31/jan/2018 por

A criança que está em mim saúda a criança que está em você

 

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Sabe aquele sentimento que te faz seguir adiante? A sensação de que tudo é possível, na qual a palavra não dificilmente é entendida. Sabe aquela força que nos tira da cama?

Certa vez ouvi de um filósofo que a vida que vale a pena ser vivida é a vida realizada, plena e espremida gota a gota. A vida esgotada em si mesma. Vida que não segue cronograma. Vida que tem sua própria lógica, e que muitas vezes lógica alguma segue, vida que não caberia em nenhum manual de ética ou moral.

Que louco isso de viver em sua plenitude, não é? Mas, louco ainda é quem me diz que não é feliz. Não é? Aquele que vive o presente dado sem ter medo do amanhã, esse me parece ser o mais racional.

Outrora, em Spinoza aprendi que potência de vida é o que possuímos de mais belo e caro em vida. Valor que nenhuma moeda pode adquirir. Potência de vida é toda a sua energia, seja ela desprendida ou não. É toda a força motriz utilizada ou não. Os físicos conhecem muito bem a definição. Então, te proponho um exercício, que parecerá simples, talvez nem tanto, pois para algumas pessoas pode até ser doloroso. Em nada me faço jocoso. Contudo, pense naquela criança que um dia você fora, que gostaria de ter sido, ou que gostaria de ser.

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Vou contar-te de minha infância. Precisamente, por ora; contarei de uma fotografia que tenho na mente e guardo no coração. Espero ao final, ao falar da minha recordação, que você, meu estimado leitor, tenha se lembrado da sua infância, e que doces sejam as memórias e que de alegria te encha o coração. Se por ventura a tristeza vier, agarre-a pelo braço. Já és grande e maduro, e tenho certeza que hoje tu és fortaleza. Concorda comigo? Não? Eu sei que nem todas as crianças são felizes, já que vários são os abusos.

Eu gostaria que você focasse na pureza da criança, na inocência. Ingenuidade é meio caminho, é passo largo nesse mundão. E quem foi que disse que o velho Rabugildo sempre fora sabichão?

Eu era uma criança bem alimentada, gordinha mesmo, cheia de saúde, chocolate e pão. Sempre que me recordo de meus primeiros anos, a imagem que tenho viva é a de ter sempre um sorriso com grandes canjicas no rosto e olhos de oceano.

Olhos em que muitos se perdiam, daquelas viagens prazerosas que a mente adora velejar. Cabelos cacheados, ah! Como tenho saudade daqueles anjinhos. As bochechas rosadas, os meus enormes atestados de timidez, até hoje estas me acompanham.

Mesmo sem conseguir andar, nada me segurava. Minha mãe, repetidamente, me conta que eu era terrível. Fazia de suas panelas uma bateria completa, e a alegria ressoava por horas pela casa toda. Não me lembro do dia sofrido, muito embora tenha doído. Ah. Mas esse é tema para outra conversa.

Quero viver a memória, reviver aquela sensação de que tudo é possível, de que o mundo estava posto no meu rosto. Época em que a maldade era coadjuvante, e que mal em meu vocabulário era sinônimo de televisão. Confesso que, atualmente, tal conceito ainda interpreta papéis de segundo escalão.

Tempo esse que hoje se faz presente. Sim. Aos trinta e poucos me torno criança de novo. A alegria de explorar, contemplar, de dialogar palavras e lágrimas, sorrisos e páginas.

Faz poucas luas, no ano não se soma um quarto, que o senhor do tempo, aquele senhor tão bonito, sussurrou: vai Bernardo, acorda, vai ser criança de novo. Preenche esse peito, se banhe no meu sol, se toque, se conheça, se perceba.

Toque-te.

Permita-te ser feliz, e mesmo que por alguns dias eu te recomende a cama, não te prendas em sua mente: só ama.

Sonhe, sonhe alto, pense iluminando. Acredite que você tem um torto, lindo e coxo caminho a caminhar. Não importa que teu corpo em banquinhos precise descansar. Tenha claro em mente que a paciência é a única ciência na qual te quero mestre. E que a teimosia só tem serventia se for para o bem propagar. E por barquinhos poderás viajar. Nos dias de agonia, por intervalos maiores, a brisa do mar te fará companhia.

Te vigiarei com pássaros. Aproveite suas inúmeras crises para contemplar, te enviarei filhotes para que te entretenhas. E quando te faltar o ar, eu quero que se lembre daquele dia na enfermaria, aquele dia que te firmei no chão.  Você não conseguia eliminar do teu corpo e por horas e horas era lixo, sujeira e prisão. Ah meu filho, eu te escutei, e pelo ventre te liberei…

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Eu sei que ali nascemos de novo um para o outro. Como eu tive orgulho de ti. Quando você tomou para ti a tua vida de volta. Ah meu filho, como eu fiquei feliz por ti. Daquele dia em diante o menino voltara a sorrir, voltara a andar, e aquela energia se espalhou por todo o andar. As enfermeiras te contemplaram e com sorrisos no rosto foram te celebrar.

img4Vai Bernardo Carlos, vai ser gauche na vida, vai ser você em toda sua plenitude, em toda sua imperfeição, vai Bernardo fazer de seu entorno alegria, vai Bernardo Carlos ser criança de novo, vai Bernardo Carlos ser moleque, vai ser travesso em cada tropeço. Eu não quero que a tristeza esconda esse sorriso de novo, eu não quero que a vida seja interrompida. Vá meu filho, mostra ao mundo que o amor sempre vence; que com empatia se convence. Vai meu filho, a vida só vale a pena se for vivida. A vida só tem valor se tu entenderes que o grande mistério é e sempre será se manter menino, se manter garoto, aquele sentimento de que tudo é possível. Por que eu sou tudo. Sou o único que permite que tu sejas tu. Eu estou em todo o lugar, eu sou todo lugar, eu sou você. Eu estou nesse caminhar maroto. Sou também a ciranda, a paçoca, o bambolê, o pudim e o rocambole, também sou a muriçoca. Porque, meu filho: eu sou tudo. E a criança que está em mim saúda a criança que está em ti. Tio, vamos viver de brincar? E lá te perco e te acho: entre bolas, tropeços, tombos e saltos, lá vamos serelepes. Todo cheio de mim, de nós. Todo cheio de vida. Todo cheio de tu. Todo cheio. Tudo.

Imagens

foto 1 – Child & Flowers por Chris Parfitt (Attribution 2.0 Generic (CC by 2.0)

foto 2 – Child 013 por Aleksandr Zykov (Attribution – ShareAlike 2.0 Generic (CC by-SA 2.0).

foto 3 – Fathers and Sons, Caps and Water – domínio público.

foto 4 – Fathers and Sons, Caps and Water – domínio público.

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