11/abr/2017 por

A linha vermelha desenhada nas areias da Síria

Ocaso da Primavera Árabe na Síria

A revolução síria começou com sonhos de democracia e progresso, mas hoje é um pesadelo de despotismo e extremismo. Quando tropas sírias começaram a atirar nos revoltosos pró-democracia em Damasco, no início de 2011, durante a chamada “Primavera Árabe”, ficou claro que a revolução não se daria sem que sangue fosse derramado.

Os sírios pegaram em armas, reagindo à violência do ditador Bashar al-Assad, e hoje o país decaiu em uma guerra civil que envolve os países ocidentais da OTAN, a Turquia, Arábia Saudita, os estados do Golfo Pérsico, a Rússia, Irã, e incontáveis milícias e grupos rebeldes.

Os erros dos Estados Unidos remontam desde a época em que Obama se recusou a ajudar os moderados, e sob seu governo, a Síria foi devastada, se tornou um estado falido.

Agora, enquanto Donald Trump entra no campo de batalha, a História, como sempre, vem cobrar suas dívidas e lições não aprendidas.

Facções Divididas em União

No início da guerra civil, em 2012, um conjunto de facções com diferentes (e muitas vezes  incompatíveis) pontos de vista se uniram sob uma coalizão chamada de Exército Livre da Síria (ELS).

A maioria desses grupos eram secularistas moderados que queriam um governo democrático. Os grupos rebeldes unidos iam desde esquerdistas a apoiadores fervoroso de uma economia de livre-mercado, desde islamistas moderados, que queriam reformas democráticas pontuais, à extremistas, que favoreciam um governo regido pelo Islã fundamentalista e pela sharia, a lei islâmica.

Seu único ponto em comum era que Assad precisava cair.

Aos trancos e barrancos, essa coalizão desunida e heterogênea começou a se tornar um perigo real para o regime sírio.

Assad, incapaz de derrotá-los sozinho, uma vez que seus próprios militares começaram a desertar para se juntar aos rebeldes, pediu ajuda ao seu aliado próximo, o Irã.

Teerã trouxe tropas e milícias do Iraque e do Líbano, incluindo o Hezbollah, grupo paramilitar xiita, para se juntar ao exército sírio e manter Assad no poder.

Não fosse pela intervenção iraniana, Assad provavelmente teria tido o mesmo destino de Gaddafi, ditador da Líbia, e Mubarak, ditador do Egito. O primeiro foi morto selvagemente, e o segundo foi capturado e preso durante as primeiras convulsões da Primavera Árabe.

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Membros do Exército Livre da Síria. Foto: Reuters

A Linha Vermelha de Obama

Durante a guerra, os Estados Unidos condenavam expressamente o bombardeio de regiões civis pelo regime sírio, e exigiam que Assad renunciasse. O ELS entendeu que isso era um sinal claro de apoio, e com isso, tiveram esperanças de que poderiam contar com o peso do exército americano para ajudar a esmagar o governo de Assad.

No entanto, apesar de enviar ajuda humanitária, os Estados Unidos se recusaram a enviar armas, e o ELS começou a perder terreno para as milícias iranianas e para os tanques e aviões do regime.

Após um ataque a Latakia, no noroeste da Síria, os rebeldes tomaram a província onde Assad nasceu. O ditador decidiu, num arroubo de fúria, em agosto de 2013, lançar um ataque com armas químicas nas cercanias de Damasco, em Ghouta. Cerca de 1.400 pessoas foram mortas.

Um ano antes do ataque, Obama havia dito, com a firmeza de Comandante em Chefe do maior poderio militar da Terra, que havia uma “linha vermelha”, a qual Assad jamais poderia cruzar, ou enfrentaria intervenção americana direta. A linha vermelha era o uso de armas químicas.

Obama define a “linha vermelha”. Foto: IBTimes

Obama define a “linha vermelha”. Foto: IBTimes

A Hesitação do Império

Os rebeldes, certos de que a ajuda ocidental viria na forma de ataques aéreos ao regime, começaram a se agrupar para um ataque massivo.

Então, no dia 31 de agosto, o império hesitou; Obama veio a público dizer que iria submeter a possibilidade de um ataque aéreo à aprovação do congresso, um processo que geralmente leva meses para ser concluído. Jatos franceses que estavam à postos para participar do ataque receberam ordens para permanecer no solo. O silêncio da OTAN foi o golpe final. Os rebeldes estavam por conta própria. E a Rússia declarou apoio à Assad.

