27/mar/2018 por

Lovelace e a cultura do estupro

404396 01: Actress Linda Lovelace Poses In An Lace Outfit June 19, 1974 In England. The Star Of The Pornographic Film "Deep Throat" Died April 22, 2002 From Injuries Suffered In A Car Accident Earlier In The Month. She Was 53.  (Photo By Getty Images)

Mal havia me recuperado das abobrinhas que inundaram o dia da mulher de tristeza e revolta  quando assisti Lovelace. Resultado: muito choro e muita reflexão. Apesar da gente falar sobre cultura do estupro, patriarcado e misoginia o dia inteiro, ter nossa realidade jogada assim na nossa cara e perceber o quanto isso influenciou nossas vidas é doloroso demais.  Ao mesmo tempo, nos faz querer ainda mais acabar com tudo isso de uma vez.

**Atençao contém spoilers **

Lovelace fala da historia real de Linda Susan Boreman, conhecida como Linda Lovelace, uma mulher que teve sua vida destruída pela misoginia. Linda ficou conhecida por ser a estrela do pornô Garganta Profunda: filme que arrecadou milhões de dólares, mas rendeu à Linda apenas uns trocados e muito sofrimento.

lovelace

Garganta Profunda arrecadou mais de 600 milhões de doláres. Linda ganhou mil e duzentos dólares.

Linda foi “introduzida” na pornografia por seu marido: um homem que, como todo agressor, a conquistou com gentileza, mas não demorou muito pra se mostrar agressor. Chuck Traynor estuprava e batia em Linda, a forçou a estrelar o filme pornô e a se prostituir. Chuck Traynor ficava com todo o dinheiro que Linda ganhava.

Precisamos perceber aqui como é cruel o destino da maioria das mulheres envolvidas na prostituição e na pornografia: foram violentadas, abusadas, agredidas e continuam sendo violadas comercialmente para o ganho e o deleite dos homens. Mais exploração que isso impossível.

Sobre o pornô Garganta Profunda, o filme mostra que o roteiro se utilizava do clichê que mulheres “não são capazes de gozar” senão para o deleite dos homens. Precisamos lembrar que esse clichê marca a vida e a sexualidade de todas as mulheres: temos nossa sexualidade negada desde crianças (tira a mão da periquita, menina!!) enquanto aos homens é orgulho exercer quanto mais sexualidade conseguir (desde crianças). Além disso, a sexualidade do Segundo Sexo pouco importa: o mundo não se preocupa em conhecer o corpo da mulher e sua sexualidade, já que a única coisa que importa são os homens e o prazer desses. Igualmente, a mulher no sexo está para servir ao homem, não para seu próprio prazer ou segundo seus próprios desejos.

Nesse ponto, aparece o que mais me perturbou no filme: o enredo do pornô afirma que a mulher tem o seu clitóris no fundo da garganta, por isso não gozava. Isso é extremamente preocupante pois: 1) é desinformação e desserviço absurdo sobre o corpo da mulher e sua sexualidade; 2) é explícito demais que mitos como esse têm sido utilizados por homens até hoje para fazer com que mulheres atendam todos os desejos deles para que eles tenham prazer, não as mulheres.

Inventar mitos como o “clitóris no fundo da garganta” mostra como a pornografia nos violenta, enquanto mulheres. Quantas mulheres não foram forçadas a fazer sexo oral em homens com base nessa premissa? Quantas mulheres não tiveram pênis enfiado goela abaixo sem desejo nem consentimento? Quantas mulheres não foram iludidas de que se fizessem aquilo sentiriam prazer? Quantas mulheres não foram forçadas a acreditar que não sentiam prazer, pois elas não eram capazes disso, pois nelas “faltava” alguma coisa? Quantos homens não se sentiram no direito de forçar e iludir mulheres, de fazer tudo que lhes pudesse dar prazer?

Precisamos falar sobre como a pornografia cria comportamentos violentos e espalha desconhecimento sobre o corpo das mulheres. Sobre isso, é essencial a leitura desse texto maravilhoso que transcreve palestras da Gail Dines. 

É importante notar que Linda continuou nesse relacionamento abusivo por anos e “aceitou” ser prostituída e violentada pelo marido, pois foi criada com a ideia de que “mulheres precisam obedecer”, “homens são assim mesmo”, “homens sabem o que fazem”, “se ele te bateu é porque você mereceu”. Nossa socialização enquanto mulheres é violenta. Ela nos mata aos poucos. Precisamos romper esse ciclo.

Outro ponto importante desse filme é que quando Linda resolve escrever um livro contando todas as violências a que tinha sido exposta durante sua vida, ela é submetida a um teste do polígrafo (o tal “detector de mentiras”) para confirmar sua história.

Quantas de nós já foi desacreditada quando relatou uma situação de violência, de abuso? Quantas de nós já hesitou em denunciar um agressor porque nos disseram que “não temos provas”? Quantas de nós já foi acusada de mentir, de exagerar, de acusar injustamente, de estar louca? Quantas de nós já sofreu por isso? Quantas de nós já viu nossos agressores andando sem culpa nem julgamento por aí enquanto nós tivemos que recolher nossos cacos sozinha, em silêncio? Enquanto nós fomos julgadas, excluídas, desacreditadas.

Quantos homens foram submetidos a testes de polígrafo para saber se estavam se defendendo de algo que realmente não tinham feito? Quantos homens foram desacreditados quando disseram que “é mentira dela, ela é louca, eu não fiz nada, a agressora é ela”?. Quantos homens que foram excluídos das rodas de amigos e espaços sociais por terem agredido/abusado de mulheres você conhece?  Eu sinceramente não conheço nenhum. O que conheço são mulheres abusadas e violentadas que deixaram de frequentar lugares por medo. Por vergonha. Por tristeza.

Quando falamos sobre podridão da pornografia, é disso que estamos falando. Quando falamos que a pornografia cria comportamentos violentos, é disso que estamos falando. Quando falamos que a prostituição é violência, é disso que estamos falando. É isso que queremos dizer quando relacionamos cultura do estupro à pornografia e prostituição. Estamos falando de um mundo patriarcal no qual os homens ditam as regras, regras para se beneficiarem enquanto homens, enquanto donos e superiores às mulheres. Um mundo que não beneficia as mulheres senão para proveito dos homens.

Não é à toa que Linda lutou contra a pornografia. Não é à toa que nós também nos posicionamos contra a pornografia.

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Linda com seu livro Ordeal, no qual conta sobre as violências que sofreu.

***PS: o filme está no netflix. Assistam e vamos conversar sobre 😉

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