24/nov/2017 por

Consciência Negra

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Ser negro é sê-lo em qualquer lugar do mundo, até mesmo em África. Essa afirmação pode num primeiro momento parecer um tanto simples, não àqueles que têm consciência negra. Não me refiro aqui sobre o saber-se negro, mas sim sobre o ser identificado como negro.

No que diz respeito à identidade assumida pelos diferentes sujeitos, é interessante pensar que algumas percepções a exemplo das que envolvem a origem nacional, condições econômicas, identidade de gênero, opção religiosa e orientação ideológica exigem certa reflexão por parte daqueles que desejam reconhecer alguma das variáveis citadas, num indivíduo outro. Ora, lembremos que as vestes podem facilmente escamotear ou revelar o sujeito portador de qualquer uma das variáveis identitárias anteriormente mencionadas. Pode assim o individuo em “julgamento” permanecer no anonimato em determinados momentos da vida social.

Por outro lado, o negro é uma veste inequívoca e universal, não há roupas ou condições socioeconômicas e culturais que possam ocultá-lo. Sobre o ser homem, mulher e mesmo na não assunção binária destas categorias está a pele negra. Sobre muçulmanos, católicos, umbandistas, candomblecistas e tantas outras religiões para as quais seus respectivos adeptos são tidos como irmãos, há a pele negra que os distingue. Na pobreza que assola número cada vez maior de pessoas no contexto nacional e mundial, a pele negra é o manto que nos permite melhor visibilizar essa massa. Também entre os mais abastados a pele negra acaba por prevalecer em detrimento das condições socioeconômicas. Estar sob a pele negra é sinônimo de ser primeiramente reconhecido enquanto negro, só após a inexorabilidade desse primeiro momento de identificação outras identidades podem vir a surgir.

A estada em distintos países da América, Europa e África me permitiram a percepção de que ser negro no Brasil não é a mesma coisa que sê-lo nos Estados Unidos, Cabo Verde ou Holanda. Para além desse diagnóstico é interessante notar que, mesmo em distintas regiões no âmbito nacional, ser portador de elementos negros sofre tratamento desigual. Díspares no modo como percebem a pele negra e como se socializam com os portadores dessa, fato é que ser negro em qualquer parte do mundo ocidental, bem como em muitas partes do mundo oriental, tem se mostrado como sinônimo de ser reconhecido como um cidadão de segunda classe cuja vida e ponto de vista são menos relevantes. Afirmação dura, corroborada não somente por minhas experiências pessoais, mas também por colegas negros que tiveram a possibilidade de vivenciar essa realidade em outros países, bem como pela leitura de estudiosos que há muito têm se debruçado sobre a temática da questão racial (Fanon[1], 2008; Gilroy, 2007)[2].

Denomino aqui como consciência negra o ato reflexivo e de prática social no qual alguns hábitos cotidianamente vivenciados passam a ser revisitados e criticados, abrindo-se assim a possibilidade para que nossas visões naturalizadas de desigualdades raciais possam ser alteradas. Deste modo, ter consciência negra não é algo que cabe apenas aos povos negros oprimidos em diferentes regiões do globo. Portadores da veste negra, as populações afros-descentes têm sim que ser a primeira a tê-la, para que possam se resguardar, minimamente, de algumas das armadilhas do racismo. Não obstante, a consciência em questão deve ser objeto desejo de todos aqueles que levantam a bandeira da igualdade e que lutam por uma sociedade mais justa e democrática, mesmo em tempos temerosos como o que vivemos.

[1] FANON, Frantz, Pele negra, máscaras brancas. Bahia: Editora Edufba, 2008.

[2] GILROY, Paul. Observância Racial, Nacionalismo e Humanismo. In: Entre Campos: Nações, Culturas e o Fascínio da Raça. São Paulo: Anablume, 2007.

Imagem: Margaret Taylor Burroughs

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