O Novelo - A controversa hierarquização entre as pautas identitárias e a luta de classes

A controversa hierarquização entre as pautas identitárias e a luta de classes

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Em algum momento da história percebemos e teorizamos que éramos trabalhadores explorados pelo sistema capitalista. Mas homens e mulheres eram explorados da mesma forma? Não.

Em algum momento da história homens e mulheres negras se perguntaram sobre a forma de exploração que viviam. Ela se dava da mesma forma para brancos? Não, principalmente quando pensamos nos países que utilizaram mão de obra escrava oriunda do continente Africano.

Em algum momento da história mulheres perceberam sua condição de segundo sexo, uma identidade sempre definida a partir do que era o homem.  Vendo que isto as afastou da vida pública e do mercado de trabalho precisavam se emancipar. Mulheres negras sempre trabalharam, nem por isso conseguiram se emancipar na sociedade.

Até que ponto conseguimos hierarquizar e teorizar com clareza a dicotomia entre a luta de classes e o que a esquerda tradicional tenta aglutinar no que chamam de “pautas identitárias”?

Sr.Marx dizia muito sobre alienação, capitalismo, mais-valia e explicou muito da exploração que vivemos até hoje. Sr.Marx não deu conta de viver e explicar tudo, mas o materialismo histórico e seu método dialético pode ainda servir de referência para entendermos que as condições materiais de vida não se dão da mesma forma entre homens e mulheres, brancos e negros.

O capitalismo, que se alimenta e se reinventa a partir também de nichos de mercado e alienação, percebe com o tempo que a emancipação de mulheres e negros na sociedade é irreversível e sobretudo rentável. E aí, enquanto a esquerda insiste em pautar a luta de classes apenas em termos econômicos vemos o mercado se apropriar de algumas bandeiras que nos são tão caras na busca de uma sociedade mais igualitária. Filmes com mulheres protagonistas, mercado da moda trazendo a representatividade negra nas passarelas e revistas, camisetas com frases de efeito nas lojas de departamento. Junto disso os “textões” e “memes lacradores” das redes sociais.

  Representatividade importa, mas o lacre não dialoga, não ensina, não é pedagógico não avança e não questiona o sistema e os espaços que ocupamos.

O que infelizmente percebemos é uma cisão entre a esquerda tradicional, que acha que a questão da representatividade está dividindo os movimentos já que pode tirar os privilégios dos homens brancos na militância e mulheres de esquerda em isolamento, pois seus companheiros de luta acreditam que o feminismo é coisa do capitalismo. Não sejamos levianos nem razoáveis.

Ironicamente, nos últimos tempos, o que mais tem despertado a ira dos conservadores e tem exposto o fascismo dormente no Brasil e outros países, fruto da alienação do capitalismo, são justamente as pautas dos movimentos negros e lgbt´s. Basta olhar as últimas polêmicas em torno dos planos municipais da educação e a briga para que a palavra gênero seja tirada de circulação. O caso da execução de Marielle Franco, vereadora mulher, negra, lésbica é o mais representativo de o quanto essas pautas estão incomodando no cerne da opressão. Se a esquerda ainda não percebeu que hierarquizar as lutas e não fazer a leitura correta sobre os movimentos pós-colonialistas, negros, lgbt´s e feminista está fadada a virar um clube do bolinha, de homens brancos que resistem a rever seu lugar de privilégio na história. Ops! Essa não era a direita?

Mulheres de esquerda estão cansadas de discursos políticos de justiça e igualdade quando estas mesmas pessoas estão silenciando suas companheiras, falhando como pais, traindo deliberadamente e mais do que tudo separando o público do privado. É aí que grande parte da militância de esquerda masculina falha, ao se esquecer que o pessoal é político e é justamente esta separação de esferas da vida que por tantos séculos restringiram mulheres apenas aos espaços privados. O excesso de trabalho doméstico, a criação dos filhos e a administração do lar. A profissão, os estudos, a capacitação…que tempo temos de participar da política? Que tempo temos para sermos cientistas, pesquisadoras e ler O capital?

Estamos ou não falando de condições materiais de vida e de um processo histórico e dialético?

É justamente no ponto mais radical da estrutura capitalista, na hierarquia das exclusões que a teoria mais pulsante vem dizer que mulher, raça e classe não são conceitos que devem ser hierarquizados. São interseccionais, são interdependentes. Por isso a importância de ler Angela Davis, bell hooks e outras intelectuais negras que vem transformando os estudos materialistas e a visão dialética de superação da vida e dos conceitos a partir das nossas contradições históricas e materiais.

Dez anos atrás a mesma esquerda dizia que os movimentos ambientalistas eram coisa da burguesia. E assim continua consumindo derivados do petróleo, alimentos transgênicos e cancerígenos e desperdiçando água na espera da revolução. A revolução é agora.

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