01/jun/2018 por

Esquerda e direita: os limites para a liberdade

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“No universo da cultura, o centro está em toda parte”. Esse traço modernista sustenta a torre do relógio, em plena praça do Relógio, na Cidade Universitária da USP, em São Paulo. Não uma ou duas vezes, mas incontáveis vezes, os bancos, o jardim, a torre do relógio, os transeuntes, os pássaros, a chuva, o frio, foram meus companheiros. E, sempre, o universo da cultura esteve presente. Não há centro enquanto o mundo circula ou o centro está em toda parte. Cada ser torna-se um centro ao abrir suas percepções e se permitir observar, sentir e pertencer ao universo. Nesse universo, esquerda e direita não possuem definições precisas. Afinal, o que são esquerda e direita quando o centro está em toda parte? Quem caminha muito para a esquerda, termina seus passos na direita; e, vice-versa. Vide o mundo em sua esfericidade. Ah! O mundo! Circula e corre no espaço, como se fosse um pião, em plena harmonia com os demais astros. O silêncio impera na sua trajetória.
​O silêncio e a harmonia imperam no caminho da Terra pelo espaço, enquanto na superfície os pensamentos se entrelaçam, se chocam e se repelem, como se fossem nuvens individuais que não sobrevivem juntas. São sete bilhões de nuvens em busca de alimentos, de riqueza, de poder, de amor, de fé, de coragem. Sete bilhões de nuvens que não se toleram, pelas suas diferenças, e que tentam se impor sobre as demais. Se impor? É o condicionamento pelos meios mais perniciosos, pois envolvem a repressão dos sentimentos e a cessação da liberdade. O condicionamento promove a submissão voluntária do ser. Voluntária, sim, já que a escolha é individual, pessoal. Trata-se de uma forma moderna de escravidão, na qual, ao se submeter, o ser se entrega pela sua própria vontade, sem perceber que caminha para uma gaiola de hamster, sem hostilidade, deliberadamente, dócil, desde que esteja alimentado e em segurança, somente mais um dentre os sete bilhões. Ao perceber a gaiola que o cerca, rói as grades e escapa para um mundo amplo. Perdido na imensidão das ideias, inicia o caminho oposto ao dos que retiraram a sua liberdade, seja para a direita, seja para a esquerda, esquecendo que na sua origem, liberto, pleno de si, pode saber que “no universo da cultura, o centro está em toda parte”. Não percebe que a esquerda e a direita levam para o mesmo ponto: omissão de sua liberdade e fervor em condicionar os demais para que sigam o seu caminho, único verdadeiro na sua concepção de ex-escravo que recebeu alforria pela violência e não pela força das ideias. O ciclo do condicionamento e da opressão permanece, não porque o outro pensa de forma distinta, mas porque todos estamos presos no universo, por nós mesmos, pela nossa própria vontade, seguindo outros presos condicionados como eu.
​As ideias, na plenitude da liberdade, são naturalmente compartilhadas (e, não, impostas). Não há condições para a escravidão e para o condicionamento. Não há gaiola de hamster, nem direita e esquerda. Não vejo o outro como meu opressor, pois o pensamento é livre, sou senhor do meu caminho. A cultura não é encontrada facilmente nas listas expostas, mas é garimpada como um cristal raro e reluzente; precisa ser lapidada, pois não está pronta para o uso. Exige forja, calor extremo, para que a cultura seja absorvida, pois há necessidade de sua adequação às minhas ideias e pensamentos. Por outro lado, minhas ideias e pensamentos são alterados, se adaptando voluntariamente, mas com a razão em plena ação libertadora, sem condicionamentos ou qualquer violência contra mim, sem máscaras, autêntico e sincero.
​Esquerda ou direita? Extremismo? Quais são as tendências? O aprisionamento na gaiola de hamster me leva a um único local, seja direita, seja esquerda, sendo ambos com total supressão da liberdade. Não cabe a mim ser apenas livre; é necessário que eu deseje, com todas as forças de minha razão, escapar da gaiola à qual eu me submeto voluntariamente.
​Que venha a liberdade total, plena. Que eu me esforce para perceber, por mim mesmo, que o outro não precisa pensar igual a mim para que possamos convergir e ambos sermos livres, libertos da gaiola, observar meu entorno e enxergar, claramente, que a direita e a esquerda aprisionam e que, para que eu me entregue à plenitude de pensamentos, é importante minha visão de que “no universo da cultura, o centro está em toda parte”.

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