03/mar/2017 por

Entrevista com o artista Gadão Buzzo

30053003274_fd977eb8b5_o

Há quase 20 anos no cenário da arte urbana, Gadão Buzzo concedeu uma entrevista exclusiva ao Novelo, na qual elucida pontos turvos sobre a discussão do grafite e pichação, abordando políticas públicas no entorno da arte de rua e compartilhando um pouco de sua experiência e da história desta arte.

19871018581_138ef42443_z

Quando você começou com o grafite?

O primeiro contato que tive com desenho em parede foi em 1998 ou1997, em um projeto da escola. O pessoal tinha um grupo de rap e eles me convidaram para desenhar no muro. Eu já gostava de desenhar, mas era um desenho sem interesse único. No ano 2000, um primo e alguns amigos me convidaram pra pintar um muro no Jd. Mesquita, na cidade de Itapetininga-SP, mas aí já era um desenho estilo Grafite. Fui lá, fiz o desenho, gostei e aí comecei e não parei mais. Dezessete anos já. Em 2006 comecei a desenhar as vacas, e ficou mais conhecido. No início eram só as letras estilizadas. O pessoal fala “Ah, é pichação. Eu acho bonito o grafite só não gosto das letras”.  Na verdade as letras são o Grafite. Essa definição entre grafite e pichação só tem no Brasil e alguns países da América do Sul. Em outros países, Grafite é Grafite, pintura na rua. Em 2006, comecei a pintar as vacas e como é um desenho mais animado começou a atingir outro público. Crianças começaram a gostar, pessoas de mais idade, pessoas que normalmente não ligavam para isso. Como faço isso ligado a algo já conhecido, uso o novo com algo conhecido. Acho bacana que às vezes a pessoa está passando na rua e vê um desenho que já assistiu quando criança e ficamos horas conversando. Hoje em dia no meu instagram e nas redes sociais tenho conexão com pessoas de várias faixas etárias, crianças, e pessoas que gostam dos desenhos mais nostalgia.

O seu grafite tem uma identidade muito definida que são as vacas. Qual a motivação para usar o animal como protagonista na sua arte?

Meu apelido sempre foi Gadão, desde antes da novela O Rei do Gado. Alguém me xingou disso, eu fiquei bravo. Grafiteiros tem vários nomes bonitos, mas o meu é Gadão, não achava legal. Comecei a fazer grafite em 2000, tinha que fazer alguma coisa e comecei a assinar como Gadão. Um dia voltando de um grafite vi uma vaca num pasto e pensei: vou pichar a vaca. Ficaria legal uma vaca pichada andando.  O pessoal ficaria bravo, não foi uma boa ideia, a vaca correu atrás de mim e eu desisti. Um dia fui grafitar e saí sem rumo nenhum e ia pintar onde aparecesse. Fui pintar e olhei: acho que desenhei uma vaca e uma bolha onde assinava meu nome. Ficou legal e no mesmo fim de semana fiz umas seis.

Existe muito isso no grafite de adotar uma personagem e utilizar ela sempre. Sempre procurei uma identidade e comecei a fazer isso. Ficou legal. Fui conciliando com letras, rostos, caricaturas. Fui para um evento em Itu em 2006. Lá tinham vários grafiteiros da região. Gastei umas 10 latas de spray desenhando “Gadão” gigante e fiz uma vaquinha. Todo mundo que passava dizia “que legal essa vaca”. Se o pessoal do grafite estava achando a vaca mais legal, percebi que começou a chamar atenção. Foi tanto que até cheguei a carregar a tocha olímpica por causa da vaca. Fui convidado por conta dos desenhos e fiquei muito feliz. Foi algo que criei sem pretensão nenhuma. Para mim, é uma brincadeira de final de semana. Não pretendo “atacar o sistema”. Eu gosto de desenhar o que eu quero. Pode observar que meus desenhos dificilmente têm um tema agressivo. É uma coisa leve e mesmo assim incomoda as pessoas. Esses dias achei uma vaca que foi censurada. Pintaram uma faixa em cima das tetas. Uma vez uma diretora de escola também não queria que eu desenhasse as tetas da vaca. O leite não vem da geladeira né?!

15338202774_49066ff112_z

Seu desenho tem uma certa atualidade.

Sim, é pop arte. Uso o que está na atualidade. Fiz um desenho do seriado The Walking Dead no papel esses dias. Ainda não fiz na parede. Não acompanho a série, mas vi que estava bombando nas redes sociais.

