01/mar/2016 por

Leonardo DiCaprio: muito mais que um meme do Oscar

por Pedro Carpigiani

Talvez este tenha sido o Oscar mais esperado dos últimos anos. Não somente porque Leonardo DiCaprio já havia sido indicado outras cinco vezes, três como melhor ator, uma como ator coadjuvante e outra como produtor, mas também pela sua excelente capacidade de transmutação de um personagem para outro.

Em um dos seus primeiros filmes, “Gilbert Grape – Aprendiz de Sonhador” [1], onde interpreta um jovem autista chamado Arnie Grape, já demonstrou a sua capacidade de atuação. Para mim, esse é o melhor filme que ele fez, e já deveria ter ganhado o Oscar de melhor ator coadjuvante.

Mas não estou aqui para falar ou avaliar a atuação de DiCaprio e sua filmografia. Decidi escrever esse texto para aplaudir o seu discurso quando (finalmente) recebeu o Oscar [2].

Após os seus agradecimentos iniciais, o ator comentou brevemente sobre as mudanças climáticas pegando o gancho com o filme “O Regresso” (The Revenant), pelo qual ganhou o Oscar de melhor ator, quando disse – “O Regresso foi sobre a relação do homem com a natureza, um mundo que teve em 2015 o ano mais quente já registrado. Nossa produção teve que se mudar para a parte mais ao sul do planeta só para achar neve. A mudança climática é real. Está acontecendo agora”.

Leonardo DiCaprio ainda complementou indo um pouco mais afundo. Falou da urgência sobre o assunto e cutucou os líderes mundiais, as grandes corporações e falou sobre os direitos dos mais desfavorecidos – “É a ameaça mais urgente à nossa espécie, e precisamos trabalhar coletivamente e parar de procrastinar. Precisamos apoiar os líderes do mundo todo que não falam pelos grandes poluidores e grandes corporações, mas que falam por toda a humanidade, pelos povos indígenas do mundo, pelas bilhões e bilhões de pessoas desamparadas que serão as mais afetadas por isso, pelos nossos netos, e por essas pessoas que tiveram suas vozes afogadas pela ganância política”.

Há tempo que eu esperava ocorrer na Cerimônia do Oscar um discurso sobre o meio ambiente e a urgência em traçar novos caminhos para um futuro sustentável. Mas eu tinha certeza que só viria se o Leonardo DiCaprio um dia que ganhasse o prêmio. Não que eu ache o prêmio bom, afinal muitos atores, atrizes, filmes, diretores, escritores, excelentes ficam de fora, ainda mais com a discussão da falta de nomeações de artistas negros e do branqueamento da academia, mas esperava pelo seu poder de alcance internacional.

Jenny Beavan, ganhadora do Oscar de melhor figurino pelo filme “Mad Max – estrada da fúria”, também citou as mudanças climáticas – “Na verdade, o filme pode ser terrivelmente profético se não formos gentis uns com os outros e se não pararmos de poluir a atmosfera.”

Leonardo DiCaprio já é um velho conhecido e ativista sobre assuntos relacionados às mudanças climáticas. Em 1998, criou sua própria fundação em defesa do meio ambiente, a Leonardo DiCaprio Foundation, que tem como objetivo assegurar o desenvolvimento sustentável ao nosso planeta.

O ator ainda tem assentos em algumas diretorias de organizações com a mesma temática, incluindo o Natural Resources Defense Council (NRDC), a Global Green USA e a International Fund for Animal Welfare.

Em 2007, Leonardo DiCaprio produziu e narrou o documentário “A Última Hora” [3] (The 11th Hour), das diretoras Nadia Conners e Leila Conners Petersen, em que diversos ativistas, cientistas, líderes e estudiosos sobre a temática ambiental avaliam os desdobramentos da terra até chegar em seu atual ponto de destruição dos ecossistemas e o que poderia ser feito para reverter este quadro.

Recentemente, em 2014, foi nomeado pela ONU como “mensageiro da paz” para lutar contra o aquecimento global, e, em 2016, no Fórum Econômico de Davos, na Suíça, recebeu o prêmio Davos Crystal Awards, pela sua trajetória como ambientalista e fez um discurso [4], onde ataca a ganância corporativa, dizendo que – “Nós não podemos nos dar ao luxo de permitir que a ganância corporativa das indústrias do carvão, petróleo e gás determinem o futuro da humanidade. As empresas que têm somente interesse financeiro em preservar esse sistema destrutivo, negam as evidências das mudanças climáticas. Já chega! Vocês sabem; o mundo sabe: a história vai colocar a culpa por esta devastação em vocês”.

Em seu discurso Leonardo DiCaprio também prometeu doar 15 milhões de dólares por meio de sua fundação para projetos ambientais de organizações não governamentais.

Pode-se ver que Leonardo DiCaprio é muito mais que um meme ridicularizado que não ganhava Oscar.

Esses discursos importantíssimos que DiCaprio tem realizado ao longo desses últimos anos me fazem lembrar de um que não é recente, pelo contrário, mas ainda permanece muito atual, que é a carta que o Chefe Seattle [5], cacique da tribo Suquamish escreveu em 1855 para o então presidente dos EUA, Francis Pierce, quando o governo tentou comprar suas terras localizadas no estado de Washington.

Chefe Seattle diz que – “Como pode-se comprar ou vender o céu, o calor da terra? Tal ideia é estranha. Nós não somos donos da pureza do ar ou do brilho da água. Como pode então comprá-los de nós? Decidimos apenas sobre as coisas do nosso tempo. Toda esta terra é sagrada para o meu povo. Cada folha reluzente, todas as praias de areia, cada véu de neblina nas florestas escuras, cada clareira e todos os insetos a zumbir são sagrados nas tradições e na crença do meu povo” e completa – “Sua ganância empobrece a terra e deixa atrás de si os desertos”.

Pois é, Chefe, infelizmente estamos vendendo, e muito barato, o nosso céu, a pureza do ar e o brilho da água. A ganância é egoísta, não tem filhos e se recusa a enxergar o futuro.

Já faz 161 anos que Chefe Seattle escreveu a carta e pode-se observar que nada mudou, só piorou a cada dia.

Muitos ainda estão surdos em relação ao discurso ambiental, outros estão cegos para enxergar a destruição do meio ambiente e outros simplesmente não se importam.

Se não houver uma mudança de comportamento em breve, estaremos fadados mais rapidamente a um mundo pós apocalíptico à la Mad Max, reféns de um Immortan Joe qualquer.

Por Pedro Carpigiani, cientista social formado pela UEL, mestrando em Sustentabilidade pela USP e ambientalista apaixonado por Raul Seixas, sempre quis ser músico, mas se contenta em ser apenas um sonhador e viajante das ideias.

[1] – trailer do filme “Gilbert Grape – Aprendiz de Sonhador” –https://goo.gl/pUUotu
[2] – Discurso de Leonardo DiCaprio no Oscar – https://goo.gl/dIfSIS
[3] – Trailer do documentário “A Última Hora” – https://goo.gl/Zzsrbw
[4] – Discurso de Leonardo DiCaprio em Davos – https://goo.gl/6JeAFs
[5] – Carta na íntegra do Chefe Seattle – http://goo.gl/GOZCWg

Imagem retirada do filme “Gilbert Grape – Aprendiz de Sonhador”