Depois do doutorado sanduíche: asas que crescem

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Qualquer experiência no exterior – seja uma viagem curta ou longa, um intercâmbio de estudos, um trabalho temporário etc. – é, por si, edificante. Conhecer outras culturas, outras paisagens, arquiteturas, desenhos urbanos, hábitos e culinária é a maior riqueza que um ser humano pode ter.

Mas estou aqui para falar de uma experiência específica: o doutorado sanduíche. Para quem não sabe, é um tipo de arranjo muito comum entre doutorandos pelo mundo: consiste numa espécie de intercâmbio no qual o(a) estudante de doutorado vai passar alguns meses (geralmente de 3 a 12) em uma universidade no exterior. Isto serve para que ele ou ela complemente sua formação já em andamento em uma universidade de seu país natal.

E por que isto é necessário? As universidades brasileiras, por acaso não são boas o suficiente?

Muito pelo contrário. Em geral nossas universidades que fazem e valorizam a pesquisa científica são muito boas e elas próprias também recebem doutorandos de outros países. A riqueza deste intercâmbio reside exatamente na etimologia desta palavra: a troca de conhecimentos e experiências.

Tive o prazer de fazer meu doutorado sanduíche no International Institute of Social Studies (ISS) na cidade de Haia, Holanda, e posso dizer que ali meus horizontes foram alargados.

Primeiramente, porque o referido instituto praticava toda uma agenda de pesquisas na área de “Development Studies” que tem pouca inserção no Brasil: a saber, os estudos sobre desenvolvimento em suas relações com a sociedade civil, meio ambiente, relações de gênero etc. Com um time que vai de economistas a antropólogos, o instituto de fato pratica a interdisciplinaridade.

Além do mais, o título “International” não é fortuito. Ali concentram-se estudantes e pesquisadores dos mais diversos países do mundo, sobretudo da América Latina, Ásia e África. Por sinal, é incrível como vários professores do instituto – mesmo os holandeses – tinham grande conhecimento sobre esses países, sendo que boa parte de sua vivência acadêmica tenha sido permeada por consultorias e apoio à implementação de políticas públicas nos diversos rincões do mundo. Surpreendeu-me o fato de muitos deles saberem mais do nosso país e de nossos vizinhos sul-americanos que nós mesmos. Esta internacionalização ainda engatinha no Brasil e creio que seja um bom exemplo de como a academia pode ser plural e aberta a realidades socioculturais diversas.

Isto também me remete à Holanda e mais especificamente à cidade de Haia. Sede do governo nacional e de órgãos como a Corte Internacional de Justiça, a cidade é multicultural. Impressiona pela sua grandeza e pequenez ao mesmo tempo. Sendo praticamente um retângulo de 10 km por 10km e com pouco mais de 500 mil habitantes, ela poderia ser um bairro de São Paulo, por exemplo.

Entretanto, a última coisa que me aconteceu por lá foi ficar entediado. A tranquilidade e a organização conviviam surpreendentemente com uma variedade de pubs, bares e restaurantes, com um centro comercial pujante e com a já referida profusão de culturas e nacionalidades distintas. Sem esquecer, é claro, dos holandeses. Raramente vi um povo tão altruísta e educado. A solicitude e simpatia com que tratam as outras pessoas é notável  – mas vale tomar cuidado quando andam de bicicleta a velocidades muitas vezes maiores que as dos carros! Ademais, é de se registrar parecem ter um estilo de vida saudável e sem estresse.

Senti-me abraçado pela cidade e, nos meus últimos dias, queria abraçá-la de volta. Ter vivido ali nos fez – a mim e à minha companheira – ver o mundo de outra maneira. Experimentamos outras formas de vivência, de arquitetura, de desenho do espaço urbano, de fazer ciência, de convívio entre pessoas, entre muitas outras coisas.

Houve, sobretudo, a oportunidade de enxergar o nosso país a partir de outra lupa. Permiti-me aguçar as críticas sobre modos e estilo de vida, consciência social e produtividade no trabalho que já tinha sobre o Brasil. Infelizmente, em nosso país valoriza-se pouco o transporte público – algo que se traduz em nossas cidades caóticas e cheias de carros. Também é verdade que, na Holanda, estado e mercado se dialogam mutuamente para que a sociedade atinja o máximo de bem-estar e igualdade social possíveis. Ali, ser produtivo não significa ter longas jornadas de trabalho e puxar o saco dos superiores. Simplesmente significa entregar um trabalho de qualidade dentro de um horário civilizado e ter um balanço entre vida profissional e pessoal. Ao mesmo tempo, o Estado interfere em setores estratégicos da economia (como no porto de Roterdã e no setor financeiro com o ABN AMRO) e como mitigador de desigualdades, distribuindo renda através de programas sociais.

Entretanto, em muitos aspectos foi possível ressaltar as qualidades brasileiras. Se, por um lado, não temos uma sociedade tão harmoniosa – fruto, em grande medida de nossa violenta história e da rapinagem de nossas elites -, por outro temos uma cultura tão rica – algo que fica evidente quando pensamos em nossas músicas, arquitetura, culinária, cinema, pintura, artes visuais etc. – que alimenta as esperanças de um futuro melhor. Em outras palavras, como pode um país de Caetano, Gil, Mutantes, Chico, Racionais, Sepultura, Angra, Machado de Assis, Guimarães Rosa, Mário de Andrade, Niemeyer, Tarsila do Amaral, Portinari dar errado? Isso para nem falar na nossa natureza, algo exuberante e onipresente até mesmo para quem vive em metrópoles como São Paulo e Rio de Janeiro. Podem ter certeza que qualquer brasileiro que viver na Europa vai sentir muita falta de tudo isso!

Em suma, a experiência é edificante e recomendável a todos que a possam fazer. E isto vale não só para a vida acadêmica. Você nunca mais será @ mesm@ e carregará para sempre as imagens, reflexões, lugares e pessoas que fizeram parte desta jornada.

Imagem: Mikhail Markovskiy (Mauritshuis – Casa do Maurício de Nassau)

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