Eu faço o que eu gosto, mas muitas vezes o pessoal me dá a ideia. Desenho as vacas comercialmente também. Como já faz mais de 10 anos que faço esse desenho na cidade, o pessoal acha bacana. Já existe uma recordação por parte de um público que cresceu vendo meus desenhos.

Você ainda encontra dificuldades para grafitar?

Pintei muitos muros ilegais, mas muro de terreno baldio e casas abandonadas. Nunca tive grandes problemas com a polícia. Já fui abordado, claro. Mas tem que conversar, dialogar. Sempre pintei em tapumes e casas em ruínas. Nunca fui muito agressivo pintando em fachadas. Não acho bacana.

4939284345_c403386d34_z

Existe ainda preconceito contra o Grafite?

Sim. O preconceito é em relação ao spray. Se eu estiver escrevendo o meu nome, pichando com pincel, a pessoa vai pensar “está desenhando”. Se for o grafite mais lindo, com o spray a pessoa está pichando. Isso está associado ao material que a gente utiliza. Mas eu não ligo, não fico bravo de chamar de pichação. Para mim, é independente. Não tenho problema com pichador, pois todo grafiteiro já fez pichação. A maioria das pichações que tem em Itapetininga é de um pessoal que faz grafite. Itapetininga não tem um grupo que faz só pichação. Teve um pessoal que veio de São Paulo, tinha uns meninos mais novos, mas hoje eu desconheço. Quando comecei a grafitar, já tinha parado uma fase de gangues na cidade onde tinha muita pichação. Peguei essa época e havia relutância, mas faz muito tempo que não sou nem abordado por estar grafitando, já pelo reconhecimento do trabalho. Em cidades maiores existem grupos de pichadores que saem só para pichar. Aqui não tem isso.

Há uma máxima na lei das ruas: onde há grafite não há pichação. Como você vê esta relação?

Existe mais em cidades maiores, mas normalmente o pessoal da pichação também frequenta eventos de grafite. Existem vertentes dentro do grafite. Bomb, letras, personagens, etc. Existe a discussão ainda sobre o que é grafite ou não. Pessoas que só pintam com autorização são grafiteiros? Existe o cara que só pinta ilegalmente, o cara que só pinta em evento, o chamado grafiteiro “Nutella”. Quando comecei a grafitar, usava bombinha de matar mosquitos. Eram três dias para pintar um muro. Spray é caro. Antigamente eu era menor, não trabalhava, e conseguir material era complicado. Pintava no rolinho, no pincel. Hoje em dia temos todos os sprays na mão. O pessoal ainda reclama falando que o importado é que é o melhor.

Quem quer pintar, pinta com o material que tem. Hoje em dia consigo me manter. Às vezes se alguém quer um desenho, eu peço o material e faço. Como eu não vivo disso, essa ajuda é muito aceitável.

30009523731_82d21ebd02_z

O atual prefeito de São Paulo, João Dória, mandou cobrir alguns murais de grafite na cidade. Como você interpreta este tipo de ação?

O Dória veio com essa história de que agora em São Paulo tem que mudar de profissão. Desde quando pichação é profissão? É um absurdo, ele não tem noção do que está falando. Eu estava lendo esses dias um artigo na internet sobre pichação e grafite no Estado de São Paulo. Jânio Quadros, em 1988 na cidade de São Paulo, já estava brigando, dando recompensa para prender alguns grafiteiros. O Valtinho da 2 é dessa época. Ele é lenda em Sorocaba. Hoje já é um senhor. Tem o Carlos Adão também. Essas coisas transcendem. Viram pessoas públicas. Tem muito grafiteiro que, mesmo assim, continua a pintar ilegalmente. Os Gêmeos ainda pintam assim. Tem outros grafiteiros que gostam de pintar em trem. Não existe isso de proibir.  A não ser o Kobra, mas o Kobra, para quem é do mundo do grafite, virou um artista plástico. Nem ele desenha mais. Existe uma equipe que desenha para ele.

Eu acho que o maior erro do Dória foi dar tanta ênfase para isso porque o que mais o pessoal da pichação e do grafite quer é atenção. Quando faço alguma coisa na rua, eu quero ser visto. Quando sai uma matéria minha, é bom. Quanto mais aparecer, melhor. Isso é uma coisa que existe já há um tempo. Muitos prefeitos já fizeram isso. O Fernando Haddad não, mas o Kassab também já tinha apagado tudo. Não vai mudar. O Haddad mudou alguma coisa. Houve um investimento bacana. Contra a pichação, o que o Dória faz é apagar o maior painel de grafite da cidade?!

