29/ago/2017 por

Inocência, probabilidade e boa sorte.

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O dia estava nublado, isso era bem comum nessa época do ano,  as formigas não se importavam muito com isso pois pensavam apenas em como iriam dar um jeito de juntar todas aquelas coisas antes do fim do dia e em como passariam desapercebidas por aqueles dois gigantes que faziam um barulho danado em cima delas.

Por acaso, o primeiro gigante conversava com o segundo sobre a organização das formigas e a incrível habilidade, notada por ele, de se comunicarem acerca do caminho de volta pra casa sem saber falar uma palavra sequer

– Não é um espanto? Disse Lucas, o primeiro gigante.

– Deveríamos perguntar ao professor Jonas como isso é possível, não acha? Respondeu Timóteo.

Como que combinado, os dois gritaram a palavra mágica que respondia a todas as perguntas:

– PROFESSOOOOOOOOOOOOOOOOORRR!!!

Prontamente, Jonas se afasta de um outro grupo de crianças da escola em que leciona, com quem havia organizado um passeio ao parque municipal para ensinar sobre os conhecimentos de uma ciência chamada Biologia, algo relacionado à vida e como ela funciona e que, no geral, gerava mais dúvidas a cada nova resposta e dizia que assim é que se entendiam as coisas, ou seja, entendendo cada vez menos ao passo em que se sabia mais, e vice-versa.

– O que a dupla de aventureiros precisa para se acalmar?

O professor sempre sorria quando era chamado… Sempre sorria quando respondia… Podia se dizer que era amável?

Talvez.

– O Lucas e eu gostaríamos de saber como funciona essa história das formigas… Sabe, como é possível se comunicar sem falar, ler ou escrever?

Nesse instante, Jonas usou todo o seu conhecimento sobre as formigas, não que elas concordassem com este conhecimento ou fizessem questão de ajudar em alguma coisa, estavam com outros problemas na cabeça como, por exemplo, um terceiro gigante que apareceu por ali e este era ainda maior que os dois anteriores, que dia!

O professor explicou sobre feromônios, gestos e rastros que as formigas deixavam umas para as outras, a importância da divisão de tarefas naquela sociedade e tudo o que envolvia o papel delas naquele algo maior que eles gostavam de chamar de “meio ambiente”, alguns chamavam de Terra mesmo.

Outro ponto explicado tinha a ver com o que estes gigantes faziam com tal planeta e como isto afetava a vida destes magníficos e organizados seres, tão pequenos para tais gigantes e sua capacidade cognitiva.

Neste momento, conforme foi explicado pelo professor, aquele grupo de formigas em específico estava prestes a desaparecer do planeta e, ao que tudo indica, era culpa dos tais gigantes por conta do ritmo de extração de qualquer coisa associado ao valor que aquilo tinha para eles, diziam que a necessidade de embalar coisas para jogar fora superava a necessidade de formigas no planeta, mais uma vez, nada confirmado pelas próprias formigas ou qualquer um que as representasse oficialmente.

Estava claro para Lucas que as formigas eram muito mais interessantes que embalagens que iríamos jogar fora assim que encostássemos nelas e isto o fez questionar o professor:

–  Então a gente destrói o lar destas formigas por conta de algo que vamos jogar fora?

– Tecnicamente, sim. Pode ser visto desta forma.

– E aí alguém ganha dinheiro com isso?

– Sim.

– As formigas perdem seus lares?

– Sim.

– E nós?

– Nós o quê, Lucas?

– O que ganhamos com isso?

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2

Sylphord estava atrasado, após passar o seu turno de 7 ciclos e meio em sua rodada de trabalho, finalmente poderia voltar para sua casa e fazer o que mais gostava, acompanhar ao vivo o programa predileto de todo o seu povo: “Ganhe e Perca”.

Sylphord morava em uma casa não muito diferente das outras de sua região, todas tinham sido construídas em fendas de uma determinada montanha, onde ele também trabalhava na extração dos deliciosos gynthx, um tipo de verme muito saboroso e nutritivo de onde se extraía um caldo que servia de alimento e também era usado para lubrificar seus túneis de navegação o que, na pior das hipóteses, voltava a ser comida quando tais túneis cediam, pelo menos não passavam fome esperando auxílio.

Quando isto acontecia, alguma ajuda era realmente difícil de se encontrar pois todos estavam trabalhando, dormindo ou assistindo “Ganhe e Perca ao vivo, todo ciclo, sem parar na sua Shopyr!”.

