20/mar/2018 por

Marca da covardia e molde de palavras venenosas

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O ódio insuflado nas multidões é o bafio de um vento de revés, uma avalanche que se propaga em ondas num mar de paranoia coletiva assumindo proporções epidêmicas de contágio sobre um cerco sitiado e acuado. Escárnio e vilipêndio são perpetrados por uma seita covarde de fanáticos ensandecidos reunidos com propósitos de destruição.

Misto de crueldades e misérias assacadas contra indefesos por bestas-feras sanguinárias e perigosas, um bando de hienas carniceiras que atacam os feridos e aqueles que aparentam estar intimidados, desunidos e desprotegidos; seu alimento é o medo que espalham.

São sádicos estupidificados por seus próprios gritos delirantes na busca de impingir sofrimento a outrem. Essa turba se nutre das dores causadas às pessoas que não aderem aos seus absurdos credos de impiedade. Dos lábios desses ignóbeis sequazes do poder malévolo que os domina totalmente, escorrem venenos fúnebres em forma de palavras alucinadas.

Não argumentam, vociferam; não se alegram pela vida, dão vivas à morte. Sua força se agrega em multidões entorpecidas pelo anonimato e certeza de impunidade. É isso que determina a ousadia desses pobres de espírito aglutinados pela expectativa de um gozo decorrente dos linchamentos que os excita e os retorna à selvageria primordial; torna indistinta e duvidosa qualquer diferença entre espécie humana e de outros animais.

Sua disposição de luta se mantém e se restringe à certeza da vitória pelo número superior dos seus comparsas, isso lhes dá a deliciosa sensação de cometer atrocidades fáceis a escassos oponentes. Nunca saberão o que é honra nem decência, por isso não esperam nenhuma reação, nenhuma resistência. De antemão consideram apenas hipóteses de fuga ou derrota dos poucos e frágeis contendores perseguidos que lhes fazem algum obstáculo. Imaginam que não haverá empecilhos ao descalabro dos despautérios; e Isso lhes confunde a respeito das minorias que não se entregam sem lutar, que não capitulam sem resistir.

Os discípulos do ódio nunca vão entender aqueles que se movem por princípios. É algo impossível para sua parca inteligência, sua mediocridade não os capacita a compreender esse mistério. A plateia alvoroçada desse espetáculo dantesco se compõe de alienados ignorantes da própria estupidez. Participam da encenação trágica e vulgar como se cada um deles fosse solista dessa sinfonia de horrores: suas notas discrepantes reverberam no dissonante pavor alheio.

O ódio é assédio de um soluço intermitente, o reverso da glória e da coragem; porém não há mal que seja eterno… mas isso não termina aqui, tudo pode mudar. O mundo necessita de mais pessoas a colher da terra rebentos de alegria; arejar com alento e desassombro a leveza necessária; e juntar os frutos desses campos.

Sejamos nós incluídos entre os que não se entregam, assim não viveremos para sempre sob a expectativa da erosão final da solidariedade. Honradez e esperança têm valor permanente que mais brilham quando percebemos a sombra da morte que se espalha por todo o Orbe. Resistamos à aridez do desencanto onde o desânimo faz morada. Avante!

Imagem: Túlio Tavares – Antropofagia

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