30/abr/2016 por

O duplipensar de Lázaro, o gigante

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Acorda de manhã, beijo na esposa, afago na barriga que carrega a vossa prenda, levanta-te e anda homem!

Para não perder o costume, assiste ao jornal matinal se preparando para ir ao trabalho, o que vê?

Dengue, Dilma (zica), Zika, ‘tá frio’, ‘tá calor’, comentários políticos, operação “qualquer coisa”, e tudo o que vê lhe causa angústia, lhe causa uma sensação inexplicável de desespero com os rumos do mundo em que vivemos e, em especial, do Brasil em que vivemos, e mais: tudo que lhe é dito, sem nenhum disfarce, tenta mostrar que este é o foco da coisa, que ele deve deixar aflorar esta angústia até que ela exploda em todas as direções. “Vamos, homem, reaja ao que vos digo”, disse a TV.

E lá vem ele novamente. Não o personagem, mas o estalo que desperta alguns entendimentos que surgem da apreciação do contexto. PIMBA! Como um soco no estômago, uma paulada nas canelas, a “paulistinha no joelho”, surge aquela sensação de que alguém já explicou aquilo que ele vê e sente no momento e, por mais que já tivesse visto a explicação mais de uma vez, não se atentou ao fato de que era tão óbvio… A vida tem dessas mesmo, meu caro.

Lázaro carrega em si o desejo de mudança, a vontade de fazer o bem, mudar para melhor tudo aquilo que aflige os seus, porém ainda não percebeu que cada etapa do que conquista é um novo tiro no pé, uma nova forma de se mutilar e acredita piamente que está fazendo o bem. Pobre homem.

Lázaro não pode ver a cor vermelha que o sangue lhe sobe à cabeça. Cinco minutos de fúria nas redes sociais e pronto: Lázaro se sente reconfortado mesmo sem entender direito o porquê dessa sensação. Foca apenas na sensação que lhe gera aquele símbolo; qualquer variação deste símbolo lhe causa repulsa, seja uma versão poética, romântica, falada, política. Enfim, quando encontra o diferente lhe sobe como um foguete o ódio e a intolerância. Lázaro também não gosta de coxinhas, da cor azul ou de tudo que o relembre estes fatos.

Lázaro não reflete, acata de bom coração a ideia de que é pelo ódio, apenas pelo sentimento mais visceral que a humanidade possui, que as coisas podem ser interpretadas.

Lázaro consegue ser contra todos que o “Grande Irmão” lhe diz que devem ser combatidos, azul e vermelho, Eurásia e Lestásia, Palmeiras e Corinthians, depende do momento, depende da “desculpa oficial”, o importante não é o inimigo, mas o sentimento que lhe é gerado ao pensar em um, independente de quem seja.

Lázaro é o gigante que morreu e foi encontrado por George Orwell, que lhe disse: “levanta-te e anda!”

Dessa vez Lázaro não apenas levantou, mas largou de lado essa coisa de ser gigante, parou e PENSOU…

Dedicado a todos os Lázaros que despertam através da leitura, não do ódio.