15/dez/2015 por

Conferência de elevador (COP-21 Paris)

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Chego apressado em meu prédio. O portão de entrada se abre antes de eu tocar o interfone. Passo rapidamente pela portaria e aceno com a cabeça para o Seu Laércio – o típico porteiro: bigodudo, conversador e que tem um segundo emprego – que no momento está conversando com a síndica, Dona Maria Elisa, do 1102 – Tenta se fazer de jovem, mas é bem quadrada e só é síndica para não pagar o condomínio – sobre os afazeres e discussões usuais do prédio. Chamo o elevador e o espero por alguns segundos, pois o mesmo se encontrava na garagem.

O elevador chega. A porta se abre e lá já estão Dona Astride, do 904 – a mãezona da república Quebradeiros em que eu morava com mais 3 amigos – com o seu cachorro, Doc – um poodle epilético que odiava ser encarado – e Seu Arnaldo, do 504 – gente boa, mas vingativo. Por pequenas desavenças chegava a passar cocô de cachorro em sua porta – com o seu chapeuzinho levemente caído para o lado esquerdo e com o jornal A Folha de Londrina de baixo do braço já aberto na página de esportes.

Entro. Cumprimento Dona Astride e Seu Arnaldo. O Doc não, porque ele rosna e morde quem o encara. Aperto o 4º andar, pois moro no 602. Estranho, né?! 4º andar e número 602. Fica mais estranho ainda se olhar o prédio de fora e observar que na verdade estamos no 8º andar. O Edifício divide o espaço com 4 andares de escritórios, situados entre a nossa portaria e o 1º andar. Nunca entendi a lógica da numeração dos apartamentos de lá.

A porta do elevador se fecha. O silêncio toma conta daquele ambiente inóspito, intimidador, superficial e um tanto quanto claustrofóbico.

O silêncio é quebrado rapidamente quando o Doc percebeu que eu o encarava pelo reflexo da porta do elevador. Dona Astride dá um pequeno cutucão nele, que para imediatamente.

O silêncio é quebrado mais uma vez, mas agora pelo Seu
Arnaldo, que manda a típica conversa de elevador.

Seu Arnaldo – Calor, né?!
Eu – Nem fale.
Dona Astride – Mas, acho que vai chover.
Doc – Rrrrrrrr.
Seu Arnaldo – O clima anda meio estranho ultimamente, parece que faz todas as estações do ano em um só dia.
Dona Astride – Pois é, tem que sair com blusa comprida e guarda-chuva, mas no final do dia você está carregando os dois por causa do calor.

O elevador chega no 3º andar e a porta se abre. Seu Arnaldo sai e nos dá tchau. A porta se fecha rapidamente.

Chegamos ao 4º andar. A porta se abre novamente e seguro o elevador. Antes de dar tchau para Dona Astride eu pergunto:

Dona Astride, você poderia nos emprestar aquela panela grande que já nos emprestou outras vezes? Vamos fazer uma feijoada para alguns amigos e não temos uma panela grande.

Dona Astride – Claro, Pedro. Passa lá em casa agora de tarde.

Um grito distante interrompe a nossa rápida conversa: SOLTA O ELEVADOR, PORRA.

Nos despedimos. Solto a porta do elevador e ouço uma música dos Beatles vindo do meu apartamento. Provavelmente já era alguma reunião dos amigos que se alegravam com a sexta-feira, sempre tão esperada. Entro na República e me junto à confraternização.

Fim da história.

Agora você me pergunta. O que a COP-21 (Conferência das Partes da Convenção Quadro da ONU) tem a ver com essa história?

Pra mim tudo. As COPs que aconteceram até hoje sempre são superficiais, nunca existe um acordo ideal e quando há, como o protocolo de Kyoto, não é levado a sério pelas principais nações. Sabemos que o clima está mudando, mas não fazemos quase nada para reverter isso, desta forma continuaremos saindo de guarda-chuva e casaco e não usaremos nenhum. Todos disputam algo, no elevador são os cantos, já na conferência é a quantidade de emissão de gases, pois no pensamento capitalista, quanto mais eu emito poluentes mais eu estou produzindo, logo, mais dinheiro eu estou fazendo. Ninguém está aí para o outro, mas mesmo assim tentamos ser diplomáticos. Sempre tem alguém querendo levar vantagem sobre os outros ou te dar uma mordida.

Vou exemplificar um pouco melhor. Em Paris, o acordo fechado tem como objetivo de limitar o aquecimento global em até 2ºC, mas com a tentativa em ficar em 1,5ºC até o final do século. Para chegar neste objetivo, um fundo foi criado pelos países ricos para ajudar os países pobres a adotar medidas e ações que reduzam os danos provocados pelas mudanças climáticas. Não existem metas, cada país cria a sua com revisão a cada 5 anos.

Foram 195 países reunidos, durante duas semanas. Nunca havia se visto essa mobilização antes. Entretanto, tivemos um resultado já visto muitas vezes. Um pequeno passo superficial, mas muito comemorado.

A COP-21 acaba sendo muito mais diplomática do que eficiente e prática. Os apertos de mão são mais fortes do que os objetivos ali traçados.

O acordo tem pontos bons, forçando os países a investir principalmente em fontes alternativas de produção de energia.

Isso não quer dizer que a energia produzida com combustíveis fosseis está com os dias contados. O lobby existente por detrás desta indústria é gigantesco. Penso que isso só vai ocorrer quando a última gota de petróleo for extraída e a última jazida de carvão for esgotada.

Se continuarmos a dar pequenos passos nessa questão talvez um dia teremos que dar um grande salto, porém podemos não conseguir chegar ao outro lado. É preciso ser mais duro nesse ponto, mas sempre acaba-se esbarrando na soberania, na má vontade de cada país ou na falta de estudos contundentes

Quero muito estar errado sobre a eficácia desta convenção, de verdade, e que ela se tornará um marco sobre as mudanças climáticas. Temos que lembrar que Kyoto outrora foi muito comemorada, mas a cada dia tem se tornado uma conferência distante.

A ideia neste texto é somente fazer algumas observações.

Obs: A panela da Dona Astride foi entregue limpa após o uso juntamente com um tupperware cheio de feijoada como agradecimento.

Link do Acordo de Paris: http://unfccc.int/resource/docs/2015/cop21/eng/l09.pdf