A linha vermelha fora desenhada na areia; ao primeiro vento ela se dissipou.

No início de setembro, a administração Obama, tentando diminuir a percepção de fraqueza diante do mundo, anunciou triunfante um acordo com os russos. O Kremlin, disseram eles, iria assumir o controle das armas químicas de Assad. Isso garantiria que elas jamais seriam usadas novamente no conflito. 

A Chegada do Estado Islâmico e a Queda do ELS

A hesitação de Obama em ajudar os grupos rebeldes foi um golpe mais duro do que o próprio uso de armas químicas pelo regime. Com suas tropas agrupadas esperando um suporte que nunca veio, o ELS se tornou um alvo fácil para um contra-golpe de Assad. Num ataque conjunto, os sírios e os russos assolaram as posições do ELS. O Exército Livre nunca mais se recuperou. Os grupos seculares pró-democracia foram os principais atingidos, e elementos mais radicais, como o Estado Islâmico e a Al Qaeda, se aproveitaram da situação para expandir sua influência.

Além disso, o governo sírio começou a soltar centenas de presos políticos extremistas, que se espalharam entre os rebeldes, e acentuaram o processo de radicalização.

Foi por volta dessa época, no final de 2013, que esses grupos radicais se desvincularam do ELS, declarando guerra contra ele em seguida. O Estado Islâmico iniciou uma investida que acabou por tomar grandes áreas de Aleppo, a maior cidade síria, instaurando seu regime de horror.

O EI, cujas atrocidades o tornaram inimigos até mesmo da Al Qaeda, começou a se expandir de maneira irresistível, invadindo o norte do Iraque, o que culminou com a queda de Mosul, a segunda maior cidade do Iraque, no meio de 2014. Eles tinham o domínio de vastas porções de território ricos em poços de petróleo.

O Estado Islâmico chega à Aleppo. Foto: AP Images

O Estado Islâmico chega à Aleppo. Foto: AP Images

O EI, de orientação extremista sunita, promoveu a morte e exílio contra a população xiita, e um verdadeiro genocídio contra o povo Yazidi, seguidores do iazidismo, uma religião que o EI considera satânica. A pressão internacional por conta do genocídio fez com que finalmente os Estados Unidos lançassem um ataque aéreo, limitado, no entanto, a atingir apenas o Estado Islâmico (e não Assad). 

Por mais terrível que tivessem sido os crimes do Estado Islâmico até esse ponto, muitos mais civis morreram nas mãos de Assad, dos russos e iranianos. Sob o ponto de vista dos rebeldes, o maior perigo continuava sendo Assad, e não o Estado Islâmico.

Complicando ainda mais o imbróglio, países como Qatar e Arábia Saudita, países de orientação sunitas, inimigos históricos do Irã xiita e de Assad, começaram a financiar os grupos extremistas sunitas, e como resultado, muitos sírios moderados abandonaram a bandeira do ELS e começaram também a lutar pelos extremistas. Nesse ponto, sequer era uma questão de ideologia, mas sim de sobrevivência; encurralados entre o regime, os russos, os iranianos e a falta de apoio ocidental, muitos rebeldes viam como única opção se radicalizar.

Damasco e Moscou logo se aproveitaram disso para retratar sua guerra como uma cruzada contra o terrorismo.

De fato, eles atacaram posições do Estado Islâmico, mas o grosso de seus ataques era reservado para os rebeldes (que o regime passou a caracterizar como extremistas, mesmo quando se tratava dos moderados).

Aleppo e a Crise Humanitária

O Estado Islâmico, para consolidar seu domínio, assassinou, mutilou e escravizou milhões de civis. O mundo engoliu em seco ao testemunhar a crueldade com que orquestravam seu massacre. Sua própria ascensão era uma prova do fracasso da Guerra ao Terror iniciado pela administração Bush, quase duas décadas atrás.

No entanto, Aleppo nunca esteve sob domínio exclusivo do EI. Muitas áreas eram controladas por outros grupos rebeldes, que se opunham ao EI. E, sendo a maior cidade síria, possuía uma imensa população civil e inocente. Os ataques aéreos russos e do ocidente não apenas não faziam distinção, como pareciam focar deliberadamente em áreas médicas, civis, e de organizações de ajuda humanitária, enquanto retratavam os alvos como sendo jihadistas radicais. E qualquer ataque aéreo sobre uma área civil densamente povoada terá inevitavelmente muitas baixas civis.

