquei com vontade compartilhar.

Lembrei-me da entrevista ao ver a postagem com o documentário do Eduardo Coutinho: as “Últimas Conversas” foram como que o “pirlimpimpim” que me fizeram viajar ao passado.

Porque pensei na “pureza da resposta das crianças”.

Numa das poucas vezes que falei em público, foi para uma plateia de crianças que estavam para entrar na adolescência.

Quando falava da Constituição de 88, iniciei dizendo que ela foi o documento que coroou a transição de uma Ditadura para uma Democracia.

E joguei a pergunta para a sala: o que é uma Ditadura?

Um garoto da frente respondeu:

─ Ditadura é a guerra entre o povo e os soldados.

Penso que é mais ou menos isso. Achei a resposta inteligente, uma boa metáfora.

Ultimamente sinto falta da “pureza da resposta das crianças” nos adultos, da curiosidade que elas têm para conhecer as coisas. Podem ser ingênuas, mas não são tão estúpidas como nós.

Segue abaixo a minha “entrevista”, ou “textão”:

UM SERÃO DE DONA BENTA

“Numa casinha branca, lá no Sítio do Pica-Pau Amarelo, mora uma velha de mais de sessenta anos. Chama-se Dona Benta. Quem passa pela estrada e a vê na varanda, de cestinha de costura ao colo e óculos de ouro na ponta do nariz, segue seu caminho pensando:
– Que tristeza viver assim tão sozinha neste deserto…
Mas engana-se. Dona Benta é a mais feliz das vovós”. (Reinações de Narizinho)

De fato, Dona Benta é uma senhora bastante feliz. Lúcida, esclarecida, bem humorada, com espírito jovem e mulher de muita leitura, usufrui de uma biblioteca farta, abastecida com livros de artes, literatura, ciências naturais, dentre outros que costuma receber de um livreiro da cidade de São Paulo.

Dona Benta vive na mesma casa do sítio com a neta Lúcia, apelidada de “Narizinho” por causa do nariz pequeno e arrebitado. Seu outro neto, Pedrinho, costuma passar as férias lá, época do ano em que a alegria da velha se completa.

Com humildade e didática cativante, Dona Benta ensina de tudo um pouco aos pequenos e a quem estiver por perto. Faz questão de dividir o que aprendeu e aprende durante a vida, sobretudo a partir das leituras dos volumes da incrível biblioteca.

É o que pude observar na visita ao Sítio do Pica-Pau Amarelo, onde Dona Benta concedeu entrevista com exclusividade.

P: O que tem a dizer sobre as crianças?

R: Olha, uma das coisas que me fascina nas crianças é a curiosidade que elas têm. Aqui no sítio, além de tentar ensinar algumas coisas aos meus netos, procuro sempre fomentar neles essa virtude. A curiosidade é, digamos, o apetite do intelecto. A transmissão de conhecimento não basta, é só um ponto de partida, envolve basicamente um comportamento passivo por parte do receptor. Aprender é muito mais do que isso: quem quer aprender de verdade tem de ser curioso, tem de ir atrás, tem de se comportar ativamente também. E as crianças são curiosas. Um dia o Pedrinho disse para mim o seguinte: “Sinto uma comichão no cérebro. Quero saber coisas. Quero saber tudo quanto há no mundo” . Lindo, não é? Outra coisa incrível é a criatividade, a imaginação. As crianças são muito criativas, o poder de imaginar delas é mais fértil do que o nosso, porque as crianças são recentes no mundo, desprovidas das ideias preconcebidas dos adultos. Na medida em que envelhecemos tendemos a conhecer mais e a ser menos criativos. A pureza das crianças potencializa a criatividade, natural nelas, uma beleza. Dia desses assisti ao documentário de Eduardo Coutinho chamado Últimas Conversas. Ele entrevista diversos jovens do Ensino Médio e, no final, entrevista uma criança, uma menininha muito encantadora. Depois de entrevistar essa menininha, Coutinho considera que deveria ter feito o documentário apenas com crianças. Depois que ele diz isso dá para ouvir uma mulher que não aparece no vídeo dizendo mais ou menos isto: “e por que não? vamos fazer!” Pena que Coutinho veio a falecer antes… Eu queria ver um documentário desses. Agora sua ideia serve de provocação para outros documentaristas, serve de lição para os novos. Resta a eles irem atrás.

P: Como fomentar a curiosidade?

R: A gente se diverte quando aprende. Então o primeiro passo é tornar o aprendizado divertido e interessante. Na verdade, praticamente todos os assuntos têm ingredientes para despertar interesse, depende da forma como são postos, encarados, escritos etc.. Um livro mal escrito dificilmente atrai a atenção do leitor, da mesma forma com que uma aula monótona ou mal preparada faz o aluno se distrair ou ter sono facilmente. Há muitos alunos que dizem detestar Matemática, por exemplo. Eu acredito que esse desprezo muitas vezes é reflexo de aulas mal expostas, que são fatais, traumáticas, desestimulantes. A aula ruim mata talentos, desencoraja. Ao contrário de iluminar, apaga. E isso pode acontecer em relação a qualquer disciplina ou parcela do conhecimento. Voltando à Matemática: tenho na biblioteca aqui do sítio a coleção de Malba Tahan, o pseudônimo do grande professor de matemática e escritor Júlio César de Mello e Souza. Este notável brasileiro escreveu livros que encantaram e continuam a encantar gerações e gerações pela Matemática, ao contrário de alguns professores que aterrorizam alunos com métodos didáticos ineficientes, torturantes, extremamente desinteressantes. Recomendo a leitura de Malba Tahan, seus livros são divertidíssimos, e não apenas em relação à Matemática. Muita gente passou a gostar dos números e a reconhecer o valor da matemática depois de ler Malba Tahan, principalmente O homem que calculava, as narrativas sobre o talentoso calculista árabe Beremiz Samir.

P: E as fábulas?

R: As fábulas constituem um patrimônio comum da humanidade. A origem delas é atribuída a um escravo da Grécia chamado Esopo, mas existem diversas versões narrativas aqui e acolá, como costuma ocorrer em relação aos contos de fada. Às vezes encontramos inovações quanto ao enredo e desfecho, mas a maioria difere apenas em detalhes e estilo, mantendo o conteúdo padrão das histórias e conservando o ensinamento moral que as marcaram. Quem não se lembra da fábula do menino engolido pelo lobo? E daquela do leão e do mosquito? Todas merecem ser contadas e recontadas, como é feito há mais de dois mil e quinhentos anos. Por trás da singeleza de cada fábula há uma lição da qual podemos nos valer para encarar as complexidades que a vida traz. Uma vez o Sabugosa me disse algo interessante sobre as fábulas. Segundo ele, elas mostram duas coisas: “que o mundo é dos fortes e que o único meio de derrotar a força é a astúcia”.