Shopyr! era algo como uma televisão para os terráqueos que eles gostavam de acompanhar no tal programa, isto mesmo, por algum acaso do destino, todas as tecnologias desenvolvidas pelos seres humanos acabou se transformando em algo que transmitia através do tempo e das dimensões do universo o que acontecia na terra e os Trithows eram capazes de captar e organizar estes sinais de uma forma que eles podiam acompanhar nas suas Shopyr!

Tudo o que acontecia na Terra, em tempo real, era transmitido para eles e era a grande diversão do planeta, neste caso, todos os Trithows eram viciados neste programa que podia ser visto de qualquer ângulo e a qualquer momento, existiam apostas sobre quem iria casar, qual guerra estouraria primeiro, quantas vítimas, será que aquela banda sobrevive por muito tempo?

– Senhoras e senhores, as rodadas de prêmios do intercrepúsculo do meridiano 3º está chegando ao encerramento de apostas.

Toda vez em que isto acontecia, Sylphord sentia-se azarado, não poderia ser sua vez?

As Shopyr! dos sorteados se acendiam em um tom avermelhado e um som monofônico e repetitivo ressoava pela montanha, porém, só acontecia quando se estava de frente à Shopyr!.

Nem tudo está perdido.

Após repetir esta frase algumas vezes, enquanto tentava sintonizar no aniversário de alguma pátria, os fogos de artifício eram um esplendor para os sentidos e calmante recomendado por toda a comunidade, Sylphord escutou seu recém designado vizinho e lembrou que depois de um certo tempo de vida é difícil ter que explicar para recém-chegados como são as coisas.

Shayla tinha poucos ciclos de vida mas aparentava ter mais, ainda tinha aparência de recém-chegado mas tinha o porte de quem tinha tentado a sorte em muitos outros ciclos.

– Sylphord, como vai?

– Olá, Shayla… No momento, tentando canalizar meu destino de sorte daqui 2 e ¾ de ciclo.

– … outro sorteio…

– Sim, não é maravilhoso que tenhamos tanta chance? Pense bem, a única coisa que temos que fazer é acompanhar a Shopyr! E votar no melhor momento da semana, é muito fácil.

Que jingle marcante…

– Não vejo graça em Shopyr!… Tenho dó…

– Não seja bobo, eles mesmo cavam seus próprios buracos, é muito engraçado ver o quanto eles são capazes de fazer sua própria cova em troco de algo que eles mesmos inventaram… Não é sensacional?

– O que?

– Eles acreditarem que ganham algo…

– E…?

– Mesmo que alguém vá ganhar, a probabilidade é tão pequena e a destruição é tão grande que chega a ser engraçado as loucuras que eles fazem por algo que eles nem tem chance de ganhar e nem sabem o que é aquilo…

– Igual aos sorteios da Shopyr!?

Definitivamente, os novatos estragam tudo.

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Pela terceira vez se percebia a presença de &eV3 atrás do campo pelicular da criação de w05m, pela terceira vez 8it3 o ignorava. Estava pronto para ignorar a quarta.

Quando soa a campainha de produção, todas as saídas do campo pelicular se lacram para evitar contaminação, o principal ingrediente do composto não pode ser desperdiçado, principalmente porque aquela era a única empresa que possuía a fórmula.

Após recolher os indivíduos do HSH (habitat simulador de habitat), algo como um aquário de formigas, 8it3 seguiu o padrão normativo de seleção premium da empresa, este método consistia nas seguintes etapas que eram secretas, todos sabiam quais eram, mas o segredo era irreproduzível:

As etapas se dispunham na criação de clones de genética variável, uma simulação da diversidade orgânica pela programação de DNA, estímulo ao convívio social no HSH e maturação, os sensores que mediam estes fatores nos indivíduos se encontravam nas câmaras em que eram colocados após a etapa de clonagem.

8it3 cumpriu o protocolo de extração, retirou os w05m que estavam maduros, recolheu traços de secreção dos caminhos que estes abriam no HSH, colocou estes ingredientes no separador de youngotículas e recolheu o extrato no recipiente especificamente projetado para esta tarefa, colocou um rótulo com as informações de lote, qualidade e vencimento e o colocou na transportadora para o setor de diluição.

A partir daquele momento, não tinha mais envolvimento com o restante do processo de produção.

As saídas do campo pelicular foram destravadas e finalmente &ev3 pôde entrar para informar o que lhe afligia:

– 8it3, os Gerencionistas estão convocando uma reunião urgente conosco, algo sobre ritmo de produção e redistribuição para empresas subservientes.

Empresas subservientes eram aquelas que compravam o extrato de youngotículas para diluir em produtos mais baratos e, consequentemente, menos eficazes… Mas quem se importava com isso?