Muito do ataque real ao EI em Aleppo se dava pela recém-formada Força Democrática Síria, a FDS, uma nova coalizão formada por peshmergas curdos e pelo que restou do ELS. Essa nova coalizão fez uma trégua com as forças do regime, para poder focar-se contra o EI.

Em dezembro de 2016, no entanto, tropas sírias e russas quebraram a trégua com a FDS, esmagaram a oposição rebelde e o EI em Aleppo, e Assad declarou uma vitória histórica. Ele havia quebrado a resistência, expulsado os extremistas do EI, e solidificado sua posição no poder, deixando milhares de civis mortos pelo caminho.

Sua conquista foi, no entanto, uma vitória pírrica.

Aleppo Devastada. Foto: Reuters

Aleppo Devastada. Foto: Reuters

Ao fim da retomada de Aleppo, a Síria estava – como permanece até hoje – com sua infraestrutura devastada, sua economia destruída, e muitos de seus locais de patrimônio cultural saqueados. Assad é diretamente responsável por isso, ao responder à uma revolução pacífica com um poder de fogo que levou à queima do país inteiro.

Milhares de sírios morreram, milhões se tornaram refugiados, e faz 6 anos que toda criança síria nasce em um país devastado pela guerra.

É possível que se o Obama tivesse intervido na guerra em 2013, a Síria seria um país diferente. No entanto, a História também lembra todos os outros casos de intervenção ocidental no Oriente Médio que resultaram em estados falidos, como a Líbia, ou em novas ditaduras militares, como o Egito.

Porém, o fato é que é indefensável o governo Obama ter passado por todo o início da revolução apoiando verbalmente os ativistas e rebeldes sírios e condenando o regime – um regime que havia acabado de cruzar uma linha que ele próprio havia criado – e então fracassado em transformar esse apoio verbal em algo concreto, deixando toda a revolução síria sozinha contra o poder avassalador do regime e seus aliados.

A Incógnita Trump

Com a saída de Obama e a chegada de Trump, tudo indicava que o status-quo iria se manter. Com laços muito próximos de Putin, Trump constantemente dizia que a guerra na Síria não era seu problema imediato, mas sim o Estado Islâmico, mesma posição que Obama havia tomado. Não apenas isso, mas Trump também chamou os refugiados sírios – que estavam fugindo tanto de Assad quanto do Estado Islâmico – de terroristas disfarçados, barrando sua entrada na América, e prometendo expulsar os que já estavam em solo americano.

Até que em abril de 2017, um novo ataque químico supostamente ordenado pelo regime parece ter iniciado uma mudança nessa doutrina. Trump contra-atacou, lançando a partir de seus navios de guerra 59 mísseis destinados à uma base militar síria.

Trump responde ao ataque químico de Assad. Foto: Getty Images

Trump responde ao suposto ataque químico de Assad. Foto: Getty Images

O ataque, embora espetacular em exibição, tem o propósito não de causar dano real ao exército sírio, mas sim de ser uma ofensiva meramente punitiva, e tampouco é uma declaração de guerra, nem provavelmente se tornará uma – é um aviso de que a linha vermelha talvez não possa ser cruzada.

Suas reais motivações, porém, permanecem dúbias. Após o ataque, a mídia americana se pergunta sobre a “reação do Kremlin”, sobre “as tensões entre Rússia e EUA”. Os jornais deixaram, ao menos momentaneamente, de lado as manchetes que relatavam as relações mais que amistosas entre Putin e Trump. E sua popularidade, em queda desde o início da sua gestão, começa a subir; nada une mais o povo americano do que uma boa guerra.

E quem pode dizer as consequências que a intervenção de Trump, cujas posições mudam repentinamente e sem aviso, que possui uma visão simplista do mundo, podem trazer em uma guerra marcada pela enorme complexidade de seus atores?

No dia seguinte, o Kremlin condenou o ataque como uma violação à um país soberano; a China o percebeu como uma mensagem direta para ela e para a Coréia do Norte; A Turquia, aliada dos Estados Unidos, realizou exercícios militares conjuntos com os russos; e Assad afirmou que essa “agressão arrogante” aumentava sua determinação em terminar de esmagar os grupos rebeldes.

E talvez seja tarde demais para o povo sírio; ninguém mais poderá aliviar os estertores finais de uma revolução fracassada, que começou com estudantes moderados clamando por ventos democráticos, e acabou por devastar um país, gerar a organização terrorista com o maior controle de terras e petróleo do mundo, radicalizar toda uma geração de jovens, e que, agora mais do que antes, ainda parece longe de chegar ao fim.