27/nov/2016 por

Entrevista com Eugene Puryear

“Eugene Pureyar é uma importante referência para a comunidade progressista em Washington, DC. Puryear é um dos fundadores da coalizão Jobs not Jail e do movimento Black Lives Matter na capital estadunidense. Ele foi candidato a vice-presidente em 2008 e em 2016 pelo Partido para Partido Socialismo e Libertação (PSL). Em seu livro “ Algemados e Acorrentados: Encarceramento em Massa na América capitalista” (Shackled and Chained: Mass Incarceration in Captalist America, sem tradução para o português), Puryear examina a evolução do encarceramento em massa e a realidade opressiva que reina dentro do sistema prisional dos Estados Unidos como um produto do capitalismo monopolista estadunidense. Nessa entrevista para O Novelo, Pureyar fala, entre outros temas, sobre o movimento Black Lives Matter, violência policial e a importância dos chamados “terceiros partidos” na disputa eleitoral dos Estados Unidos.”

Por Aline Piva

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Quais são os principais desafios enfrentados por jovens afro-americanos na sociedade atualmente?

Bem, eu diria que existem muitos desafios. Se eu tivesse que escolher um desafio, eu diria que o principal desafio são as oportunidades de emprego, mas basicamente a oportunidade de ter um padrão de vida decente é drasticamente reduzido. Obviamente há a questão que podemos usar como um bom exemplo que na América pouco mais de 50%, na verdade 51,9%, mas pouco mais de 50% dos afro-americanos com um diploma de ensino superior estão trabalhando em um emprego que não requer diploma de ensino superior. As pessoas que supostamente são mais privilegiadas, metade delas já acumulou 100 mil dólares de dívida para nada. E então você olha para a extremidade oposta, onde o desemprego também é incrivelmente desproporcional. Agora, sobre a taxa de desemprego americano, esta não mede realmente todas as pessoas que estão desempregadas. Portanto, há diferentes tipos de porcentagem. No entanto, mesmo as pessoas que seguem a corrente mais conservadora dirão que em muitas comunidades pobres negras no centro da cidade o desemprego é algo em torno de 20%. Existem várias pesquisas acadêmicas que tem estudado diferentes cidades, porém especialmente Milwaukee, e acho que outras 50 cidades, que estimam que o desemprego entre pessoas negras gira em torno de 50% em geral. E em Utah, o desemprego de pessoas negras é, de fato, 50%, e dependendo da cidade, pode ser pior ou melhor.

Assim, por um lado você tem a grande maioria de jovens negros na América a quem não tem sido dado nenhum tipo de oportunidade para conseguir um emprego. Então, você tem uma pequena turma a quem é permitido se matricular na faculdade, e para dar um exemplo às pessoas, na América, tem mais homens negros na prisão que na faculdade. E mesmo com pessoas na faculdade, isso dá a sensação de como algumas poucas pessoas estão indo, elas estão trabalhando no Starbucks ou algo parecido, mesmo embora eles possuam um bacharelado.

E eu diria que é onde eu iria começar em termos de desafio principal. Mas, em segundo lugar, todos os desafios caminham para isso. Porque se você não tem uma maneira de ganhar a vida sob o capitalismo, você não pode fazer mais nada. Então, você não tem um lugar para viver e, em seguida, muitas vezes, você está vivendo em circunstâncias terríveis. Vinte e sete anos de idade, vivendo no porão da casa de sua avó, ou onde quer que seja, é o único lugar que você pode encontrar. Você não tem um emprego. E depois há questões que podem ser trazidas para dentro e que envolvem a polícia. Como, por exemplo, diversas pessoas sempre percebem que muitas comunidades negras pobres, bem, todo mundo fica do lado de fora. Mas é porque a maioria das pessoas não tem suas próprias casas, eles não têm um trabalho, e eles estão apenas para fora e reunidos em locais centralizados, que geralmente acontecem ser em torno de lojas de esquina, onde você pode fazer tudo o que você precisa fazer. Faça um pouco de comércio no mercado negro ou o que quer que seja.

E basicamente se tem essa questão secundária que vai em direção a uma grande quantidade de assédio. A polícia frequentemente está mirando as pessoas, trabalhadores e os vendedores de drogas, etc. A maioria das pessoas radicais na América dizem que a polícia é a solução militar para um problema social. Mas você não tem emprego, tem serviços sociais limitados, e essas questões emergem dentro das pessoas que acabam indo para o mercado negro e acaba por criar uma grande quantidade de violência, de assédio policial e coisas como essa que acontecem, etc. A polícia está lá basicamente para conter as consequências disso. Então, eu diria que tudo começa com essa questão de eles não terem um caminho sério e decente para a maioria dos jovens negros. E apenas uma quantidade extraordinariamente pequena é capaz de obter salários decentes. E, por fora desta questão, surgem outras questões fortemente relacionadas.

