12/abr/2016 por

Não me compartilhe…

solidao

A palavra da vez, a revolução coletiva, a ordem subjetiva, a imensidão preenchida com coisa alguma, tudo isso e nada mais será compartilhado?

Vivemos tempos mais que modernos, tempos em que para se estar sozinho é preciso muito mais do que a ausência física de outro indivíduo no mesmo espaço que nós, a humanidade não consegue lidar muito bem com a solidão e a solidão nunca conseguiu se disfarçar tão bem.

Não há neste espaço um elemento sequer que não clame ser compartilhado, não há clamor que não deseje ser compartilhado, não há “compartilhado” que não deseje ser clamor.

Mais louca que esta introdução é a distorção do termo que originalmente tenta invocar a ideia de partilhar com alguém, dividir e dividir-se, doar e doar-se, se entregar à tentativa de sentir aquilo que o outro sente, se importar com o que importa para o próximo, sentir e ser sentido, e se tudo der certo, sentir e sem sentido, apenas sentir.

Quando uma ideia perde seu valor, tudo o que importa se esvai com a mesma, ainda assim, temos alguns instrumentos que nos permitem recobrar a consciência e a inconsciência como a arte e suas várias formas de se manifestar, melhor ainda, de manifestar-nos; Oh! Bela e encantadora feiticeira que passeia sem nenhum interesse além de ser compartilhada… Descanse em paz.

Há tempos que o encontro das palavras “arte” e “compartilhar” tem perdido sua razão de ser, este meio social que uso agora para comunicar a você esta perda é um dos grandes desvirtuadores, ainda que consiga também nos apresentar uma ou outra coisa que destoe desta inversão, é o meio pelo qual compartilhar deixou de ser um ato em conjunto onde todas as partes comungam o sentir, o experimentar, o trocar, entre tantas outras experiências que somente podem ser relevantes se existir o outro, aquele que não me pertence, aquele ao qual não pertenço e passou a ser entregar algo ao maior número de pessoas possível, a arte tomou este espírito e, antes que alguém interprete mal estas palavras, reitero que ainda existem os heróis à moda antiga, inclusive nos espaços virtuais.

A música, o filme e até a dança têm retratado apenas o “Eu” que sente, que quer, que não quer mais, que festeja, que faz e acontece e o nós se resumiu ao amor ou ao sexo e ambos retratados de forma plenamente caricata, sem sal nem açúcar.

Se compartilhar tem algo a ver com a definição do começo do texto, a arte deveria ser sua expressão máxima, afinal de contas, qual o melhor mecanismo para compartilhar sensações?

Eu realmente queria que textos como este pudessem ser capazes….

Quando compartilhar vira divulgar, o termo e o ser se tornam vazios.

Por fim, compartilhar e divulgar jamais poderiam ser a mesma coisa pelo simples fato de que divulgar é verbo transitivo direto e compartilhar é verbo transitivo direto e indireto, até nisso é mais legal.

PS: Não divulgue este texto. Ele deve ser devidamente compartilhado e apenas isto.