25/jan/2018 por

As mulheres que criaram a ciência da computação

Margaret Hamilton e a Apollo 11

Como o Steve Jobs lembrou em um famoso comercial, a computação é a eterna área dos dos desajustados, dos párias, dos rebeldes, dos nerds e geeks. De pessoas que, por um motivo ou outro, não se encaixavam exatamente na sociedade de sua época.

O nosso patrono, por exemplo, foi Alan Turing, que simultaneamente criou a Ciência da Computação Teórica enquanto derrotava os nazistas na Segunda Guerra. Ele era gay em uma época em que era proibido ser gay no Reino Unido. Após tratamentos hormonais humilhantes impostos pelo governo, ele se suicidou mordendo uma maçã envenenada, em uma alusão à Branca de Neve.

Lendo uma matéria no The Guardian, que diz que as mulheres programadoras, para terem seus códigos aprovados, precisam esconder seu gênero, ou correm risco de não serem levadas a sério, eu me lembrei de três mulheres que são uma espécie de heroínas pessoais pra mim, e deveriam ser para qualquer um que trabalha com ou usa um computador pessoal.

Ada Lovelace, a pioneira da computação e primeira programadora do mundo.

Ada Lovelace, a pioneira da computação e primeira programadora do mundo.

Ada Lovelace, a primeira programadora no primeiro computador, a Máquina Analítica de Babbage, em 1840, um revolucionário monstro mecânico (não elétrico), que fazia cálculos com engrenagens e polias. Filha do poeta Lorde Byron, foi proibida pela sua mãe de ser uma poeta. Aos 30 anos, Ada escreveu para ela: “Você me tomou a poesia; eu, portanto, criarei a ciência poética”. Seus conhecimentos matemáticos eram envoltos em imaginação e descritos com metáforas. Ela se considerava uma analista e uma metafísica. Ela criou o primeiro algoritmo, foi a primeira a entender o verdadeiro potencial de uma máquina computacional.

Grace Hopper segurando as especificações do Cobol, ao lado do UNIVAC

Grace Hopper segurando as especificações do Cobol, ao lado do UNIVAC

Grace Hopper, a Amazing Grace, ou “Fantástica Graça”, um trocadilho com seu nome e com um hino famoso nos Estados Unidos. Ela programou o primeiro computador eletrônico, outro monstro que ocupava uma sala inteira. Ela também criou o primeiro compilador, que permitiu que qualquer pessoa escrevesse programas em inglês, ao invés de perfurar cartões na críptica linguagem de máquina. A linguagem criada a partir de suas teorias, Cobol, esteve presente em praticamente 100% de todos os sistemas financeiros do mundo. Ela trabalhou até os 79 anos, na Marinha Americana, onde alcançou o posto de Contra-Almirante. Foi aposentada e chamada de volta para a ativa diversas vezes, porque não havia ninguém melhor do que ela. E talvez nunca haja. Ela é considerada a maior de todos os geeks.

Margaret Hamilton e as especificações do código da Apollo 11

Margaret Hamilton e as especificações da Apollo 11

Margaret Hamilton, salvadora da Apollo 11, a mulher que nos levou para outros mundos, e que nos trouxe de volta em segurança. Ela cunhou o termo “Engenharia de Software”, e quando a Apollo 11, após voltar da viagem para a Lua, estava com diversas adversidades na reentrada da Terra, que iriam fritar os astronautas dentro da cápsula, foi o seu código que resolveu automaticamente o problema. Ela não apenas programou, mas criou os conceitos e a metodologia, a arquitetura e a modelagem das Apollos. Seu legado ainda hoje é seguido em qualquer missão espacial.

Todas elas foram pioneiras, todas elas foram responsáveis por elevar o conhecimento humano. Elas revolucionaram seu campo de atuação – quando não o criaram completamente do zero – ao mesmo tempo em que lutavam contra o preconceito numa área dominada por homens, onde precisam fazer o dobro do esforço pra ter a metade do reconhecimento. A mesma matéria do The Guardian que diz que as mulheres precisam esconder seu gênero também diz que seus códigos são universalmente considerados melhores quando quem analisa não sabe que foi feito por uma mulher.

Há muitas outras grandes cientistas da computação, é claro. Mas é triste notar que, para cada uma dessas brilhantes mulheres, incontáveis mais poderiam ter triunfado, mas foram deixadas para trás pelo pelo preconceito, pelo condicionamento social; carreiras inteiras que foram abandonadas porque fizeram-nas acreditar que elas não poderiam conseguir; pior, que não deveriam conseguir. E ainda hoje, isso continua acontecendo. O mundo fica um pouco mais escuro toda vez que uma chama é apagada.

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Quando Grace Hopper faleceu, em 1992, ela foi a segunda mulher a ser homenageada com um navio de guerra, o USS Hopper. O lema do Destroyer que carrega o nome dessa pioneira de uma nova ciência é uma inspiração para todas as mulheres, em todos os campos, em todas as épocas:

AUDE ET EFFICE – OUSE E FAÇA.

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