15/abr/2016 por

O lado oculto da tecnologia

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Hoje inauguro minha participação aqui no espaço d’O Novelo com um tema que sinto ser pouco explorado: o impacto ambiental de equipamentos eletrônicos, como celulares, computadores, tablets, entre outros.

Antes de colocarmos nossas sunguinhas e maiôs e mergulharmos de vez na questão ambiental, permitam-me apresentar. Meu nome é Paulo Soares, sou engenheiro ambiental formado pela Universidade Federal do Paraná, em Curitiba. Apesar de ter estudado no Sul do nosso Brasil, sou originário de Itapetininga, interior (caro leitor, peço que reforce bem o último “or” do interior, pra ficar mais característico) do Estado de São Paulo. Vivi uns bons anos em Curitiba, onde além da graduação obtive um mestrado e um casamento. Atualmente moro na terra do Tio Sam, devido a uma pós que minha esposa resolveu fazer.

Agora chega de firulas e vamos voltar ao que importa.

Inegavelmente a tecnologia é uma facilitadora da vida moderna, servindo desde fonte de informação (como no caso de um bom texto d’O Novelo!) e diversão até comunicação, encurtando distâncias. Não é mais possível imaginar viver sem um computadorzinho ao menos que seja. Ou um smartphone, mesmo que humilde e sem logotipos de frutas mordidas.

Mas cabe pensar naquilo que não vemos, ou seja, naquilo que faz toda essa tecnologia funcionar. De quais materiais são feitos? Como são extraídos? Como é o processo de fabricação dos componentes eletrônicos e quais os impactos do processo? Todas essas perguntas são de interesse de quem estuda o ciclo de vida de produtos e/ou processos. A análise do ciclo de vida engloba a quantificação dos impactos gerados em todas as etapas de fabricação de um determinado bem.

Ela é feita em fases e normalmente abrange as etapas de extração da matéria prima, transporte, manufatura, uso e destino final. Voltando ao nosso humilde computadorzinho (de preferência um laptop, que tem menos material empregado em sua fabricação), ele é constituído principalmente de plásticos e metais como alumínio, cobre, silício. Alguns outros elementos, como mercúrio ou arsênio, podem também dar o ar da graça. Agora que já identificamos do que é composto nosso PC, vamos ver, de forma simplificada, os contras de cada um deles.

O plástico vem do petróleo e a sua extração e refino liberam compostos orgânicos voláteis, metano, benzeno, etilbenzeno, n-hexano e outros. Nessa mistura temos gases que vão contribuir para a formação do smog fotoquímico (formação de ozônio na baixa atmosfera), bem como gases que contribuirão para o aumento do efeito estufa e até gases com elevada toxicidade (o benzeno, por exemplo, é cancerígeno). Ao final do processo do petróleo temos gasolina, diesel, gás natural e o nosso plástico.

O alumínio não é um metal que surge naturalmente na natureza e deve ser obtido por meio da eletrólise, usando como matéria prima para o processo a bauxita. O mineral é misturado com soda cáustica para formar óxido de alumínio (Al2O3), que finalmente é submetido ao processo de eletrólise, separando o oxigênio do alumínio e obtendo-se o metal. O maior problema aqui é a grande quantidade de energia elétrica que o processo exige. Ah, e, claro, uma grande quantidade de rejeitos. Lembra da barragem da Samarco? A ideia é parecida (a de represar os rejeitos, não de jogar eles no rio). Os rejeitos podem conter, além de ferro (20%-50% da sua composição), traços de arsênico e cromo.

Cobre? A sua extração pode causar acidificação das águas dos corpos hídricios e causar doenças nos trabalhadores (e.g., câncer de pulmão). Silício, proveniente da mineração do quartzo, caminha por vias similares. Mercúrio é um metal pesado e bastante tóxico e o arsênio é um elemento com elavada toxicidade.

Em vista de tanta desgraça junta, o que fazer? Desistir de usar nosso computadorzinho e comprar uma máquina de escrever em algum museu? Obviamente não. O maior impacto da tecnologia está na sua fabricação e no seu descarte, e não no seu uso.

A tecnologia se faz necessária no dia-a-dia do nosso mundo, não podemos e nem devemos evitá-la. Mas, sabendo dos impactos ocultos dos produtos eletrônicos, devemos ser criteriosos ao adquiri-los. Ao comprar um eletrônico, seja ele um computador, um celular, ou  qualquer outro, pense sempre por quanto tempo irá ficar com o produto. E esse tempo não deve ser inferior a um ano, pelo menos. Isso nos obriga a comprar produtos de qualidade, que potencialmente possam durar mais.

Isso porque, uma vez que o produto é descartado, o potencial poluidor entra em cena novamente, especialmente se não for feita uma reciclagem adequada dos equipamentos.

Logo, compre bem: compre o bem que dure mais e atenda suas necessidades e, quando finalmente chegar a hora do adeus, deve-se descartá-lo corretamente.

Tecnologia e meio ambiente não precisam ser inimigas. Ao contrário, essa relação pode ser benéfica muitas vezes, como veremos num próximo texto, até porque este daqui já está comprido demais!

Até a próxima!

Referências:

  1. Aluminum Production. All About Aluminum. Disponível em: http://www.aluminiumleader.com/production/aluminum_production/

BORM, PAUL JA; TRAN, LANG. From quartz hazard to quartz risk: the coal mines revisited. Annals of Occupational Hygiene, v. 46, n. 1, p. 25-32, 2002. Disponível em: http://annhyg.oxfordjournals.org/content/46/1/25.full

LADWIG, K.; HOPE, L. Potential health and environmental impacts associated with the manufacture and use of photovoltaic cells. Final report–EPRI, 2003. Disponível em: http://www.energy.ca.gov/reports/500-04-053.PDF

US-EPA. Life-Cycle Assessment of Desktop Computer Displays: Summary of Results. Disponível em: http://www.epa.gov/sites/production/files/2014-01/documents/computer_display_lca_summary.pdf

US-EPA Oil and Natural Gas Air Pollution Standards. United States Environmental Protection Agency. EUA. Disponível em: https://www3.epa.gov/airquality/oilandgas/basic.html

US-EPA. TENORM: Aluminum Production Wastes. United States Environmental Protection Agency. EUA. Disponível em: http://www.epa.gov/radiation/tenorm-aluminum-production-wastes