18/dez/2017 por

Gato Negro

watercolor-black-cats-ink-paitings-endre-penovac-1

Ontem, mais precisamente, ontem à tarde, eu vi na frente de uma casa de portão vermelho meio desbotado, um gato negro, um felino na sombra da árvore, descansando como um vagabundo bêbado, satisfeito após ter sido servido por sua dona, uma velha de dentes amarelados, que costumava alimentar seu gato gordo com sardinhas frescas, dessas que se encontram enlatadas em qualquer supermercado daqui da cidade; esse felino com a pança apontada para o céu, se espreguiçando como um cão preguiçoso, manhoso tal qual uma criança mal criada, bocejando com a língua toda para fora, sentia cair em seu pelo negro os primeiros raios da primavera; ah! que bela cena! que belo dia!; como foi gostoso ver esse gato de patas roliças, pesado como um chancho, rolando entre as folhas que se acumulam no canto das ruas. Fascinado por esse animalzinho tão enigmático, com forte desejo de me relacionar com ele, de me distrair e de brincar com essa doce criatura, decidi em um certo momento, pegar do chão mesmo, umas pedrinhas bem pequeninas, e logo comecei a arremessa-las nele, com a intenção de fazê-lo correr de um lado para o outro; em um primeiro momento, o bichinho não compreendeu o que eu estava tentando fazer, e ficou parado me fitando em uma posição defensiva, jogando o peso do corpo nas patas traseiras; só que logo em seguida, ao me ver sorrindo bem tranquilo, ele pode enfim pegar o espírito da brincadeira, e finalmente começou a correr, tentando desviar o corpo das pedrinhas que eu arremessava, uma atrás da outra; abanando o rabo, mesmo pesado e com bastante fadiga, esse gatinho mimado saltava como um pônei, e parecia estar se divertindo como um bebê: fugindo das pedrinhas, correndo atrás das pedrinhas, até comendo algumas pedrinhas na rua; até que, de repente, um carro descendo a ladeira em alta velocidade atropelou o pobre animalzinho, que soltou um gemido doído de ouvir, um gritinho que espantou até os pássaros; por alguns segundos, eu fiquei completamente paralisado, com as pernas bem vacilantes, sem saber como reagir; coitadinho do gatinho, o carro lhe havia acertado bem no meio da cintura, a parte de trás do seu corpo estava totalmente sem movimento; pobre diabo!, sua angústia tardou em cessar, seus gemidos persistiram por algum tempo.

Só depois de quinze minutos de angústia profunda, de muito sofrimento, e por conta de uma hemorragia interna, o gatinho veio a falecer e agora descansa em paz.

Imagem: Endre Penovac

Acompanhe as publicações e curta a página d’O Novelo no Facebook aqui