28/maio/2016 por

O rascunho democrático

papel amassado

Do que seriam os livros feitos, senão de rascunhos?

Tenho dó dos rascunhos, fico me imaginando por que acabamos por não valorizar quem ali estava de peito aberto, com garra e determinação em prol da obra que estava por vir; é uma pena o que fazemos com estas pobres almas, tão maltratadas e tão necessárias.

Nestes dias que se passaram, acabamos desprezando mais um rascunho, elemento este que foi escrito com o sangue dos brasileiros como tinta e a ganância como caneta.

Não entendo como podemos nos iludir coletivamente em torno da despedida das “queridas” – uma a Dilma, a outra a Democracia… A segunda me apetece mais…

O povo supervalorizou, quase em todos os frontes da discussão, a ideia de que estava defendendo a Democracia, ao tentar “pela iniciativa popular” retirar do poder uma pessoa que não os representava; ou ao combater estes em nome da Democracia. Na minha cabeça, o primeiro grupo bradava um eufemismo: “chega desta patifaria popular que nos desagrada”; o segundo respondia basicamente àqueles do outro lado, mas ocupando um espaço parecido: o da classe média.

Respeito plenamente os movimentos populares de base que democraticamente escolheram se posicionar em  nome da “Democracia Brasileira”. Refiro-me aos que participaram do segundo grupo.

Porém, devemos nos perguntar: que democracia? Onde? No Brasil?

É de “dar dó” perceber o quanto as pessoas se iludiram achando que estavam defendendo a obra quando defendiam apenas um rascunho que, como dito anteriormente, é deveras importante, mas não é a obra.

O que aconteceu de fato foi: o grupo contrário à Presidenta e que se cala diante da patifaria que se procedeu nunca esteve preocupado com Democracia. Fato. Os “do outro lado” não se atentaram ao óbvio, o “povão” da favela, do campo (não integrantes do MST e similares), estudantes (escolas públicas), trabalhadores sem teto, entre outras categorias que sofrem por não serem contemplados pelo “rascunho democrático”, não perderam nada. Não há como se perder direitos democráticos quando se vive em Estado de Exceção.

Se chocou?

A luta pela merenda e contra a corrupção nas verbas escolares em diversos estados do Brasil nos comprovam isto, a democracia não funciona para eles; a forma como o governo tratou de “limpar” os morros cariocas para preparar a cidade para a Copa do Mundo também nos mostra isso; os assassinatos não muito raros, mas raramente denunciados na grande mídia, que assombram os trabalhadores do campo é mais uma prova; a existência de trabalho análogo à escravidão, as mulheres que morrem em abortos clandestinos ou acabam tendo consequências graves, lideranças indígenas, vítimas do preconceito de gênero, população negra que é constantemente vitimizada em diversos aspectos, entre outras vítimas, também nos comprovam.

Imaginamos Estado de Exceção como algo mais militarizado, porém, independe disto para se realizar como tal, não percebeu?

Algumas pessoas perceberam…

Para concluir, gostaria de deixar uma pergunta para que os nobres convidados dispostos abaixo pudessem nos responder quando tivemos Democracia no Brasil. Caso estes não possam, convido seus familiares para explicar: por que aqui tínhamos apenas um rascunho?

AMARILDO DE SOUZA (RJ)
ARACELI CABRERA SÁNCHEZ CRESPO (ES)
MARIA NILCE GUIMARÃES (ES)
DOROTHY MAE STANG (PA)
MARINALVA MANOEL (MS)
LETICYA SANTOS IGNÁCIO (SP)
SEMIÃO VILHALVA (MS)
MENIN@S DO VIDIGAL (RJ)
DETENTOS DO CARANDIRU (SP)
FAVELA DO PINHEIRINHO (SP)
MORADORES DA COSTA SUL DE SÃO SEBASTIÃO (SP)
VÍTIMAS DA CHACINA POLICIAL DE LONDRINA (PR)
TODAS AS PESSOAS RESTANTES E NÃO MENOS IMPORTANTES.

Apenas um rascunho…