27/nov/2017 por

Nada de novo sob o sol

Revolta-da-Chibata-15

Como negar a importância de instituir, entre 365 dias ou 366 de ano bissexto, um só dia dedicado à “consciência negra” no país que está entre os que mais tardiamente aboliram a escravidão e até hoje suporta os efeitos deste sistema perverso?

Entre outras graças do nosso calendário, há até o Dia Nacional do Macarrão! E muitos se incomodam com o Dia da Consciência Negra…

Por quê?

Parece que nem todos confessam o real incômodo e, para desmerecer a proposta reflexiva da data, procuram degenerar o personagem histórico Zumbi dos Palmares.

No caso, o expediente é parecido com a utilização do argumento ad hominem por aqueles que não acham elementos retóricos contra o logos e, assim, atacam o ethos, ou seja, não o discurso mesmo, mas a pessoa que o transmite, como não raro acontece no terreno pantanoso da política e da imprensa.

O curioso é que, para desconstruir o imaginário sobre Zumbi – isto é, para desqualificar o Dia da Consciência Negra –, acabam por adotar argumentos ou falácias de autoridade, como quando reproduzem conclusões tiradas do Guia Politicamente Incorreto da História do Brasil, livro que não assume compromisso sério com a História do Brasil e, por isso, costuma ser rejeitado por diversos historiadores, como mostrou episódio recente.

Assim, despreocupados com fontes fidedignas e escolhendo convenientemente um autor, os “guiados” dizem, ou citam, que Zumbi tinha escravos. Logo, não deveríamos ter esse Dia da Consciência Negra. Porque Zumbi era um vilão!

E se levantam a celeuma sobre 20 de novembro, nada dizem seis dias antes, em 14 de novembro, sobre o Dia dos Bandeirantes.

Afirmam quem (não) foi Zumbi. Fica a dúvida sobre o conceito que tais críticos têm da figura do bandeirante Domingos Jorge Velho.

Cabe recordar da dificuldade que Aldir Blanc teve na década de 70 com o Departamento de Censura em relação à letra de O Almirante Negro ou Navegante Negro, música que, entre outras alterações, recebeu o título final de O Mestre-Sala dos Mares, em referência ao líder negro da Revolta da Chibata (1910), João Cândido.

Não há nada de novo debaixo do sol: no Brasil, há sempre resistência para se reconhecer heróis negros, assim como há para aceitar ações afirmativas ou perceber o racismo na sociedade.

Imagem: Revolta da Chibata

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