23/ago/2016 por

Pokémon Go nos tempos do cólera: a ressignificação dos espaços públicos

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Os tempos mudam, as brincadeiras mudam. Hoje o que está na moda são aplicativos de celular e jogos cada vez mais modernos. A geração 7×1 que a cada dia tendia mais ao sedentarismo ganhou novos rumos, literalmente.

As gerações anteriores não foram habituadas com a tecnologia para a diversão, ou melhor, com tecnologia tão avançada se comparada a de hoje. As primeiras “experiências” com vídeos games datam o final dos anos 40, mas obviamente não tinham o mesmo apelo que os de hoje.

As ruas próximas às casas eram a recorrência da molecada para a diversão.

O futebol, o taco (ou bets), as desbicadas com as pipas (e a correria atrás delas quando alguém as cortavam), os campeonatos de bolinha de gude e etc., eram em sua grande maioria concentrados aos limites do bairro. Por muitas vezes existiam esses limites não pelo fato das mães e/ou pais não deixarem os filhos “explorarem” a cidade, mas pelo motivo que para jogar bola não precisávamos ir muito longe. Uma bola e algo para fazer o gol (podia ser chinelo, tênis ou tijolo) já era diversão garantida. O taco também a mesma coisa, mas se fosse ter jogo com o pessoal da rua de baixo era necessário combinar as regras, pois cada rua tem a sua, entretanto, sempre acabava em discussão.

O Pokémon Go quebra essa linha. O jogo em si te obriga a explorar a cidade, ganhar cantos novos a cada dia atrás de um monstrinho diferente ou de Pokéstops, Pokégyms e etc. Enfim, a intenção desse texto não é detalhar o jogo e de como ele funciona, mas sim fazer uma análise da interação do mundo virtual de realidade aumentada, do jogador e do mundo real.

Por que o jogo teve este sucesso rapidamente? Podem ter inúmeros fatores que influenciaram neste fenômeno. Podemos citar desde o saudosismo do famoso desenho que ganhou os jovens no final dos anos 90 e começo dos anos 2000, até pensar um pouco mais profundamente pela ótica de que Pokémon Go proporciona um escapismo, nos apresentando um mundo mágico na tela do celular permeando o dia a dia de um mundo real que nem sempre é o ideal.

Fetichizar um mundo ideal é algo intrínseco ao ser humano. Quase todos, senão todos, idealizam situações fora da realidade, principalmente usando a ficção ou algo que está muito longe de ser verdade. Quantos jovens não idealizaram estar em Hogwarts na companhia de Harry Potter ou lutando com sabres de luz contra Darth Vader? O saudosismo citado anteriormente recai neste escapismo, seguindo esta mesma ótica. Quantos dos jovens que assistiam Pokémon nos anos 90 não sonhavam em ser mestres Pokémon?

Entretanto, Pokémon Go se tornou um jogo que quase existe no mundo real. A tecnologia da realidade aumentada fornece aos usuários um mundo capaz de conectar o real e ideal em uma tela do celular.

Desta forma, podemos pensar que parece que transformamos o nosso mundo em algo tão perverso que o jogo pode ser entendido como um escapismo da realidade. Notícias ruins se espalham pelos jornais e viralizam nas redes sociais nos mostrando a crueldade que circula em nosso meio através de atentados terroristas, ou crimes datenísticos que chocam a população, ou do descaso da classe política visto pelos infinitos casos de corrupção, assim como qualquer coisa que transgrida os valores morais e éticos estabelecidos pela sociedade, mesmo estes valores sendo distorcidos.

Pokémon Go tira os jogadores da rotina do mundo real. Somos condicionados a acordar todos os dias e seguir um cronograma estabelecido pra semana. Quando digo rotina, digo algo sintético de uma visão da sociedade capitalista meritocrática que enaltece quem acorda de manhã, vai trabalhar/estudar e ao final do dia volta pra casa.

Talvez seja aí também que mora umas das principais críticas. Mas será que todos devem ou são produtivos o tempo todo? Onde fica o momento de lazer e ócio? Em conversas de rodas de amigos ou na time line do facebook chovem tipos de comentários como: “Por que não pegam um livro pra ler?” ou “Vá capinar um lote que você ganha mais!”, entre outras que não merecem ser elencadas.

Muitos outros hobbies e/ou atividades podem ter mais ganhos intelectuais, físicos, sociais e etc. Mas para quem? A cada dia surgem novas notícias de hospitais que usam o jogo para tirar os pacientes, em sua maioria crianças, do quarto, fazendo-os esquecer nem que seja por um momento de sua condição. Outro caso que tomou bastante notoriedade é de um menino autista que não saia de casa e não interagia com outras pessoas, onde a mãe conta que o jogo fez com que ele tivesse vontade de ir para a rua brincar. Há casos também de pessoas sedentárias que perderam peso por causa das incansáveis horas de caminhadas atrás dos Pokémon, ou seja, as pessoas estão se movimentando, deixando as suas casas e enchendo os espaços públicos, novamente.

É inegável que os espaços públicos receberam uma nova forma e conteúdo. As ruas e seus arredores demonstram uma atmosfera recreativa diferente e com uma nova forma de interação social.

As ruas estão ganhando novos caminhantes, as praças conquistaram novos adeptos…ops, na verdade, as PokéStops e PokéGyms presentes nestes espaços que estão sendo frequentados. Uma praça só é uma praça para aqueles que a entendem e a usam como uma praça. Para outros é apenas mais um PokéStop.

Estes novos rumos que os significados dos espaços públicos estão tomando podem ser explicados também por causa da crise dos indivíduos com estes espaços que frequentam, ou melhor, que deveriam frequentar, ou que agora frequentam com um outro significado.

Esta crise pode ser fruto do afastamento e abstenção de municípios, estados e federação proporcionando políticas públicas que convidem o indivíduo a vivenciar as cidades, como também da subjugação da coletividade em prol da valorização da individualidade, ou seja, a defesa da propriedade privada. Estas questões podem ser somadas a crescente informatização da sociedade, outro ponto importante da pós-modernidade.

Isto acaba se tornando o ambiente propício para o desenvolvimento e crescimento de jogos a la Pokémon Go.

A sociedade pós-moderna nos trouxe uma era informacional, cibernética que expõe uma crise dos espaços públicos e da coletividade alimentando os vazios de uma cidade segregada. Cada vez mais vê-se a valorização do eu, a mercantilização das relações e a dinâmica da informática como o palco principal das metrópoles modernas.

Pokémon Go tornou-se, de certa maneira, um resgate à vida no espaço público ressignificado, proporcionado pelo capital. Não há apenas uma ressignificação do espaço, mas também das relações que dialogam com a realidade de hoje.