22/maio/2018 por

(Em) Estado de Choque

MARÉ

Amar é do complexo da maré.

Tenhamos Fé.

Fiquemos de pé.

Xangô meu pai traga justiça.

A lei não é para todos?

Como é que é?

Onde erramos minha mãe?

Onde errei minha mãe?

Eparrei minha mãe! Eparrei Iansã!

Envia-nos um raio de sua complacência.

Tupã! Senhor do tempo.

Já não há mais paciência.

Sufocadas, internamente é tudo vazio.

Tudo oco.

Oco. Oco. Oco. Oco.

Oco. Oco. Oco. Oco.

Coração falha, mas não para.

Aperta o peito.

Já me arrancaram o oxigênio…

Ar rarefeito.

Nem tudo se desmancha no ar.

Agora, quem é morto é suspeito?

Mas é claro: a favela conquistou o pleito.

Cansei da luta? Mas só pode ser puta.

Luta. Por que Luto é feminino de luta.

Levanta e anda, vai! Levanta e anda. Vai!

São inúmeras algemas.

Esposa; mãe; do lar…

nada recatada.

Eles têm estratagemas.

E para ela é só pedrada.

São raposas e porcos famintos.

Mas…Eu já não minto.

Pássaros não sentam à mesa.

Eles não passarão. Eu passarinho.

É verdade nem todos usam farda.

Gravata.

A luta é árdua. Você tá louco?

Olha a bravata.

Ah, mas eu sou homem, rico e branco.

E usam terno.

Olha que eu te interno.

Sou mulher, negra, pobre.

Ah você não escapa, vai… ele te mata.

Na cadeia é só pobre e preto.

Carne negra no espeto.

Peguem suas armas, peguem seus canhões.

Eu invoco Camões;

Adélia Prado, Guimarães Rosa.

R-O-S-A.

Eles seguem avante.

E nós petulantes, queremos Dante,

Cecília Meireles, Fernando Pessoa.

P-E-S-S-O-A.

Ressoa, ressoa… ressoa.

R-E-S-S-O-A.

Gente.

É de ranger o dente.

Punho erguido, piso firme.

Parem de matar gente!

Parem!

A gente tenta.

E vem mais spray de pimenta!

O peito arrebenta!

Já não aguenta!

É mais um tiro: ratatá ratatá!

Escuta. E de novo: executa.

RÁ-TA-TÁ.

É pra acabá’.

Pro mundo escutá.

É de chorá’.

Executa: RATATÁ!

Vamos a luta?

Mas é lésbica, negra e favelada…

Só pode ser puta…

RATATÁ!

Confronto?

RATATÁ!

Leva pra casa.

RATATÁ!

Você é tonto?

RATATÁ!

As pessoas não são más.

RATATÁ!

Elas só estão perdidas!

RATATÁ!

Eu ainda me espanto.

RATATÁ!

E me perco e me acho em meu pranto.

RATATÁ!

Já é a hora da pá…

S-I-L-Ê-N-C-I-O.

Hora da pá. Mas…

S-I-L-Ê-N-C-I-O.

(…) Ensurdecedor…

Aquele que já bateu panelas,

há muito tempo esqueceu-se delas.

A unanimidade é burra.

Ela urra!

Mais uma pá de terra.

De agora em diante, ninguém mais erra.

Lá se foi; a última pá de terra.

RÁ…TÁ…TÁ!