05/mar/2018 por

O rascunho democrático (parte II)

c46f981d7adb2151341e6da0644aada0

Certa vez, neste mesmo local, publiquei um texto comentando o processo de impeachment da Dilma e como as pessoas estavam debatendo o ideal democrático, tanto por parte dos apoiadores quanto dos contrários ao ocorrido. Nesta situação, tentei expor que esse ideário democrático da discussão existia majoritariamente enquanto preocupação da classe média, em ambos os lados.

A democracia brasileira é apenas um rascunho democrático, como dito no texto anterior, ou seja, o Brasil dos pobres é um Estado de Exceção há anos, nunca houve democracia para estes.

E sabe o que é pior?

O texto mal teve a oportunidade de completar um ano de existência e esta realidade se torna explícita com a “intervenção federal” no Rio de Janeiro, interpretada aqui como eufemismo para ditadura, pois, assim como o capitalismo se reinventa, o autoritarismo também tem seu jeitinho moderno de existir.

Não existe aqui uma tentativa de realizar uma abordagem sensacionalista ou amenizante. O ponto a ser discutido é o seguinte: ainda que não haja o desejo de que “a moda pegue em outros contextos e estados”, o Rio é de fato o problema? E mais, será que essa é a solução?

O índice de homicídios do Rio não é algo que dá orgulho, mas não passa perto de índices de outros Estados e cidades como demonstrado no último mapa da violência elaborado pelo IPEA, fora isso, a bagunça administrativa das gestões atuais e passadas é muito mais relevante no desenvolvimento desta crise, ou seja, aos amigos nada e à população pobre chumbo?

Pois bem, quando falamos em assaltos e furtos, a coisa muda de figura e o Rio desponta como um excelente campeão no quesito, porém, adivinha onde este número aumentou nos últimos anos, na periferia³? Pois é, aumentou em Copacabana e em outras regiões de gente abastada, já começou a entender?

Quando penso em “intervenção federal”, no caso do Rio, acredito que se a medida fosse minimamente séria começaria por intervir na administração pública, a segurança pública receberia apenas reforços de inteligência, ponto. Se um Estado não consegue se administrar, como pode garantir segurança aos cidadãos? Ninguém aprendeu nada com a Copa, é sério? E com as Olimpíadas, menos ainda? Pode até parecer bobagem, mas ninguém assistiu aos dois filmes Tropa de Elite? É isso?

Por décadas a resposta à violência vem sendo propagandeada com a necessidade de mais policiamento e mais prisões, e ninguém reparou que não deu certo essa ideia?

Mas deveria ter pena de morte, alguns dizem, se esquecem que, mesmo com pena de morte, as pessoas continuam matando e realizando barbaridades em países que tem tal prática, ou seja, não resolve a questão da segurança e apenas “satisfaz” um desejo sangrento do tipo show de violência que as pessoas tanto gostam de assistir, e traz à tona a violência reprimida dentro dos cidadãos que, não sem razão, querem solucionar o problema, mas não fazem a menor ideia de como chegar ao resultado.

A resposta “democrática” ao problema midiático do Rio foi, em termos práticos, ditadura, simples. Se antes desse fenômeno a população pobre vivia em um Estado de exceção velado, agora rasgamos o véu da hipocrisia e assumimos o posicionamento do Estado em relação aos moradores honestos daquelas regiões que pagam o preço em nome de uma minoria tão canalha e covarde quanto aqueles que eles financiam, para ficar claro, traficantes e chefes de quadrilha financiam políticos e quem paga é o trabalhador honesto; pior do que a rotina diária destes é o descaso da população em geral que mal enxerga estas pessoas como pessoas, isto mesmo, quando vemos as imagens desta invasão organizada pelo Estado parece que quase ninguém se dá conta que aqueles indivíduos que ali se encontram sendo abordados de forma truculenta, invasiva e imoral são pessoas.

Preciso falar sobre raça e classe?

Não deixaria passar…

É gritante que os afetados diretamente por esta prática correspondem à população majoritariamente pobre e negra, é retumbante o fato de que a população rica comemora a medida de forma egoística, não dão a mínima para como vão resolver o problema, desde que resolvam e, caso no processo morram pessoas inocentes, direitos sejam desrespeitados e famílias traumatizadas, terá sido pelo bem maior, no caso, o deles.

Faço um convite às pessoas que leem este texto, façam uma busca por imagens e vídeos das ações do exército no Rio, reparem na cor das pessoas abordadas e comecem a se questionar o seguinte: porque as pessoas estão sendo tratadas desta forma se o governo federal não está preocupado em resolver situações mais gritantes em outros lugares? O pobre paga o preço por viver em um lugar chamado de “cartão postal” do Brasil? A quem o Estado serve? Porque as pessoas reclamam tanto quando se atende demandas das minorias, mas não falam nada quando a burguesia é contemplada? A violência atinge apenas os ricos, melhor, só vale o combate quando atinge estes?

Se antes tínhamos um rascunho democrático, acabamos de lançá-lo ao lixo. Ainda dá para contemplar o arco que o mesmo está realizando em seu voo. Nos resta apenas acreditar que nas próximas eleições este quadro irá se reverter e que salvaremos este rascunho tão maltratado, mas tão necessário.

Deus salve o rascunho.

PS: Enquanto realiza intervenções, o governo federal não pode votar reformas estratégicas, por exemplo, a da previdência… que coincidência, não?

Acompanhe as publicações e curta a página d’O Novelo no Facebook aqui