19/jan/2018 por

A história de uma velha senhora

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Nas proximidades de uma zona perigosa, sob o chão queimado pelo calor do sol, uma velha senhora coberta de andrajos caminhava como se estivesse cumprindo um castigo. A cabeça da velha era redonda como uma bola de neve, as costas eram representadas por um calombo semelhante a uma rocha, e logo abaixo do tórax apareciam as pernas longas e finas. Seu rosto era de uma beleza estranha; talvez para a maioria, ela fosse uma mulher horrorosa; mas ao observador mais atento, os detalhes mais simples revelavam uma potência absurda que não poderia ser encontrado em nenhuma outra criatura, bem como uma vivacidade espalhada por todas as partes do corpo dessa mulher de cabelos desgrenhados, que, sobretudo em virtude da sua esquisitice, parecia sugerir um novo modelo de beleza. Ela tinha uma história peculiar. Desde sempre, caminhava, em pleno verão, ou no mais terrível inverno, carregando nas costas um punhado de galhos secos. Ia de um lado para o outro, do nascer do dia ao pôr-do-sol, com aqueles galhos pesados nas costas. Era difícil compreender o motivo daquele esforço infinito. Eu mesmo nunca consegui tirar uma conclusão sobre aquilo. Mas, de qualquer maneira, todos os dias, ela fazia o mesmo caminho. Ia e vinha como se fosse Sísifo, e jamais se cansava de ter de andar vários kilometros carregando tanto peso nas costas. Depois do nascimento do seu filho, cujo pai ninguém da cidade chegou a conhecer, tornando-se um mistério entre a vizinhança, as coisas só pioraram. Além de ter de carregar os galhos secos, agora ela tinha que levar o menino consigo, de alguma forma. Logo após o parto, nos primeiros dias, ela mal podia se movimentar. Depois de algumas semanas, ela voltou a fazer seu percurso, mas tinha que dar várias pausas durante a caminhada. Havia muitos motivos para essas pausas, como, por exemplo, o dever de alimentar o bebezinho, que demorava cerca de meia hora para chupar todo o leite do peito da mãe. Mas, como todas as crianças, esse bebê foi crescendo, até se transformar em uma criança capaz de andar, falar, correr, etc. E assim, aos poucos, foi aprendendo o ofício da genitora. Com pouca idade, já carregava suas próprias madeiras, em uma mochilinha tão pequena quanto ele. Digamos que, por aquisição de hábito, ou por imitação, ele levava os galhos para cima e para baixo, como sua mãe, mesmo sem entender o porquê daquilo. Ele só fazia ‘o que tinha que ser feito’, de modo obediente, sem nada contestar. Como essa criança era boazinha! Ele tinha jeito para a coisa. Muito mais engenhoso que a mãe, com aproximadamente quinze anos, já conseguia carregar mais madeira, pois havia construído um sistema, um suporte, uma espécie de carrinho de mão, e assim transportava com imensa facilidade, de um lado para o outro, quase que o dobro do que a mãe conseguia levar depois de décadas de experiência. Só que, chegada à fase adulta, consciente de sua inteligência e ávido de liberdade, o rapagão decidiu ir-se de casa. Alugou uma casa, e foi morar sozinho. A mãe, coitadinha, nunca mais viu o seu bebê. E teve de voltar a carregar, sozinha, os galhos secos. Embora estivesse mais velha, podendo ser considerada idosa, ela sentia que ainda tinha saúde para manter-se, por muito tempo, nesse ofício pesado. Durante alguns anos, ela ainda suportou bem. Mas, no último inverno, a velha adoeceu. Foi obrigada a ficar na cama por mais de um mês, tendo de se contentar em se preocupar apenas em sobreviver, sem poder se mover, quase que completamente imobilizada. Suas pernas não podiam sustentar o peso do corpo, e o máximo que ela conseguia fazer era se levantar para ir ao banheiro, mas logo tinha que voltar imediatamente à cama. Como sofreu a coitadinha. Rezava como uma verdadeira devota, durante horas, mas nenhum milagre aconteceu. Também procurou salvação na ciência, mas os médicos tampouco puderam salvá-la. Certo dia, convencida de que lhe faltava pouco tempo, decidiu ligar para o filho. Por algum motivo, que nem eu sei explicar, ele nunca a atendeu. Na cama, ela chorou noites a fio. Não tinha ninguém para se despedir, ninguém que pudesse lhe segurar a mão na hora derradeira, ninguém para lhe fechar os olhos. Pobrezinha, a morte estava prestes a ceifa-la, e ninguém estava se importando com ela, nem mesmo o seu próprio filho. “Ó, que vida cruel, eu tive que carregar esses malditos galhos a vida toda, ensinei tudo o que eu sabia àquele pestinha, e agora estou aqui, completamente sozinha”, ela se lamentava. Nas últimas horas, seu corpo estava bastante febril, sua mente já alucinava, e o sofrimento parecia que ia cessar somente depois da morte. Nesse momento, ela começou a rezar para morrer logo, pois não podia suportar toda aquela dor. “Ah! Foi para isso que vivi, para morrer desse jeito? Qual o sentido de um destino tão miserável? Tão mesquinho?” Alguns meses depois, o filho recebeu, por uma tia distante, a notícia do falecimento da mãe. Ele chorou durante alguns dias, se sentiu culpado por ter se distanciado, chegou a pensar em visitá-la no cemitério, mas acabou seguindo sua vida, já que ainda tinha muita madeira para carregar.

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