29/jun/2018 por

solidão em prelúdio

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tenho ficado acostumada a catar os ciscos de solidão que se espalham nos meus dias. quase poeira, mas vez em quando dá pra segurar na mão bem apertado, como se pertencesse. o papel em branco embrulha a falta da poesia, era pra ela ser bem vinda, mas não vem. não mais. são muitos os passos apressados nas ruas todas por onde ando, também apressada, dizem que ando dando uns pulinhos, vai saber se é verdade, eu só tenho medo de no emaranhado dos rostos sem nome, perder o meu.

não, não é tristeza. é espécie de saudade do que ainda não foi, do que teria sido, do que um dia eu tentei, lá quando criança, pensar que era. é saudade enlatada, a lata enfeitada por fora, o ar puro lá dentro, preso à chave, não dá pra ver, só saber, bem lá no fundo da imaginação, que existe.

os livros que não li empilhados na estante, contrastam com a mesa do bar que me recebe sempre muito bem pra uma conversa. este guardanapo hoje escreve um poema sobre a minha presença, que me invade, como me invade!, cada dia mais, nesse passar de anos.

as palavras que já não se alongam me aguardam numa esquina próxima em que reconheço talvez, no futuro, um novo pedaço de trilha. por enquanto, me deixo amparada pela sensação de ser tudo muitíssimo improvável. o asfalto queima as vistas da gente, e hoje eu só queria pisar descalça na terra molhada de chuva.

Imagem: Renata Schettino

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