Eu não te odeio

Eu não sei outra maneira de começar este texto sem gritar essas palavras bem alto:

 

VOCÊ NÃO EXISTE SOZINHO!  EU NÃO EXISTO SEM VOCÊ!

 

 

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Forrest Gump –  cena “A vida é uma caixa de bombons”

 

Eu não existo sem você caríssim@. E eu preciso jogar na sua cara essa outra realidade: até mesmo o seu pensamento não existe sem a noção de que você é distinto dos outros. Sim, há um mundo todo lá fora. Há um universo de alteridades. E acho que também preciso te dizer que você existe só existe na linguagem. E que o processo comunicativo necessita de um emissor e um receptor. Você consegue se atentar para essa verdade?

Pare…

Pare um pouco. E reflita por um instante sobre isso: você só pode ser você mesmo ao reconhecer que você é uma entidade, e essa entidade é parte de algo maior que nos conecta, pode ser o universo, o planeta, o estado, a cidade, o bairro, um ecossistema ou minúsculo quarto de hospital.

Conexão.

E essa é a coisa mais pura, mais integral que eu tenho a dizer para você, que ainda está a ler este texto. Posso te contar algo mais? Uma reflexão que escrevi em Junho de 2016. Eu acredito que o fragmento servirá de boa introdução ao que desenvolverei na sequência.

O Amor

Sou favorável ao amor. Cada um ama do seu jeito. (In)felizmente, o meu amor, raramente é identico ao seu. Ninguém tem o direito de censurar nenhuma forma de amor. Cada um é responsável pelas escolhas que faz, e essa responsabilidade tem muito a ver com liberdade. Liberdade e maturidade. Amar é respeitar a individualidade de cada um, e a forma como cada um se sente bem. Você não sabe e nunca saberá o que seu semelhante passou (ou está passando). E muitas vezes respeitar vai te fazer chorar… trará dor. Tal tarefa não é nada fácil. A individuação talvez seja a dor mais aguda no amadurecimento humano. Se existe censura, é porque o amor acabou? Teria o amor se transformado em outra coisa? Talvez o amor verdadeiro nunca aconteça, ah que díficil constatação. Talvez o amor verdadeiro não precise existir. O que não pode faltar é o respeito mútuo. Para isso leva-se tempo, talvez uma vida. Ser feliz é romper com a vaidade inerente de cada ser, sem o exercício da comparação seríamos mais felizes. Ser feliz é também ficar triste. Nunca vai existir um relacionamento perfeito porque não há seres humanos perfeitos, nem acabados. Somos um rascunho, somos incompletos e só existimos no outro. Daí a importância da comunicação, a importância da linguagem. Por uma consciência da alteridade, ah Derrida! Amar vale a pena!? Existe amor sem dor? O amor nos religa à nossa essência humana. Essência tão complexa, que ao percebê-la muitas vezes não lidamos bem com os sentimentos ali encontrados. O tempo é a melhor companhia. Aprendi que é só com calma e paciência que consigo caminhar e amar. Ter a capacidade de se permitir ficar só é para poucos, diria que para os mais fortes. Conviver com os nossos demônios é algo impossível num primeiro momento. Não acho que esses demônios devam ser domesticados. Se pudesse exterminá-los-ia. Mas o que seria de mim se eu fosse só luz? O tempo é esclarecedor. A ansiedade pune. Permita que o amor entre em sua vida. Tenho aprendido que só o amor é o caminho para o meu, para o seu, para o nosso autoconhecimento.”

Talvez tenha notado a minha dificuldade em lidar com o ódio, minha extrema inabilidade de conviver com a banalidade do mal cotidiana, talvez isso aconteça por ainda persistir no pensamento de que somos irmãos. Recentemente, tenho me encantado e me entretido com o trabalho de Byung-Chul Han, que é um autor alemão nascido na Coréia do Sul, teórico cultural e professor da Universidade de Artes de Berlim. O trabalho que me cativou de imediato foi “Sociedade do Cansaço”, em segundo “A agonia de Eros”, e atualmente, “A expulsão do outro”, e desse último manuscrito eu compartilho o seguinte:

 

Escutar No futuro, possivelmente haverá uma profissão que será chamada de ouvinte. Em troca de pagamentos, o ouvinte escutará o outro ouvindo o que ele diz. Iremos ao ouvinte porque, além dele, dificilmente haverá mais alguém para nos ouvir. Hoje, cada vez mais perdemos, a capacidade de ouvir. O que torna difícil ouvir é, acima de tudo, o foco crescente no ego, o narcisismo progressista da sociedade. Narciso não responde à voz amorosa da ninfa Echo, que na realidade seria a voz do outro. É assim que se degrada para se tornar uma repetição da própria voz (p.79).

 

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Narciso (Caravaggio)

 

Estamos todos, sim, eu me incluo nessa, estamos todos envolvido nessa cultura do “I” – Ipod, Iphone, Ipad, estamos cada vez mais focados no “Eu” e menos nos nós, e eles existem.