Assim como no Brasil, EUA tem a força da lei que atinge jovens negros por meio de uma estrutura histórica de racismo. Então, como a sociedade e o governo podem lidar com esse problema para superá-lo?

Bem, eu penso que existam algumas questões diferentes. Para começar, eu sei que isso também é um ponto importante no Brasil, porém com um diferente sistema de justiça. Por exemplo, bem agora nós focamos apenas em justiça punitiva, e não em justiça restaurativa. E o que eu acho que deve ser feito por enquanto é reduzir este escopo de polícia versus sociedade. Muitas cidades na América possuem programas chamados Violence Interruption Program (Programa de Interrupção da Violência). E geralmente o que eles fazem é pegar pessoas de determinada vizinhança, normalmente ex-presidiários que querem fazer a diferença em suas vizinhanças. Eles são colocados numa posição na qual, quando ocorre algo, a polícia é chamada para mediar conflitos. Assim, em muitas cidades o que se tem visto é que isso tem sido muito efetivo para reduzir assassinatos e reduzir tiroteios. E, provavelmente, a mais efetiva tem sido Richmond, na Califórnia, onde existe um escritório de segurança do bairro o qual somente media disputas, mas tenta encaminhar as pessoas para serviços sociais, empregos, o que quer que seja, com o intuito de tentar tirá-los das ruas. E então pode se ver, por exemplo, uma vizinhança em Baltimore onde a redução de tiroteio em um ano foi de 56%. E Chicago, onde tem muita violência pesada, as áreas com o Programa de Interrupção da Violência tem na verdade presenciado uma queda ou, ao menos, não houve crescimento significativo. Se tem um enorme escopo que na verdade reduz o impacto da violência policial. Eu acho que é porque a polícia tem muita coisa para fazer, existem tantos lugares para atender, que eles estão perdendo poder. Então, nós precisamos sair dessa solução via polícia e ajudar no empoderamento de comunidades para resolver todas estas questões. O melhor tipo de diálogo é o diálogo da justiça restaurativa, onde a questão não é apenas se alguém fez algo errado, portanto a pena é essa, tipo encarceramento. Mas, pensando sobre isso, cadeia na verdade resolve o problema? Eu acho que está muito claro que não resolve. Digo, nós temos visto prisão e encarceramento desde o começo da história deste país e nós ainda temos atividades negativas acontecendo. Então, como nós podemos imaginar diferentes formas de pessoas terem seus conflitos resolvidos que na verdade encontra suas necessidades? É isso que é justiça restaurativa, resolver os conflitos considerando a necessidade das pessoas. Não é apenas, como as pessoas dizem, manter a pessoa fora da cadeia. Mas o que importa de fato é se você é vítima de um crime, o que de fato deve ser feito para fazê-lo sentir-se melhor? Muitas vezes as pessoas dirão “ah, essa pessoa foi para a cadeia, foi executada por fazer algum mal para minha família, mas isso não fez nenhuma diferença porque isso não trouxe aquela pessoa de volta”. Então, justiça restaurativa é tudo sobre criar um espaço e estabelecer um diálogo em que as pessoas sejam capazes de dizer o motivo pelo qual fizeram isso. Isso é o que acontece. E alguém pode dizer “eu sou a vítima e estou com raiva, mas eu gostaria de ver o que você pode fazer sobre seu ato, e gostaria de vê-lo talvez limpando as ruas ou fazendo um trabalho voluntário para jovens abrigados por 25 semanas do que vê-lo na prisão.

E quando se trabalha em outros contextos, como Brasil, México, El Salvador, mais se vê que a conversa sobre como lidar com a violência extrema faz surgir a questão se de fato polícia é solução e como nós poderíamos ir além deste problema. Eu penso que para irmos além deste problema não é muito sobre treinamento policial, mas eu acho que o ponto é mudar como nós mesmos vemos essas questões de segurança e essa questão de justiça, etc.

Afro-americanos tem tido uma longa história de resistência, mas também uma história de divisão no processo de escolha de quais estratégias seguir. Um exemplo claro é a diferença entre Malcolm X e Martin Luther King. Nos EUA atualmente, você vê afro-americanos agindo em consenso ou você vê que ainda há uma divisão?

