Das fitas cassetes

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Recordo-me dos tempos da fitas cassete. Ao contrário dos vinis, não conheço ninguém com saudade das fitas cassetes. Mas tenho carinho especial por algumas: guardo comigo, por exemplo, “Os Grandes Sucessos de Raul Seixas”, álbum dos mais marcantes na minha vida. Obrigado, meu pai, por me apresentar esse mestre baiano. Todo mundo tem o seu museu: essa fita do Raul Seixas é um item raro do meu acervo.

Naquele tempo eu ainda não tinha conhecimento nem maturidade para compreender todas as letras reunidas no álbum, e assim mesmo as achava geniais – e o passar dos anos não retirou de mim essa impressão, ao contrário do que ocorreu com alguns gostos que para mim foram efêmeros. No final de uma bateria de provas no colégio e mergulhando de cabeça nas férias, peguei trechos da “Loteria da Babilônia” para fazer parte da minha trilha sonora de moleque.

O trecho principal: “Vai! Vai! Vai! / E grita ao mundo / Que você está certo / Você aprendeu tudo / Enquanto estava mudo / Agora é necessário / Gritar e cantar Rock / E demonstrar o teorema da vida”. Tinha que pular o trecho seguinte porque o meu Xadrez era (ainda é) canhestro: não tinha e não tenho habilidade para demonstrar “os macetes do Xadrez / do Xadrez!”.

Outra fita fundamental era uma de Elis Regina que meu pai também botava sempre no carro. Obrigado, meu pai, por descortinar para mim mais este espetáculo. Com Elis aprendi o conceito de compositor e de intérprete. Elis não fazia cover: parece que quase todas as músicas que interpretava passavam a ser unicamente dela. A música que todo e qualquer compositor já fez ninguém cantou igual Elis, nem Maria Rita. Elis não precisava compor. Elis só precisava cantar.

“Velha roupa colorida” era uma das minhas faixas preferidas. “Essa também é do Belchior, filho”, doutrinava meu pai. E depois arrematava: “Outra dele é a ‘Como nossos pais’”, também na minha lista de predileção. Obrigado, meu pai, por me apresentar o rapaz latino-americano. Minha felicidade é perceber que, apesar de termos feito tudo o que fizemos, ainda gostamos praticamente das mesmas bandas, dos mesmos cantores, dos mesmos intérpretes, dos mesmos compositores.

“The Wall” era o VHS que meu pai sempre colocava na sala. “Comfortably Numb” ainda é uma das que mais me arrepia. A cena do personagem com as sobrancelhas arrancadas nunca me saiu da memória. Obrigado, meu pai, por me apresentar Pink Floyd, Deep Purple, Creedence, Black Sabbath, Led Zeppelin, Rolling Stones, e por me dar o prazer de ter você comigo no show do Roger Waters em São Paulo, da turnê daquele muro indestrutível. Quanta lembrança!

Mas não quero fugir do terreno da música brasileira. Nessa parte, os trechos da música “Paratodos” de Chico Buarque dizem bastante sobre as minhas referências musicais: “Contra fel, moléstia, crime / Use Dorival Caymmi / Vá de Jackson do Pandeiro”, “Fume Ari, cheire Vinícius / Beba Nelson Cavaquinho”, “Contra a solidão agreste / Luiz Gonzaga é tiro certo / Pixinguinha é inconteste / Tome Noel, Cartola, Orestes / Caetano e João Gilberto / Viva Erasmo, Ben, Roberto / Gil e Hermeto, palmas para / Todos os instrumentistas / Salve Edu, Bituca, Nara / Gal, Bethania, Rita, Clara / Evoé, jovens à vista”.

Agora chega. Ainda tem muita gente boa de fora desse meu repertório.

Como não sou músico, digo que a minha maior influência musical foi meu pai. E se eu fosse músico provavelmente eu diria que as minhas maiores influências musicais foram os gênios que o meu pai me apresentou. Obrigado, meu pai, “meu querido, meu velho, meu amigo”.

No presente a mente e o corpo são diferentes, mas o passado musical é uma roupa que ainda nos serve. O passado que a gente ama é uma referência para o novo que sempre vem. Podemos crer, ilustre companheiro.