Vocês sabem que sim. E os nós só se desenrolaram no trabalho árduo da autoanalise, na cooperação e no trabalho do “Nós”. Já percebeu como cada vez mais estamos sós, e essa solidão em nada tem a ver com solitude, que é outra palavra que gostaria de comentar contigo aqui nesse curto espaço… Oliver Sacks, foi um neurologista, escritor e químico amador anglo-americano, e em seu livro “Tempo de despertar”, obra que também inspirou o filme homônimo, assim nos disse:

“Como a doença é a maior miséria, a maior miséria da doença é a solidão … A solidão é um tormento que não é ameaçado no próprio inferno”.

Solidão não é a mesma coisa que solitude. Estamos todos doentes como sociedade, como cidadãos, e como civilização. Eu tenho duas pressuposições para essa doença. Mas, antes gostaria de comentar o que eu entendo por solitude. A solidão pode ser entendida como um estado de reclusão, ou pode ser entendida como a ausência de contato com as pessoas. Pode nascer do sofrimento advindo de relacionamentos ruins, perda de entes queridos, ou pela escolha deliberada, também pode ocorrer devido a doenças infecciosas, transtornos mentais, distúrbios neurológicos ou circunstâncias de desemprego. A solidão a curto prazo também é frequentemente avaliada como uma época em que se pode trabalhar, pensar ou descansar sem ser perturbado. Pode ser confundida com o termo privacidade. Uma possível distinção entre a solidão e a solitude é que as duas palavras poderiam referir-se, respectivamente, à dor e à alegria de estar sozinho. Solitude é um caminho penoso e recompensador. Eu posso estar só entre a multidão, e posso encontrar solitude nela. Pois, solitude é o prazer de ser você mesmo…

E é aí que resgato a ideia de que estamos doentes… Primeiro, porque não nos (auto) conhecemos o suficiente. E cada vez mais projetamos nossas inquietudes no outro ao passo de personificar nosso ódio no outro. O ódio ao negro, ao pobre, ao homossexual. Por que eles representam tudo aquilo que “eu” tenho medo, que “eu” tenho pavor. Aquilo que “eu” encontro dentro de mim e que “eu” não tenho coragem de trabalhar e desconstruir. Tudo o que aprendemos no processo educacional e de socialização merecem ser questionados. E desconfio que essa desconstrução não aconteça porque temos pressa demais.

Nessa sociedade líquida e performática, do cansaço… Nela precisamos cada vez mais representar e apresentar altas e melhores performances. O ego é cultuado lá fora, fora de si. Contudo, ai dentro de si ele esta envolto em todas as suas frustrações, expectativas, receios e valores. O seu “eu” está nessa confusão aí, E essa é a beleza e dificuldade de ser você mesmo. E o medo de não atender as mais variadas expectativas pode encobrir seus pensamentos e influenciar suas atitudes para com o “Outro”. E é aqui que eu quero expor meu segundo pressuposto: estamos perdidos na cultura do consumo, estamos nos tornando clientes de nós mesmos, estamos perdendo a noção de cidadania, de pertencimento e de conexão, de ser cidadão.

Cidadão.

Não somos clientes na cidade, na rua, ou na praça. Nesses ambientes somos cidadãos. CIDADÃO. Aquele indivíduo que, como membro de um Estado, usufrui de direitos civis e políticos por este garantidos e desempenha os deveres que, nesta condição, lhe são atribuídos. E ser cidadão demanda esforço, empatia, tolerância, respeito, compaixão e amor. Nem tudo vai te agradar na esfera da cidadania.

Conexão…

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Por que tanto ódio ao próximo? Por que tanta falta de empatia? Por que queremos expulsar o diferente? Tenho mais questões que respostas, todavia uma grande motivação me leva até você: nós compartilhamos mais de 90% de nossa carga genética. Somos compostos dos mesmos elementos químicos, e ocupamos mais ou menos o mesmo lugar no coração de alguém, seja essa pessoa uma mãe, uma pessoa amada ou até nosso amigo cão. E eu continuo acreditando que o amor é o caminho para o conhecimento em todas as suas racionalidades. Até por que esse ódio espalhado no ar tem a mesma origem do amor que eu sinto pelo próximo. Ele está guardado na mente, e ativa o mesmo local na mente (veja estudos neurológicos a esse respeito) sempre que o gatilho emocional é acionado, representado pela foto da pessoa amada, por uma musica ou pelo cheiro das madeleines de Proust. Emoções nos colocam em conexão, e se engana aquele que acha que ódio é oposto ao amor, o nome disso é indiferença. E sendo assim, eu acredito que há, ainda; uma  fagulha de esperança. Como diria o rapper Criolo em sua canção “Ainda há tempo”…

“As pessoas não são más

Elas só estão perdidas

Ainda há tempo

Não quero ver

Você triste assim não

Que a minha música possa

Te levar amor”