Sim e não. Em algum grau, as pessoas estão caminhando juntas no sentido de comunidades negras considerando que cinco anos atrás a maioria destas comunidades estavam desorganizadas. Mas, pela primeira vez, nós temos um movimento jovem, ou melhor, um movimento jovem insurgente, que teve uma ascensão recente em termos de coesão, ao invés de ser algo como “o que essas crianças estão fazendo? Eles não estão fazendo o suficiente e bla bla bla”, como pessoas mais velhas costumavam dizer. Hoje se vê um movimento mais coeso. As pessoas estão lá fora lutando. Existem muitas ideias diferentes sobre o que fazer e como fazer. Eu acho que o movimento pelos negros (Black Lives Matter) está olhando de um ponto de vista mais para protesto, mais para algum tipo de revolução radical. Eu acho que tem uma boa quantidade de jovens que de fato acreditam que as pessoas deveriam empurrar o governo, o que se caracteriza um pouco mais como mainstream e mais típico. Eu de fato penso que em certo grau existe ainda divisão de base tática. Eu acho que a distância entre as visões é muito maior que a existente entre Malcolm X e Luther King, embora no final de suas vidas ambos estavam olhando para a causa-fim e como transformar pela raiz o capitalismo americano e de alguma forma moldar isso. Mas agora eu acho que este propósito está muito mais dividido se questionando se de fato podemos mudar isso por dentro do sistema ou não. Eu diria que essência dos líderes do movimento por vidas negras não creem de fato ser possível mudar as coisas por dentro do sistema, mesmo se eles quiserem trabalhar em direção a reformas. Mas eu acho que ainda tem uma quantidade de pessoas que creem ser possível mudar por dentro do sistema, devido à diversidade de ideias existentes na América. E agora, há muitas pessoas que são capazes de alcançar posições proeminentes mesmo se eles não forem necessariamente apoiados pela comunidade eles podem alcançar os escritórios do governo ou ONGs, os quais eu penso que são mais focados em promover mudanças dentro do sistema considerando ele é elástico o suficiente para aceitar tais mudanças.

Na verdade, eu acho que existe uma divisão muito mais profunda que aquela que Malcolm X e Luther King vivenciaram. Mas essa divisão foi menos divulgada porque nos movimentos recentes pela vida negra, ninguém sabia de fato o que defender. Qualquer um poderia dizer “eu sou a favor da causa negra” porque isso não significa absolutamente nada. Mas agora quando você diz que você é a favor da causa negra (Black Lives Matter), existe um conjunto de questões muito mais discreto, e no topo disso algumas dessas questões são internacionais, como por exemplo a rede Black Lives Matter tem se esforçado para estabelecer um discurso de apoio à Venezuela, à causa palestina. Agora não é mais apenas uma questão de como nós mudamos as leis na América, mas como nós nos vemos como americanos ou cidadãos do mundo? Nós estamos construindo um movimento pelos direitos humanos? Ou seria pelos direitos humanos que cruzam fronteiras? Eu acho que essa conversa é profunda e substantiva, e acho que independente se o movimento Black Lives Matter tiver sucesso, é preciso tornar esta pauta ainda maior. Agora o movimento não pode englobar esta plataforma e transformá-la em uma ação política significativa. Tudo isso irá desaparecer, mas do jeito que estão não pode continuar. Eu acho que nós estamos começando a ver algumas transformações como por exemplo no caso da Palestina, com algumas pessoas apoiando esta causa, então já vemos algo sobre tais divisões. Isso é realmente interessante, e vem de alguém de fora do EUA. E surge o sentimento de que muitos desses movimentos por direitos civis são conjunturais. Eles são uma resposta a algo, então estes movimentos brilham, realizam seus objetivos até certo ponto e depois desaparecem como um movimento organizado.

Quais diferenças você vê entre os movimentos pelos direitos civis da década de 60 e agora com o Black Lives Matter? Você acha que Black Lives Matter pode se tornar um tipo de organização mais permanente?