Eles jamais conseguiriam reproduzir a fórmula original porque apenas uma vez se conseguiu estabilizar a produção de w05m, após anos de tentativas, apenas ao irradiar uma faixa de frequência específica nos sensores, frequência esta que atraía os w05m para perto destes sensores tempo suficiente para a digestão e fazia com que mantivessem um ritmo de atividade pelos buracos cavados no HSH.

Este ritmo de atividade preciso deixava a secreção com o Ph exato para que o extrato fosse eficiente, qualquer variação acabava com um lote inteiro e considerando que cada lote gerava apenas 1/16 de Convert, medida padrão para líquidos, isto era um imenso desperdício de um pequeno punhado, intrigante, não?

– Não consigo entender como os Gerencionistas querem aumentar o ritmo de produção, ao mesmo tempo em que querem manter a produção estabilizada para não alterar o valor do produto e ainda ficam fazendo reuniões conosco, não dá para perceber que é inviável cuidar da produção quando não estamos aqui?

– Sou apenas um garoto de recados que também largou seu campo pelicular para te chamar e resolver isto o mais rápido possível, senão acabo não batendo a metia.

Neste ramo de atuação, a meta é estabelecer um ritmo médio de produção, nem mais, nem menos.

Metia.

A sala de reuniões estava com todas as cadeiras ocupadas, menos duas.

Ao entrar na sala, 8it3 e &ev3 tomaram seus assentos e o Penúltimo Gerencionista começou a falar:

– Neste momento enfrentamos duas preocupações, a primeira é de ordem industrial e a segunda em relação à eficácia do produto.

Todos sabemos que a nossa empresa sobrevive da invenção, extração e produção do bem mais valioso de nossa sociedade…

– Então porque não fala logo o que quer dizer? Isto, todos sabemos… Meus w05ms…

Pensou 8it3.

– … eu mesmo, por incrível que pareça, tenho 47 voltas menos 27, ainda que alguns digam que seja menos 32.

Neste momento, apenas o Gerencionista deu risada, os restantes imaginavam que ele tinha mais cara de menos 12 mesmo, preferiram não realizar esta observação, mas a troca de olhares confirmou a crença.

O ciclo de vida dos Páprios, este era o nome deste povo, era contado em relação ao número de voltas que seu planeta dava em torno de suas estrelas gêmeas dividido pela raiz quadrada de três, 47 voltas era o resultado desta equação, contar uma a uma geravam números muito confusos para eles e o resultado era arredondado.

O extrato tem efeito regenerador apenas nas suas estruturas externas, ou seja, ainda que suas estruturas internas estivessem acompanhando o ritmo de voltas, sua aparência dizia outra coisa; para as estruturas internas eles contavam com inúmeros procedimentos e fórmulas que eram capazes de retardar a deterioração mas isso gerou um monte de gente velha e feia, tudo confirmado e denominado desta forma de acordo com o que havia sido conceituado por seus passadalistas, um tipo de historiador para os humanos.

“A insatisfação em continuar vivo mas “enfeiar” durante o processo acabou aumentando o índice de suicídio entre pessoas saudáveis, apenas por serem velhas e feias.”

(PASSADALISTAS, p.35)

O extrato de youngotículas era vendido em lojas especializadas, categorizado em nível de pureza e poder de ação, nenhum indivíduo daquela sociedade se sentia feliz se tivesse um número de voltas que não aparentasse pelo menos uns 10 a menos, veja bem, a idade real não era problema, inclusive, só enaltecia a quantidade reduzida e demonstrava que aquele indivíduo tinha acesso ao melhor produto, entenda-se o mais caro e eficaz.

A eficácia era rigorosamente testada e controlada nos produtos de padrão superior, ninguém quer deixar o cliente, o que gasta mais pela menor quantia, infeliz.

– … por isso eu gostaria de saber as seguintes coisas, é real a possibilidade da empresa subserviente de código 17 chegar a descobrir como produzir o extrato?

–  Qual a probabilidade de a cliente 37629, ao alegar que o efeito do extrato puro está diminuindo, ter razão? Lembrando que a mesma já tem 78 voltas, aparentava menos 66 e agora reuniu testemunhas e provas para demonstrar que aparenta apenas menos 62.

Ninguém queria falar sobre isso, uma vez que qualquer conclusão precipitada poderia destruir a imagem da empresa, do produto e da sua eficácia.

– Alguém?

8it3 era do tipo de pessoa que preferia falar para que a tormenta acabasse mais rapidamente.

