17/fev/2016 por

Mariana, MG – 319 anos, drogada e prostituída.

gaia

“Embora ninguém possa voltar atrás e fazer um novo começo, qualquer um pode começar agora e fazer um novo fim”. (Frase escrita ao fundo na parede em meio a lama)

O título deste texto remete ao livro e filme “Eu, Christiane F. – 13 anos, drogada e prostituída”[1], do diretor Uli Edel, que conta a história de uma garota de Berlim dos anos 70 com o sonho de frequentar a “Sound”, discoteca mais badalada daquele momento. Quando a garota começa a se envolver com o local, conhece o álcool e gradativamente imerge em um mundo de vícios e prostituição.

Com esse link iremos descrever Mariana, que já nasceu fruto do abuso e da exploração, entretanto, muito importante não só na região, mas para o País.

Mariana demorou a ser batizada, mas quando foi ganhou nome de rainha, em homenagem à Maria Ana Josefa de Áustria, esposa de D. João V, rei de Portugal.

Os anos passaram e Mariana foi se afundando em um mundo de ilusão, abusos, exploração e drogas. A porta de entrada das drogas se deu pela ganância, uma droga forte, depois foi progredindo até chegar no descaso, que, para muitos, é o ponto final.

Certa vez, Mariana, cada vez mais refém das drogas, teve uma overdose. Em suas veias por onde corriam um sangue azul cristalino mudaram subitamente de cor. Seu corpo adoeceu, sua energia se esvaiu, seu brilho ficou opaco, comprometendo seriamente o seu futuro.

Hoje, Mariana espera jogada à própria sorte à procura de uma clínica de reabilitação. O cafetão que a explorava e a violentava diariamente faz pouco caso da situação fazendo com que ela definhe mais rapidamente.

Mariana ainda respira graças a voluntários, amigos, vizinhos e residentes, e, apesar do nome, não é uma garota e nem um filme, mas uma cidade de passado majestoso, um presente conturbado e futuro incerto, que ainda droga-se com doses diárias de minério e se prostitui por míseros trocados do capital privado.

A cidade de Mariana foi a primeira vila, cidade e capital do estado de Minas Gerais. No século XVII, foi uma das maiores produtoras de ouro para o Império Português e, desde então, foi crescendo com a instalação de empresas mineradoras em sua região, entre elas a Vale do Rio Doce e a Samarco, subsidiária da Vale e da anglo-australiana BHP Billinton.

Os garimpos, com o passar do tempo, foram sendo trocados por técnicas mais modernas de extração de minério. Já os picaretas nunca deixaram o local, estão, a cada dia que passa, mais incrustados como um câncer que cresce sem diagnóstico.

Três meses do maior crime ambiental do Brasil, dois desaparecidos, um rio assassinado e nenhuma providência ainda tomada. Pra mim, esses números são mais expressivos do que qualquer multa e indenização.

Não podemos esquecer das 17 pessoas que perderam suas vidas em meio a lama.

Mariana foi usada para ilustrar e representar as inúmeras cidades, vilarejos e comunidades afetadas pelo maior crime ambiental do Brasil.

A cada dia que me coloco a pensar se esse é somente um acontecido de Mariana ou se é de toda uma sociedade, tenho a infeliz certeza de que todos nós nos drogamos e nos prostituímos diariamente.

A droga da futilidade, alienação e senso comum, entre outras, nos empurram direto e involuntariamente à prostituição crônica de uma sociedade doente.

Hoje, nas camas desta foto, já não se deitam mais ninguém. Hoje, nas paredes sujas desse quarto, não se enxerga um futuro muito além.

Foto de Rafael Simioni

[1] trailer do filme – https://goo.gl/6ziW2r