Existem trabalhos melhores do que o que havia ali. Isso tudo é na área central para os outros verem. Não vai funcionar, não vai dar em nada. Logo vai ser esquecido. É algo que dá muita mídia do tipo “estamos fazendo alguma coisa”. Na periferia está lá, tudo destruído, daquele jeito.

Já aconteceram coisas semelhantes. Em Santo André, tinha uma lei municipal que proibia fazer grafite mesmo se estivesse na sua casa. Aí virou algo absurdo. Se estou grafitando com autorização e até pagando, eu precisaria de uma ordem da prefeitura. Não sei o que virou. Foi mais ou menos em 2010.

19503002121_262f41925f_z

Que ações você acha que poderiam mediar uma relação entre o grafite e o poder público?

Eu acho que proibir não funciona, a não ser que eles façam isso quietos, limpando a cidade de uma maneira bonita e disponibilizando mais espaço para o grafite. Fazer uma campanha feroz contra a pichação não funciona em nada.

Tanto que o pichador mesmo sobe em prédio, arromba, desce com a cadeirinha pichando e a polícia esperando ele lá embaixo. Vai preso e é isso.

Cão Fila K26 foi considerado o primeiro pichador do Brasil. No final dos anos 60 começou a surgir em São Paulo: Cão Fila K26. Começaram a se perguntar quem é esse cara. Será que é um código contra a ditadura? Fizeram uma intimação para ele se explicar e na verdade ele tinha uma criação de cão fila e vendia no km 26, na cidade onde morava. Como ele era bem de vida, veio da Amazônia pichando no caminho até São Paulo para divulgar. Chegou a ganhar prêmio pela ideia inovadora. Até então, não era algo que se via nas ruas, com exceção do que se viu na ditadura com as frases de protesto. Começou um alvoroço em torno de uma coisa simples no caso dele, que na verdade não era nada político. Cheguei a ouvir uma história de que a pichação no Brasil teria origem com o uso do piche de asfalto, mas não sei a veracidade disso.

Sempre vai ter quem prefira pintar ilegalmente. Diferente do que muitos falam, quem picha vai pichar, porque quer agredir o sistema de alguma maneira ou quer se expressar. Se quiser fazer grafite, vai e faz. É bacana apoiar. Eu mesmo comecei a fazer grafite, fiz poucas pichações, só que eu achava mais legal ser reconhecido por um trabalho bacana do que um trabalho que só faz pichação. Existem muitos projetos paralelos que não são feitos por prefeitura, como um que participei na cidade de Sorocaba, conhecido por “Despertar das Flores”. São coisas que agregam e juntam todo mundo. Mas aconteceu de eu participar de um evento em Sorocaba organizado pela prefeitura, em que tivemos cursos, demos aulas, pintamos um painel grande lá, mas no mês seguinte eles derrubaram o muro e começaram a apagar todos os grafites da cidade. Grafite e pichação é algo meio novo. O pessoal não compreende e ainda insiste nessa divisão, no que é “bonitinho”. A própria definição do Dória, sobre o que é arte e o que não é, é bem complicado. O Romero Brito com aquele arraso, vai ter gente que não gosta. Arte está no olho de quem vê.

17587346719_61e226a9a0_z

Enquanto artista, qual impacto e função da arte na vida das pessoas?

A arte é algo que está para inovar. O que está sendo feito agora talvez seja considerado arte daqui para frente. Não teve uma bienal de arte em que um cara colocou um mictório? Hoje tem gente que pinta com pênis, ânus e isso é considerado arte. Isso tem um pouco a ver com o que você gosta. Muitas vezes as pessoas definem arte pelo que elas gostam. Mas também tem aquela coisa comercial que as pessoas impõem. Tem muita coisa que vejo e penso: isso é feio, passa longe do legal.

Às vezes as pessoas ficam procurando uma mensagem na minha arte, tipo “Que mensagem você tenta passar com as vacas?” Nada! Ultimamente tenho gostado de criar uns desenhos para interagir com quem vê. Fiz recentemente numa casa abandonada uma vaca professora, brincando com o estado da Educação e das escolas, todas sucateadas, evasão de alunos, etc. Existem os que picham aleatoriamente, mas depois de um tempo se percebe uma mensagem ali.

Entrevista realizada em 9 de Fevereiro de 2017 por Thaís Maria Souto Vieira, editora de O Novelo.

Veja mais trabalhos do artista aqui

Imagens: Gadão Buzzo

Acompanhe as publicações e curta a página d’O Novelo no Facebook aqui