Talvez. Eu acho que depende de quais direções o movimento tomar. Eu acho que o movimento de 60 tinha maior facilidade de explicitar seus interesses devido às regras que regiam a sociedade americana, uma vez que era mais fácil ao governo conceder direitos civis. Digo, não era fácil, claro que tiveram diversas lutas, mas isso não mudou a natureza do capitalismo. Causou um monte de tumulto, mas era algo aceitável. Mas quando você olha agora, existem pessoas como Hilary Clinton tentando capitalizar o movimento em prol de sua candidatura. Nós precisamos de mais empregos, precisamos reconstruir comunidades. E a razão por não estarmos reconstruindo as comunidades não é somente pelo fato de que alguém estava sendo delinquente e não sabia o que precisava ser feito. Mas o ponto é que os negócios foram globalizados por meio de cadeias produtivas, então você não pode simplesmente trazer um grupo de empregos de volta. A maioria dos empregos tem deixado bem claro qual o teto salarial eles irão prover, quais benefícios eles não querem mudar. Aqui, você precisa pagar pelo cuidado familiar. Assim, claramente e obviamente muitos destes problemas vão diretamente à raiz do fato que o capitalismo americano empurrou esta raça ao fundo. Este modelo pautado no neoliberalismo ganha seus lucros e eles não querem voltar atrás com este ganho. A McKinsey Consultoria fez um grande estudo no ano passado, e que alertava que todos os jogos do Neoliberalismo podem potencialmente acabar nos próximos cinco anos, então isso significa que nós estamos fazendo nosso trabalho e precisamos continuar empurrando isso. Mas a classe capitalista internacional localizada nos Estados Unidos não está a fim de desistir de tanto poder. Então, basicamente o movimento Black Lives está apto a empurrar isso, e sabemos que isso é tecnicamente realizável dentro do sistema. Mas tudo isso vai muito mais longe, tudo isso é muito mais do que as propostas do Bernie Sanders, e olha o que fizeram para pará-lo! Então, eu penso de devemos questionar se é possível ou não haver mudanças verdadeiramente fundamentais por dentro do sistema. Nesta mesma linha, a questão subsidiária é se é possível criar organizações e mobilizações duráveis, mas como também aptas a atingir as metas. Mas aqui nos Estados Unidos, essa conversa se torna complicada por causa do discurso anti-comunista. As pessoas não falam sobre isso. A ideia de partidos políticos ou algo assim é considerada um pouco tabu ou qualquer outra coisa. Em outras partes do mundo, eles não pensam ‘como nós protestamos?’. Eles pensam ‘como nos livramos deste povo e tomamos o poder?’. Então, se o movimento Black Lives pode mudar essa equação e se apresentar como um movimento que não é reformista, mas sim um movimento de poder, para que possamos fazer as mudanças que queremos. Mas existem diferentes pontos de vista sobre isso, e eu não sei se, enquanto uma instituição, seria possível manter a mesma visão dentro do grupo. Se você olhar para os Estados Unidos, verá que todos os problemas que existem são amparados pelo sistema constitucional-legal. Então não é apenas uma questão do movimento Black Lives. Isto na verdade é um movimento democrático popular em busca de direitos por uma vida decente, de não ser baleado nas ruas, pelo direito a educação, e todos esses tipos de coisas consideradas direitos fundamentais básicos. Mas na constituição dos Estados Unidos não há direitos sociais. Existem apenas direitos econômicos e civis, por exemplo você tem o direito de comprar uma propriedade e o direito à liberdade de expressão. Mas não existe direito a um emprego ou algo do tipo. E neste sentido, existem bons exemplos como Brasil e Espanha, com os quais podemos aprender algumas lições vendo as lutas de sindicatos, de estudantes, e a luta recente pela democracia. Os Estados Unidos precisam de uma nova constituição que exponha os interesses da população e transcreva aquilo que queremos fazer. E nós também precisamos de poder político e desenvolver a habilidade de tomar posse do Estado com o intuito de inserir reformas progressivas e progressistas. Então você olha para um protesto com 15 milhões de pessoas na Espanha contra a política de despejo. Ninguém disse “que o locatário vá para o inferno”, mas reivindicavam o direito constitucional de ter uma casa e um padrão de vida decente. É como o Movimento dos Trabalhadores Sem Terra, em que eles são chamados de invasores de terras. Mas a constituição não prevê que se uma terra não está sendo utilizada de modo produtivo, ela pode ser ocupada? Então, neste sentido, a lei está apenas sendo cumprida. E eu penso que podemos abandonar os movimentos Black Lives, Fight for $15, entre outros, para criarmos um movimento democrático popular capaz de lutar por mudanças totais atingindo a base constitucional do país. E eu acho que, se isso acontecer, vamos ver formações de base surgimento, como foi o caso do Partido dos Trabalhadores na década de 80 e dos partidos PSOE (Partido Socialista Obrero Español) e PCE (Partido Comunista de España) na década de 70. Mas, em ambos os casos, diversas contradições vieram junto, mas eu acho que o ponto básico é verdade, isto é, nós estamos num ponto de inflexão nos Estados Unidos, em que um movimento popular democrático não se vê como tal. Então, podemos tomar consciência da própria realidade e começarmos a colaborar a nos organizar através das diferentes questões? Veremos.