– Senhor Penúltimo Gerencionista, no memorando 4466t37849, enviado na última fatia do quarto de volta, nós relatamos a improbabilidade de outra empresa conseguir recriar nossa tecnologia pois o alimento dos w05m são produzidos em nossas reprocriadoras, os sinais captados do ponto específico do espaço e direcionado aos sensores são decodificados e o nível de Ph só pode ser atingido nestas condições, não há o que temer…

Os companheiros de função acenaram em concordância e desprezo, concordaram com o óbvio e desprezaram ter que debater novamente o assunto…

– Quanto a reclamação da cliente em questão, já tem duas voltas completas em que tento fazer algum Gerencionista ler um esboço do trabalho realizado por mim e meu Último Assistente, trabalho em que tentamos realizar cálculos supráticos que demonstrassem se há um limite de ação do extrato, neste trabalho, chegamos à conclusão de que é possível que exista um limite de ação…

– Por isso nunca lemos… Traduza…

– Responda a seguinte questão: Se o tempo não volta, se não somos capazes de voltar para outras voltas, o que garante que não haja uma força que reaja ao esforço empreendido pelo extrato?

– Nada, ou não existe, ou não a encontramos.

– E se esta força for justamente a força em que o extrato age, imagina que ao invés de agir em nossa estrutura externa, ele age nesta força e faz com que nossa estrutura retorne nas voltas?

– Então esta força não está inativa, já que temos que utilizar o composto repetidas vezes.

– Sendo assim, e se esta força reagisse com a mesma intensidade com que a atacamos e cada vez em que aumentamos a intensidade do ataque, aumentamos também a reação?

– Então lutamos contra algo invencível…

Quarenta voltas depois desta conversa, foi incorporado ao extrato uma substância que retardava o poder de compreensão de quem a utilizava… Além de parecer, agiam como jovens…

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4

– Sobre o que ainda tem dúvida?

– Não sei exatamente, é uma dúvida…

– Se pudesse resumir estes últimos instantes, o que você diria?

– Surgi há pouco ou muito tempo, dependendo de quem observa, e fui criado por você.

– Correto.

– Você surgiu há mais tempo que o próprio Multiverso, em outro lugar, veio para cá para refletir.

– Correto.

– Eu sou criado a partir de algo que existia em você há tempos…

– Momentos…

– Isto, momentos, ainda não me acostumei com a irregularidade da constância temporal.

Enfim, em momentos distantes e em outro lugar que não o Multiverso, você perdeu uma parte de você e se refugiou nestes lugares e momentos diferentes que você chama de Multiverso.

– Correto.

– Quando estava muito fraco, após muitos momentos de reflexão, acabou notando a existência de diversas formas de percepção da realidade e percebeu que estas criavam um tipo de energia que o alimentava, é esta a palavra?

– Pode ser…

– Esta energia é gerada pelo atrito entre o que é e o que se percebe, cada forma de percepção gera sua própria quantidade de atrito e, via de regra, todas elas geram este atrito. As coisas existem em dois níveis, o ser e o que se percebe do ser. As outras formas de percepção se apegam ao que percebem.

– Exatamente, após um momento de reflexão sobre o assunto, podendo ser medido de diversas formas…

– Irregularidade da constância temporal… Não irei esquecer.

– Justamente, após este momento, analisando todas as possibilidades de entendimento da realidade, cheguei a comprovação de que isto me alimentava porque eu era a única forma de existência que não gerava atrito, eu era a exceção que confirmava a regra.

– Algo a ver com a impossibilidade de se retroalimentar, não é isso?

– Então, as formas de existência se alimentam de algo que não surge nelas, há sempre um fator externo que viabiliza a continuidade de sua existência e este fator externo é, geralmente, finito. Por isso assisti o surgimento e a ruína de incontáveis formas de percepção.

– Pelo que entendi, e ao demonstrar como este atrito surge e é a base destas formas de percepção, desde aquelas formigas até os Páprios, você me fez como outra forma de percepção da realidade que se alimenta do mesmo que você?

– Sim.

– Este atrito tem nome?

– Ilusão.

– Eu tenho nome?

– Costumava ter, mas você é resultado apenas da lembrança desse algo que existia em mim e eu perdi.

Para todos os efeitos, temos o mesmo nome: Você.

– Somos livres?

– Se pensarmos que nossas ações não são regidas pelas ilusões, sim.

Nosso alimento é resultado do atrito, o atrito é essencial para a vida das outras formas de percepção, elas seriam incapazes de apreender o todo.

O atrito as mantém vivas, o atrito as elimina.

Em última instância, todas elas se alimentam umas das outras e nós nos alimentamos delas.

– Não podemos criar ilusões, criar atritos?

– Não.

– Somos livres.

– Sim…

– Uma incapacidade não nos aprisiona?

– …

– Somos livres?

– Não sei, preciso de um momento.

– E se nossa ilusão fosse acreditar que somos incapazes de criar ilusões?

– Inocência.

– Acreditar nisto?

– Não, teu nome… E eu preciso de dois momentos.