03/maio/2016 por

Os Saltimbancos ou A Revolução dos Bichos Brasileiros

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Os Saltimbancos

Quando era pequena e ouvia Nara, Miúcha e Chico (que depois vieram a se tornar nomes de meus gatos) cantando Os Saltimbancos, não tinha ideia da complexidade dos temas abordados nas canções. Os Saltimbancos, espetáculo músico-teatral visando o público infantil,  teve sua estreia no Rio de Janeiro, em agosto de 1977. Trata-se da história de quatro animais que, explorados por seus donos, fogem para a cidade com o objetivo de tentar a vida como músicos. Nesse trajeto, a galinha, o cachorro, a gata e o jumento narram suas experiências e conclusões tiradas dessa fuga em busca da liberdade e da “Cidade Ideal”.

Uma adaptação dos Músicos de Bremen (dos irmãos Grimm), Os Saltimbancos podem ser vistos como uma alegoria política em que o jumento pode ser tanto o “chapa” – descarregador de caminhão, geralmente trabalhador do campo que, expulso pelo agronegócio,  vai à cidade em busca de emprego (“Trabalha, trabalha de graça/ Não agrada a ninguém/ Nem nome não tem/É manso e não faz pirraça/ Mas quando a carcaça ameaça rachar/ Que coices, que coices/Que coices que dá) – quanto o agricultor (“o pão, a farinha, o feijão, carne seca/ quem e que carrega?”).

A galinha representa a classe operária (“A escassa produção/ Alarma o patrão/ As galinhas sérias/Jamais tiram férias/”Estás velha, te perdoo/Tu ficas na granja/ Em forma de canja“), enquanto o cachorro é a alegoria dos militares (“Lealdade eterna-na/Não fazer baderna-na/Entrar na caserna-na/ O rabo entre as pernas-nas (…) Fidelidade/À minha farda/Sempre na guarda/Do seu portão/Fidelidade/À minha fome/Sempre mordomo/E cada vez mais cão“).

A gata representa os artistas (“Mas é duro ficar na sua/ Quando à luz da lua/ Tantos gatos pela rua/ Toda a noite vão cantando assim/Nós, gatos, já nascemos pobres/ Porém, já nascemos livres“). Finalmente, em A pousada do Bom Barão, tem-se o barão, inimigo dos bichos, sendo a própria personificação da elite (“Proibida a entrada/Exijo gravata e dados pessoais/ Proibido aos mendigos e aos animais“).

Em Todos Juntos, após narrar as qualidades de cada um dos componentes da trupe, os quatro amigos chegam à conclusão de que unidos são capazes de enfrentar toda e qualquer situação, tendo no mundo muitos outros iguais a eles:

“Todos juntos somos fortes
Não há nada pra temer
E no mundo dizem que são tantos
Saltimbancos como somos nós.”

Milton Santos, geógrafo brasileiro, dizia que a força da alienação vem da fragilidade dos indivíduos de apenas identificar o que os separa e não o que os une. A mesma mensagem é passada de maneira precisa e clara na canção: é preciso ter a capacidade de olhar além das diferenças e mais: usar essas particularidades  a serviço do grupo.

Quase quarenta anos se passaram e os inimigos dos mendigos e dos animais ainda querem que a gata seja do lar, que o burro carregue a carga sem coice, que os cachorros espantem os estudantes e que a galinha vire canja. Ainda tenho  esperança que após todos esses anos as crianças dos anos oitenta, como eu, possam se lembrar de que:

 “Era uma vez
(e é ainda)
Certo país
(E é ainda)
Onde os animais
Eram tratados como bestas
(São ainda, são ainda)
Tinha um barão
(Tem ainda)
Espertalhão
(Tem ainda)
Nunca trabalhava
E então achava a vida linda
(E acha ainda, e acha ainda)
O animal é paciente
Mas também não é nenhum demente.”

(Bicharia – Saltimbancos/ 1977).