ATÉ TU, BOLSONARO?

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E o punhal continua a ser instrumento capaz de mudar os rumos da História.

Mais célebre do que o assassinato de Pinheiro Machado é a lembrança da morte de Júlio César. Apunhalado em pleno Senado, o imperador teria dito a um dos seus algozes: “até tu, Brutos, meu filho?”

A expressão tão conhecida, reflexo de uma traição, é homenageada no Direito Civil com a ideia do “tu quoque”, derivado da frase “Tu quoque, Brutus, fili mi?”

Segundo o tu quoque, num contrato, uma parte não pode surpreender a outra com um comportamento incoerente com o próprio costume, rompendo com a confiança que dela se espera. Assim, nenhum contratante pode exigir o cumprimento da obrigação do outro se não cumprir a sua.

O lamentável episódio recente me fez lembrar de tudo isso.

A vítima do atentado é conhecida por semear o ódio, apunhalar diariamente a Democracia e, ao mesmo tempo, valer-se dela para conquistar o eleitorado, grande parte caído na gigantesca onda de fake news promovida pelo candidato.

Essa vítima assumiu e aconselhou em rede nacional que sonega “tudo que for possível”, homenageou notório torturador em pleno Congresso Nacional, disse que mais gente deveria ter morrido durante a Ditadura Militar, que só não estuprava uma mulher porque ela “não merecia”, defendeu que FHC deveria ter sido fuzilado, subiu em palanque e falou em “fuzilar a petralhada” do Acre, silenciou-se sobre a execução de Marielle e Anderson, e por aí vai…

Pela lógica do tu quoque, essa vítima não poderia exigir tratamento oposto ao que reiteradamente emprega em seus discursos e atitudes de homem público, posto representar o inimigo, o avesso dos direitos humanos.

Mas o raciocínio do “pessoal dos direitos humanos” é outro: todo ser humano tem direito à vida, à liberdade e à segurança pessoal (art. 3 da Declaração Universal dos Direitos Humanos).

Até tu, Bolsonaro.