Sobre as eleições norte-americanas, como você acha que uma possível eleição de Hilary ou Trump afetaria a vida dos afro-americanos?

Bem, na verdade certamente nenhum deles tem uma grande proposta para esta questão. A Hilary tem mais pontos particulares sobre esta questão. Eu acho que a questão maior é como eles abordam a questão da forma como o governo federal intervém na questão de brutalidade policial. Eu acho que nenhum deles fará muito em termos de situação econômica básica para pessoas negras. Hillary recentemente propôs o gasto de 125 bilhões de dólares destinados a comunidades negras, o que de alguma forma não é muito dinheiro, além de não ser apenas um problema que se resolva “tacando” dinheiro, uma vez que existem questões estruturais mais profundas sobre como o mercado de trabalho funciona, como governos estão alocando recursos, e coisas como isso. Você poderia dar 150 bilhões de dólares e o governo poderia simplesmente não fazer nada. É como o Obama fez ao oferecer o resgate financeiro esperando diminuição da taxa de desemprego como retorno, mas isso não ocorreu.

Penso que uma área em que podemos ter mais controle é na questão do Departamento de Justiça, no qual podemos cobrar os escritórios que lidam com violações de direitos civis, juntando fundos para serem usados nos programas de prevenção à violência, programas comunitários, e tornando as pessoas aptas a resolverem seus próprios problemas, ao invés de chamar a polícia. Também, é preciso oferecer apoio a procuradores independentes em muitos casos, como em situações que podem haver significante impacto sobre a violência policial, levando estas situações para a Suprema Corte e desafiando a lógica de que um tiro pode ser justificado. Eu acho que o novo presidente poderia ter uma influência enorme neste ponto, mas a questão é se eles terão tal influência. Eu não sei. Certamente Hillary tem como alvo um jogo maior, mas é difícil analisar se ela fará algo substancial. Certamente, Obama tem maior interesse pessoal nesta questão por ser negro, mas ainda assim foi muito reticente em tomar medidas muito agressivas junto ao Departamento de Justiça.

Você concorreu pela presidência junto com a Gloria La Riva pela plataforma do PSL (Partido pelo Socialismo e Libertação). Considerando que nos Estados Unidos existe uma polaridade entre Democratas e Republicadas, e que possui o foco da mídia, qual a importância de ter uma plataforma fora do mainstream político?

Eu penso que seja extraordinariamente importante. A razão pela qual as pessoas promovem mudanças ou não está baseada na percepção delas sobre qual mudança é possível. As pessoas não sabem quais as possibilidades de mudanças que existem, então elas não têm habilidade real de avaliar o que é possível ou não mudar. E o ponto é que eu só vou fazer o que eu quero fazer, e só vou dizer o que quero dizer, e por causa disso as pessoas me apoiaram. E, até certo ponto, as pessoas são atraídas pelo fato de alguém não ter medo de se expor politicamente. As pessoas estão tão presas nesta política polarizada e distante que não acreditam que alguém irá apoiá-las. As pessoas estão presas na estratégia de apoiar o menor de dois males, e as pessoas que usam este argumento geralmente apoiam os Democratas, apesar de este ter se movido para a direita desde 1992, e não conseguir demonstrar progresso real em nenhuma direção. Eu acho que isso é apenas um reflexo da hegemonia bipartidária que existe nos Estados Unidos. Eu penso que é neste ponto onde está a real importância de ter uma plataforma diferente, que as pessoas possam de fato retransmiti-la, mostrando às pessoas que você não tem medo de estar lá fora. Estamos numa situação em que se você não apoia Hillary, você é republicano e vice-versa. E por isso eu acho importante mostrar às pessoas como ambos são ruins, e isso nos permite mostrar o cerne daquilo que queremos, evidenciando que, se continuarmos neste esquema político, nunca teremos política transformadora. Ao mostrar isso, conseguimos ficar de pé por nós mesmos. Após Hillary ser eleita, qualquer um pode levantar e dizer “foda-se as corporações” e tentar dizer como Hillary Clinton é terrível. Ou quando Trump for eleito, você está disposto a lutar e mostrar que você não é fraco? Se ele ganhar, vai ser péssimo. Mas não vamos deixa-lo fazer o que ele diz que fará. Então, eu acho que de alguma forma é importante oferecer às pessoas outras ideias e outros pontos de vista, dando às pessoas força para lutar.

Imagem: Washington City Paper

Ouça a entrevista na íntegra aqui

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