29/out/2015 por

“Eles acreditam em muros, nós acreditamos em pontes”

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A indignação deveria vir com data de validade e lote específico, pois elas expiram rapidamente e são seletivas, o mesmo peso da insatisfação não se aplica a assuntos relacionados ou que necessitem de um questionamento e análise mais profunda (não que esse breve texto vá fazer uma análise profunda, mas sim pequenos apontamentos).

Esta frase pode se encaixar em diversos temas, mas aqui será usada para retratar o caso do menino sírio Aylan Kurdi, 3 anos, e dos milhares de refugiados que morrem em busca de uma vida mais digna.

Um grande alarde se fez em torno da foto que inundou as redes sociais e nos transbordou de revolta, mas que hoje não é o que acontece, saber quem foi o último eliminado do reality show da Record, A Fazenda, parece ter mais relevância, ou se inteirar dos últimos capítulos da novela da separação Chimbinha e Joelma demonstram mais urgência.

É uma lástima que a nossa memória se desfaz como um castelo de areia quando a primeira onda a toca com a cheia da maré.

Entretanto, não são castelos de areia que estão sendo desfeitos, mas sim futuros que estão sendo perdidos, vidas que estão sendo relegadas ao esquecimento pela indiferença do nosso posicionamento.

Falando em posicionamento, um que deve ser mencionado pelo exemplo, é o do rapper Emicida, que em um de seus últimos shows, na Hungria, usou uma camiseta com o dizer “No Human Being is Illegal” (Nenhum ser humano é ilegal) e escreveu nas redes sociais: “Eles acreditam em muros, nós acreditamos em pontes”.

Os muros foram construídos, impedindo o acesso dos milhares de refugiados aos países europeus, mas as pontes ainda continuam inexistentes. Um corredor foi criado na região dos Balcãs, chamado por alguns de “corredor humanitário”, onde milhares de refugiados são tocados como uma boiada em direção ao abate por autoridades locais.

O dizer “a vida não tem preço” tem tomado um sentido diferente do original, a cada dia demonstra-se que a vida não tem valor algum, mas se esta vida for produtora de mercadorias, ai sim, pois para o capital não existe fronteira, muito menos distância, quanto mais, melhor.

Uma estrofe da música “Admirável gado novo”, do genial Zé Ramalho, pode ser facilmente traduzida a este momento.

“Vocês que fazem parte dessa massa,
Que passa nos projetos, do futuro
É duro tanto ter que caminhar
E dar muito mais, do que receber.
E ter que demonstrar, sua coragem
A margem do que possa aparecer.
E ver que toda essa, engrenagem
Já sente a ferrugem, lhe comer.”

A ferrugem já os corroem desgastando as engrenagens e mal sabem que o abate os esperam com a crescente onda de xenofobia, sobretudo na Alemanha, que é o país que mais liberou o acesso aos refugiados.

Manifestações podem ser vistas pela Europa, mas algumas chamam mais atenção, como a que ocorreu na cidade de Dresden, Alemanha, reunindo cerca de 20.000 pessoas que comemoravam o primeiro aniversário do movimento islamofóbico, o PEGIDA (Países Europeus contra a Islamização do Ocidente).

O assunto parece não estar sendo tratado com suas reais proporções.

Enquanto isso, vamos zapeando pelos canais de televisão, refugiando o nosso senso crítico e cultivando a arte de não se importar, ou melhor, de se importar quando é conveniente até que o novo apague o velho da memória.