28/fev/2018 por

No limbo arrefecem desencantos e espantos

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É bastante conhecida nas agências de propaganda a ideia de que ninguém perderá dinheiro se apostar na estupidez coletiva; algo equivalente a isso ocorre na baixa política praticada de modo cotidiano e contínuo. Nesses tipos de atividade, onde a aparência supera a essência, é Inútil procurar legitimidade ética ou moral que dê sustento às práticas de enganação quase naturalizadas: a falta de honestidade é o seu alimento.

Se for visto em retrospecto, o presente parece ser uma cópia mal resolvida do passado recente. Aqui no Brasil as ‘soluções’ redescobertas não resistem a qualquer exame, por mais superficial que seja, elas são meras tentativas de estelionato em desfavor da inteligência.

A truculência e a perseguição dispensam método e refinamento; os opositores sofrem o enquadramento reservado aos inimigos — dentro das leis apropriadas e criadas para a ocasião, naturalmente. É no estado de exceção que se assemelham os modus operandi dos grupos que usurpam o poder legítimo para estender o quanto podem sua permanência. A tirânica aliança de governos antidemocráticos e oligarquias encasteladas na proteção de seus privilégios controla o exército das forças reacionárias de repressão, não por acaso nem esporadicamente acontece esse alinhamento; é parte integrante do convênio manter posições inalteradas.

Os pobres e miseráveis devem ser responsabilizados preventivamente por qualquer tentativa de insurreição que ameace desestabilizar o status quo; evidente que isso tem serventia aditiva como dissuasão para parte da classe média esclarecida compromissada com os valores democráticos, os intelectuais independentes e quem mais tiver o desplante de denunciar os abusos.

Como é do conhecimento geral, as poucas conquistas sociais em favor das camadas historicamente menos favorecidas da nação foram alcançadas sem maiores rupturas, parecia que era mais um ‘milagre brasileiro’. Mas é evidente a impossibilidade conciliatória entre interesses do povo e os das elites socioeconômicas.

Foi abaixo a idílica impressão do melhor dos mundos quando a realidade se impôs e mostrou que a festa é para poucos convidados indispostos a mudanças que têm pruridos avessos a misturas, isso poderia ferir seu orgulho de classe diferenciada; suas suscetibilidades impedem abrir mão do controle decisório sobre tudo. Por isso o resultado adverso nas eleições não conflita nem assusta, destituir os governantes já é suficiente. Então o choque de normalidade recoloca as coisas no devido lugar, as demandas de inclusão são arquivadas nesse tempo interminável de infindáveis dificuldades.

Resta aos excluídos de sempre aceitar sua condição e o paradoxo insolúvel de continuar a viver sob a égide da democracia de direito que pretende a Constituição e assimilar que de fato sua existência está subjugada ao império econômico: da distribuição de estilhaços não se pode desistir ou desertar. Compreende-se um pouco a situação juntando indícios desconectados ao longo do tempo às dificuldades que são escoadouro da resistência ativa. A ausência de critério de escolha e a falta de memória cívica são parágrafos vizinhos no capítulo que fala da ilusão dos escrúpulos no livro das manipulações; lá diz: “os fins justificam os meios e na guerra vale tudo”. A decência denuncia esse absurdo.

Imagem: Antônio Scorza/AFP

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