08/nov/2017 por

A Esquerda Abutre

pa

Num tempo não muito remoto, as pautas da esquerda eram bem definidas e, de certa forma, menos efêmeras que as pautas atuais. Eis que, com o surgimento de novas frentes de esquerda e as ramificações de tais frentes, muito do sentido do que é ser de esquerda no Brasil tem se perdido.

Hoje, o que vemos tanto em parte das mídias consideradas de esquerda quanto nas redes sociais por meio de páginas também assim rotuladas são abutres que devoram as vítimas que estão a frete de um holofote raso e que possui seu foco centralizador como algo tão efêmero que chega a ser mais efêmero até mesmo que o desejo de mudança dos manifestantes-CBF.

A exemplo disso, temos Rafaela Silva, Amarildo, Luís Alberto Betonio, Rafael Braga, Kailane Campos, entre diversos outros.

O que eles têm em comum? Todos entraram em voga após sofrerem algum tipo de violência e todos sumiram dos holofotes tão rapidamente quanto surgiram, alguns mais rapidamente que outros. Eles são lembrados eventualmente, eventualidade esta cada vez mais ofuscada por novas vítimas destes abutres.

Como num movimento dos abutres por busca de carcaças a serem devoradas, parte da esquerda insiste em trazer ao olho popular figuras como as mencionadas acima. Após devorá-las midiaticamente até os ossos, ganhar mais seguidores e abandonar a pessoa violentada, seguem para outra carcaça a fim de explorar outra notícia, se indignar novamente e brevemente e demandar de forma rasa por novas pautas.

E, dessa forma, pautas como racismo, homofobia, feminicídio, machismo e outras são tratadas pela esquerda abutre com toda superficialidade ao invés de terem todo o respeito e atenção que demandam, enquanto suas causas, que estão alicerçadas na sociedade de classes, são perpetuadas e cada vez mais engendradas numa sociedade desigual que insiste em prorrogar o enfrentamento da diferença de classes e de seus desdobramentos.

Que tenhamos, em breve, o fim da esquerda abutre que presta um grande serviço à direita. Que tenhamos, em breve, um holofote que perdure sobre as minorias e busque transformações na raiz. Que tenhamos, em breve, o retorno em massa da esquerda que luta contagiosamente e em profundidade contra todas as desigualdades perpetuadas em nossa sociedade ao longo de nossa história. E, por fim, que tenhamos o recuo da esquerda abutre que se alimenta das vítimas de uma sociedade doente e mancha as pautas das lutas populares e das minorias estrutural e cotidianamente violentadas.

Acompanhe as publicações e curta a página d’O Novelo no Facebook aqui