09/jun/2018 por

Sobre a vida cotidiana dos outros

caixa 2

SOBRE A VIDA COTIDIANA DOS OUTROS (Parte 1)

Recebe “benefício” do governo durante um tempo, vai aos poucos conseguindo melhorar a vida. Os filhos pequenos entram na creche em período integral. Com os filhos na creche, consegue um emprego. Tudo bem? Tudo melhorando. Mas daí o benefício é cortado. Apesar da melhoria de vida, ainda era necessário para sobrevivência da família. Mas tudo bem, ainda tem emprego. Tanta gente não tem, não é mesmo? É. Mas daí acabam com a creche em período integral. Agora só meio período. “A mãe tem que se virar pra cuidar do filho, oras! Não botou no mundo? Então! Afinal, mãe é mãe”. Ela precisa trabalhar pra garantir a sobrevivência da família, só que não pode deixar os filhos pequenos sozinhos. Tem que dar um jeito. Chama alguém da família pra cuidar dos filhos. Tem que pagar pelo menos um pouco pra cobrir os custos da pessoa né? Senão não é justo. Pra poder trabalhar, tem que pagar alguém pra ficar com os filhos. E daí tem aluguel. Tem conta de água, conta de luz. Nisso, vai todo o salário. Não sobrou pra comida. Come de favor na casa dos outros. É começo de ano, tem que comprar material escolar. Com que dinheiro? “Pede ajuda!” Tá todo mundo sem dinheiro, não tem pra onde correr. A fila da política pública tá virando quarteirão. Pra marcar horário com assistente social tem que faltar no emprego. O contrato de trabalho é novo. E se mandarem embora? Emprego tá difícil de encontrar. Justiça de trabalho não existe mais. E agora? Tem que dar um jeito. Não tem mais jeito pra dar.

Mas o meu tá garantido. Os outros que se virem. Tá tudo no lugar.

SOBRE A VIDA COTIDIANA DOS OUTROS (Parte 2)

As coisas tão piorando a cada dia. O emprego, que era escasso para aqueles da periferia, cuja moradia é motivo de preconceito, está ainda mais longe. Os bicos estão cada vez mais difíceis de encontrar. Fazia diária pra colocar comida na mesa. Mas as contratantes também perderam emprego. Não tem mais como pagar a diária. A fonte secou. A política pública, que já era restrita, diminuiu ainda mais. Não tem pra todo mundo. O que tem, não dá. Não dá pra manter a casa, não dá pra pagar conta, não dá pra comprar comida. Para o gás, então. Nem se fala. Cozinha com álcool mesmo, corre risco. Mas vai fazer como? Não tem dinheiro para o gás. Precisa comer. Quando tem comida. A fome tá à espreita. De novo.

Mas o meu tá garantido. Os outros que se virem. Tá tudo no lugar.

SOBRE A VIDA COTIDIANA DOS OUTROS (Parte 3)

Deu positivo. Mas como? Deu positivo! Usava anticoncepcional, mas ninguém explicou que o efeito era prejudicado quando tomava antibióticos. E agora?

O anticoncepcional injetável que era aplicado no posto de saúde está em falta há mais de 3 meses. Não tem previsão pra chegar. Era pra ter renovado a dose mês passado! Pra comprar no particular precisa de dinheiro. E não tem dinheiro nem pra comer, quanto mais pra contracepção! Vai ficar pro mês que vem. E agora? Deu positivo.

O método falhou. A camisinha estourou. O pai abandonou. Largou o emprego pra não ter que pagar pensão. Sumiu no mundo, não quer nem saber. Até engravidar, era um príncipe. Agora nem olha na cara. Nem o leite quer pagar.

Mas hoje em dia “engravida quem quer”. Agora aguenta. Quem mandou nascer mulher?!

O meu tá garantido. Os outros que se virem. Tá tudo no lugar.

SOBRE A VIDA COTIDIANA DOS OUTROS (Parte 4)

Tá difícil encontrar emprego. Se falar o endereço onde mora, então… Morar na periferia fecha as portas. Ninguém contrata. O emprego, que já era difícil de encontrar, fica ainda mais longe quando se mora na periferia. Tem muito preconceito. E o emprego vai ficando longe. Em todos os sentidos. Não tem postos de trabalho na periferia. Tem que ir pro centro. Como vai pro centro? Antes tinha ônibus que ia direto. Agora só de 40 em 40 minutos. Tem que fazer baldeação. Não vai mais direto. Vai a pé mesmo. Uma hora. Duas horas. Andando. Atravessa BR. Atravessa rua movimentada. Não tem faixa. Não tem passarela. As pessoas dentro dos carros não respeitam. Avançam. Corre risco. Com criança. Com idoso. Grávida. Carregando um monte de coisas. Se pega ônibus, demora mais. Chega atrasado. Perde tempo. Isso quando tem dinheiro pra pagar a passagem. Perde compromisso por não ter dinheiro pra ir. Médico. Entrevista de emprego. Exame. Atendimento com assistente social. Com psicóloga. Tratamento de saúde. Creche. Escola. Não consegue levar currículo. Tudo fica longe. Cada vez mais longe. Ninguém quer olhar pra periferia.

Mas é só se esforçar. Meritocracia é isso. Quem se esforça, consegue. Mas e o transporte? E o preconceito? E as condições mínimas?

Isso é com os outros. O meu tá garantido. Os outros que se virem. Tá tudo no lugar.

SOBRE A VIDA COTIDIANA DOS OUTROS (Parte 5)

É mãe solo. O genitor abandonou os filhos. Nem pensão quer pagar. Até atravessa a rua quando vê o filho passar. Cuida sozinha. Dos filhos. Da casa. Da avó doente. E dela mesma, quem cuida? Não pode trabalhar porque cuida sozinha de tudo isso. Não pode deixar os filhos sozinhos. Não tem creche período integral. Recebe benefício do governo. Uma merreca. Tem que se virar com o mínimo. Só pra sobreviver. Pra ter o que comer. Fica doente, não consegue levar as crias pra escola. Não tem ninguém pra ajudar. Falta na escola. Bloqueia o benefício. No motivo do bloqueio consta “negligência dos pais e/ou responsáveis”. Negligência. Da mãe que cuida sozinha. Sem a presença do pai. Sem rede de apoio. Sem creche em período integral. Sem transporte público gratuito e de qualidade. Sem condições mínimas. Mas não importa. Penaliza ela. A “mãe negligente”.

E agora? Com que dinheiro vai pagar as contas e comprar a comida?

Isso é com os outros. O meu tá garantido. Os outros que se virem. Tá tudo no lugar.