02/out/2017 por

O preço da vitória

5753231070_b0d18ff273_b

Depois de tanto tempo penando na vida chega aquele dia que pode-se olhar para trás e dizer-se vencedora. Venci muita coisa que achei que nem conseguiria. E passei por várias coisas que achei que a vida foi injusta e desnecessária. As pessoas batem em minhas costas e me parabenizam pelo que sou hoje, mas eles filtram a minha trajetória para me colocar em um pedestal heroico que nunca quis.

Eu nunca quis ser exemplo vencer, nunca quis ser o símbolo da vitória, da conquista e da superação. Nunca quis nenhum desses títulos e quando me rotulam com eles me dói muito.

Quando tinha apenas 14 anos, a menstruação veio e por um triste momento me tornei mulher. Me diziam que as minhas bonecas já não combinavam com uma moça. Que eu tinha que sentar de pernas fechadas porque já era uma moça. Que não podia brincar na rua porque já era uma moça. Que não podia brincar de casinha porque já era uma moça. Eu não queria ser uma moça, queria ainda ser uma criança, queria brincar com minhas bonecas e assistir desenhos. A mocidade foi um roubo ordenado desde o dia em que o sangue vermelho desceu entre as minhas pernas e sequestrou a minha infância.

Sem entender muito bem essas novas ordens que me faziam amadurecer. Antes mesmo da minha flor o conheci. Ele não era belo como os homens da televisão, ele não era gentil como os meus tios, ele não era alegre como meu irmão, não era de rezar, nem de dançar. Ele só era disponível. E sem muitos encantos, só uma voz baixa, que hoje na memória me causa irritação. Este homem, sem encantos, sem atrativos, me penetrou em uma noite qualquer, de um jeito qualquer, em um momento qualquer.

Deste momento sem prazer e sem romance, com apenas 14 anos e 6 meses, me vi grávida. Depois me vi uma menina de rua, colocada para fora de casa. Passei frio e fome, mendiguei, pedi comida, mas queria pedir colo, ajuda, socorro. Ninguém mais me olhava nos olhos. Aquelas mulheres que me diziam que eu era mocinha e devia me portar como tal, diziam que eu era uma qualquer, uma pessoa que não podia mais andar com suas filhas. Eu me tornei de uma menina, numa mendiga sem valor.

Não queria aquele bebê, juro que não queria. Também não queria aquele homem, nem ser mulher. Mas naquela situação tive que ser tudo o que não queria para comer e ter um lugar para me abrigar da chuva e do frio. Depois de tanto vagar pela rua, a barriga grande a doer as costas e a fome a doer a barriga; uma senhora pretensamente me acolheu. Fui para sua casa, lavar, passar, cozinhar, e trepar com seu marido. Mesmo com as costas doendo por causa do bebê, ele me procurava na madrugada. Sentia aquele pênis velho transpassar não somente meu corpo, mas a minha alma. Cada gozada dele no meu rosto, ou no meu corpo era para mim uma chicotada. Eu não gemia, não gozava, não gostava, somente agradecia o teto e a comida na boca.

Depois que ele não quis mais a sua mulher, ela me pôs para fora e tive que procurar outro lugar. Com um bebê dependendo de mim, tive que novamente me humilhar a toda sorte de necessidades da casa, e tive que servir ao pai e aos dois filhos da casa.

Aquele bebê começou a despertar em mim algum sentimento de cuidado, não sei se era o dever, ou a necessidade de amar algo, mas me apeguei. Uma noite ela ardeu em febre, sem ajuda, procurei um hospital. Depois de esperar horas pelo atendimento veio o veredito: meningite. Recebi o recado que devia voltar para casa para dar conta do serviço ou deveria procurar outro lugar para morar. Enquanto o bebê lutava na UTI, eu mergulhava nos vasos, louças e roupas. Poucos dias depois ela morreu. Não tinha dinheiro para o enterro, era paga com comida e cama. Ela ficou numa cova pequena, rasa.

Fiquei nesta casa por muito tempo, vi os meninos crescerem. Meu corpo não gerou mais filhos, e eu agradeci aos céus, não queria mais ninguém vivendo esse tipo de vida. As crianças da casa cresceram e, em um momento de bondade, a patroa me deixou estudar.

Fiz o EJA, aprendi a ler, calcular, conheci meus direitos e fui embora daquela casa. Consegui outro emprego e comecei a vender café da manhã na parada de ônibus antes de ir para a casa da patroa. Pela primeira vez na minha vida algo deu certo. Amaram meus bolos e pediram encomendas. Como um pedido de desculpas do céu eu consegui uma lojinha perto de casa.

Não tenho muito, comparada com outras tantas pessoas posso ter demais ou de menos. Hoje as coisas estão dando certo, mas o que me dói são esses tapinhas nas costas de quem nem sabe o que eu vivi e se sente no direito de invejar a minha vida. Eu não queria ter esse testemunho para contar, não queria ter superado nada, só queria voltar a ser a menina que não pude ser.

Imagem: Trucker Gloom

Acompanhe as publicações e curta a página d’O Novelo no Facebook aqui