08/mar/2016 por

Quanto é que fica?

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Exatamente há três anos, no dia Oito de Março de 2013, o chamado “Dia Internacional da mulher”, como todos os dias, eu acordei e me arrumei para o trabalho. Logo cedo, bem cedo… ainda com aquela névoa de madrugada, típica da cidade de Curitiba, me encaminhei para a estação de ônibus perto da minha casa. No trajeto encontrei um homem, no meio de vários, todos a caminho de uma construção aonde trabalhavam, foi quando eu escutei de um deles quando se aproximou de mim: “Ei quanto é que fica?”. A pergunta veio seguida de um riso debochado, não somente dele, mas de todos os homens que o acompanhava. Hoje penso em tantas coisas que eu poderia ter dito ou feito naquele momento, mas na hora eu só me senti invadida e humilhada, tão humilhada que não consegui ter qualquer reação!
O caminho todo para o trabalho aquilo me atormentou, ainda angustiada pensei: “é Oito de Março gente e eu fui violentada!”. Na verdade, todos os dias somos violentadas, mas a data em que tudo aconteceu foi muito significativa pra mim.

Chegando no trabalho, um serviço público, fui recebida por um funcionário com uma rosa e um sorriso, com a maior das boas intenções, ele me disse: “Feliz dia da mulher!”. Acho que ele nunca havia sorrido pra mim nos corredores da instituição. Alguns poderiam pensar que eu ficaria feliz com aquela “homenagem”, mas a realidade é que uma rosa não vai mudar minha vida, uma rosa não vai mudar as estatísticas sobre o feminicídio, sobre a violência que somos submetidas todos os dias e obviamente não me faria esquecer a violência ocorrida naquela manhã.

Quantas mulheres naquela manhã também não sofreram algum tipo de violência? Me pergunto. 

Revoltante é perceber que o Dia Internacional da Mulher é reduzido a supostas homenagens que apenas reforçam as condições que nos dominam, exploram e oprimem. Bombons, rosas, doces, cartões não mudam a nossa realidade, porque no outro dia, não será mais dia da mulher, será outro dia, mais um dia-a-dia em que vamos sair de nossas casas com medo de sermos estupradas, incomodadas com violências “confundidas” frequentemente com elogios.

Afirmo aqui nosso simples desejo, um desejo que deveria ser condição estabelecida, deveria ser direito. Mas que essa condição seja cada dia mais concreta em nossas vidas, a de ser respeitada todos os dias, de poder sair nas ruas sem ser importunada, de poder usar as roupas que quiser sem ser chamada de vagabunda, queremos ter a mesma qualidade de vida no mundo do trabalho e em todos os outros espaços como os homens possuem, principalmente quando nos referimos aos salários. Queremos nunca mais ouvir de alguém que não podemos fazer alguma coisa porque somos mulheres! Nunca mais queremos ser tratadas como objeto como fui tratada no dia Oito de Março de 2013 e nos vários outros dias da minha vida e tenho certeza que nos outros dias da vida de tantas outras mulheres!

O Oito de Março não deveria ser um dia de comemoração, mas de luta, resgatando suas origens radicais  quando foi pensado por Clara Zetkin e as revolucionárias comunistas no início do século XX. Hoje temos muito caminho pela frente, assim, cabe a nossa geração o fortalecimento de um movimento feminista de fato comprometido com a luta contra a sociedade burguesa, patriarcal e racista.

Portanto, é preciso desconstruir a falácia de que o feminismo não é mais necessário, basta querer enxergar a realidade das mulheres que são violentadas dentro de suas casas, nas ruas, nos espaços de trabalho sendo desqualificadas pelo simples fato de serem mulheres, isso já desmontaria qualquer argumento de desinformad@s que insistem em afirmar que já conquistamos direitos iguais ou que somos mal-amadas, exageradas, histéricas e chatas, afinal o mundo para quem dispõe da conveniência dos privilégios anda muito chato ultimamente não é?!

Hoje, Dia Internacional da Mulher, é dia de reafirmação da nossa luta diária, da nossa história e da nossa força!!

Imagem: Lonely Girl (Одинокая девушка), em fonstola.ru