15/dez/2015 por

Agora o rio doce amanhece amargo

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Amargo das vidas ali perdidas, das famílias desamparadas e de casas destruídas.

Amargo das toneladas de barro que concretam o seu leito e matam os seus peixes.

Amargo das cenas de caos agora ali presentes.

Amanhece amargo do erro de falar que aquilo foi uma fatalidade.

Não existe erro, acidente ou fatalidade quando a estupidez humana deixa a morte rondar as pessoas de perto cheirando a minério de ferro.

A morte negligente veio vestida de terno preto, sapatos muito bem engraxados e gravata furta cor. O barro? Eles só veem pelos jornais. O lamento? Eles só escutam pela TV. Mas a ignorância e a indiferença os acompanham todos os dias rumo ao capital sem limites.

Infelizmente esse homem de gravata não é o da música “O Homem da Gravata Florida”, de Jorge Bem, que sempre é esperado e bem chegado, é adorado em qualquer lugar e por onde ele passa nascem flores e amores.

Quantos anos serão necessários para aquele rio voltar a adocicar a vida dos moradores e colorir a região com o verde das matas, o azul de suas águas, o multicolorido de sua fauna e flora e com o branco do sorriso dos moradores?

Quanto tempo será necessário para se desfazer desses tons escuros que agora pintam o seu entorno com marrom da lama, vermelho dos bombeiros e com o preto do luto de muitas famílias?

Se fosse uma companhia estatal, nossas redes sociais estariam inundadas com um mar de lama com opiniões superficiais, pronunciamentos fúteis e palavras de ódio sem limites. Mas não é, o que nos faz esperar quietos as cenas dos próximos capítulos, que não é nem novela, muito menos mexicana. É a realidade e bem próxima a nós.

Já que não é possível dar um abraço de conforto a todos os atingidos, principalmente aos moradores de Mariana (MG), ficam aqui os meus mais sinceros pêsames.

Por Pedro Carpigiani

Imagem: Ricardo Moraes/ Reuters