15/out/2017 por

Das havaianas até aqui.

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Tempos atrás, uma aluna me disse: “você faz diferente onde muitos são iguais”. Isso me marcou tanto a ponto de me pôr em reflexão e angústia, pois, afinal, o que de tão diferente eu faço assim?

Buscando entender melhor isso, comecei a pensar e a reviver vários momentos nos quais fui me construindo e, claro, desconstruindo ao longo da coisa louca, maravilhosa, decepcionante, emocionante, eletrizante que é lecionar. Mais do que nunca me pego pensando na ideia de um antigo sábio o qual nos diz que há três formas de se ganhar sabedoria: a primeira, por reflexão, que é a mais nobre, a segunda, por imitação, que é a mais fácil, e a terceira, por experiência, que é a mais amarga.

Na construção do “eu, professor” passei por todas. No início, minha professora de colégio me disse “vou te encontrar, daqui alguns anos, usando havaianas, e, com sorte, você irá conseguir pagar uma faculdade qualquer, obviamente, se tiver sorte”. Vez e outra tenho a lembrança daquele dia, afinal, esporadicamente me deparo com ela. Aquilo fez amadurecer em mim um sentimento de crescimento o qual fortaleceu ainda mais minha vontade de lecionar. E sim, sempre tive esse sonho, e, não diferente de
outros, sempre acreditei que poderia mudar o mundo e amo acreditar que o caminho para tal é a educação.

Nesses momentos de construção e reconstrução, vejo-me já na faculdade, mais precisamente na “experiência da docência”, em qual a segunda parte do ditado do velho sábio foi muito presente. Tentava imitar e me ver fazendo o mesmo que meus colegas faziam. Por mais simples que fosse, sabia que aquilo não era eu, mas era o mais fácil, afinal, eu só imitava o que muitos de fato faziam.

Claro que nesses momentos voltava meu olhar para a reconstrução mais árdua, a que envolvia a nobreza e sempre me lembrava de um sábio contemporâneo, que dizia “que a escola nada mais é do que o reflexo da sociedade”, meu Deus! Aquilo acabara comigo.

Mudar a sociedade? Vai ser difícil…

Com aquilo ainda na cabeça, fui para uma de minhas primeiras experiências em sala. Gaguejei, suei, travei, nossa… Sofri. E para me ajudar, uma professora me dissera: “sério mesmo que você quer ser professor?”. Mais uma vez me vi esfacelado.

Em meio a tudo isso, eis que ela surge, minha mãe. Ela que sempre esteve ao meu lado nos momentos mais difíceis e me dissera que tudo isso representaria um crescimento, e que sim, “crescer é doloroso”, mas que tais situações serviriam como um grande aprendizado. Talvez nunca dissesse a ela o quão importante foi ouvir aquilo, e como, nos melhores momentos da minha vida ela sempre esteve presente.

O tempo passou e pouco a pouco fui ganhando confiança frente à sala e às situações que foram se apresentando na vida escolar.

Foi então que me deparei com um dos grandes momentos da minha vida escolar. Eu me vi indo para uma nova cidade. No início, acreditava que aquilo seria o melhor, novos ares, novas experiências, novos desafios…

No entanto, o que aconteceu foi bem mais complicado do que havia imaginado. Eu estava em um colégio novo, onde eu era o mais novo, não somente em idade, mas também na experiência. Eu e outros professores fomos recebidos com a seguinte frase: “não convidei nenhum de vocês que aqui estão, e, se cá estão, façam as coisas como eu disser, afinal eu mando aqui”.

A recepção da diretora caiu como uma bomba para mim, ainda mais por ser taxado de inexperiente e visto como um possível “problema” para os índices escolares que naquela instituição eram excelentes. Ciúmes, inveja e sentimentos negativos corroeram minha vivência naquela escola, pois minha despreocupação com todas essas questões incomodavam muita gente. O fato foi que não aguentei a barra e retornei a minha cidade de origem, visto por muitos como um sinal de fracasso, eu me vi à beira da depressão, pois o que tinha começado a construir como um sonho desmoronou.

Foi então que naquele mesmo ano fui convidado para lecionar em um colégio e dali em diante as coisas fluíram. No mesmo ano, juntamente com um grupo de professores, fui homenageado como um dos professores destaque e nas palavras de um aluno, “nunca deixe apagar a luz que você tem em ensinar, professor”. Foi então que, com esses pequenos momentos, fui me construindo como professor.

Na construção da vida como professor, gosto de pensar que o meu como professor é construído e reconstruído com esses momentos. Claro que sempre aparece alguém nos dizendo que “um dia isso muda”, “quero ver daqui dez anos” ou mesmo “você mudou”.

Bem, acredito sim que tenha mudado, mas quem não muda? Afinal, lá se vão seis anos de construção e reconstrução e todos eles foram marcados com pequenos momentos que ainda me fazem querer ser diferente onde muito são iguais…

E sim, ainda uso havaianas…

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