18/nov/2017 por

Sobre lobos de fábula e predadores reais

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Lobos de fábulas e delinquentes apreciam palavras jubilosas e lisonjeiras; gostariam ser tidos na conta de personagens de moral ilibada e caráter idôneo, ser vistos como modelo exemplar de inatacável retidão. Os rapapés e bajulações de seus áulicos lustram o ego e encantam os ouvidos.

São vaidosos, ciosos de suas supostas e legítimas prerrogativas edificantes. É essa imagem idealizada que buscam refletida no seu espelho, sempre conspurcado por olhos dissimulados. Nesse reflexo benfazejo todos os ardis criminosos e covardes evanescem; se os traços desabonadores do “Retrato de Dorian Gray” original forem expurgados não existe mais perigo de importunos inconvenientes ferir suscetibilidades do criminoso contumaz e cínico.

Ocorre paralelo dessa prática nas semi-democracias onde cordeiros displicentes continuam bebendo água no riacho sem vislumbrar sua inexorável extinção caso nada seja feito para sustar a sanha dos predadores. Seu destino estará selado se por incapacidade, omissão ou pusilanimidade não se valorizar a liberdade duramente conquistada e por desleixo olvidar a ‘eterna vigilância’.

Findou o tempo de manter braços cruzados na espera do beneplácito dos que tomam o poder de assalto, derradeiros apóstolos do falso-moralismo que não são pessoas sérias e usam de todos artifícios imagináveis para perpetuar a vergonhosa atividade de usurpação do poder legítimo e constitucional. Em eventuais próximas eleições, apesar do diverso arsenal de chantagens e sabotagens, pode lhes suceder nova derrota. Entretanto o mal costume adquirido buscará reverter adversidades com ações espúrias e manobras reacionárias repostas na ordem do dia em prol da manutenção do status quo.

Deve-se expor à luz do dia as vilezas urdidas e praticadas pela ignóbil camarilha desses vassalos ligada a ocultos interesses. Não se pode deixar espaço vazio nas trincheiras dessa guerra de guerrilhas, nem abandonar a denúncia da demagogia que oculta as intenções de locupletar seus agentes. Vivemos tempos inquisitoriais propícios a redivivos Torquemadas e Savonarolas e seus êmulos, estes invocam os “altos interesses e excelsos motivos da pátria” para eximir suas imposturas. Difícil esquecer a conveniência do discurso fascista e pseudo-religioso para silenciar o barulhento coro dos descontentes.

Apenas em estórias exemplares e caricatas o mal é facilmente vislumbrado. A realidade exige argúcia e discernimento para não correr risco de afundar na letargia. Os lobos de fábula são ‘ridículos tiranos’; os outros ‘devoradores’ usam mentiras para ‘justificar’ atos covardes, absurdos e indefensáveis.

“O homem é o lobo do homem”, esse é o real inimigo que não deve ser depreciado na sua capacidade de propagar o mal; os outros lobos são apenas animais. Pode se dar desconto aos últimos, pois agem tão somente pelo instinto de autoconservação; mas nunca a facínoras deletérios: são bestiais predadores venais.

Imagem: o retrato de Dorian Gray

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