20/nov/2017 por

A consciência é negra

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Algum tempo atrás, rolava aí pela internet uma campanha que dizia “Não é sobre vocês” e propunha a discussão acerca do debate étnico-racial no Brasil; nesta campanha, a ideia era dizer que os conceitos, políticas públicas, campanhas, entre outras coisas, não diziam respeito à população branca, logo, não precisaríamos do consentimento destes ou aval para realizar tais ações.

Pois bem, quero debater a “Consciência Negra”, atente-se, a NEGRA.

Não é tão estranho que as pautas de determinados movimentos sejam cooptadas e invertidas por seus contrários, “Ideologia do Gênesis” está aí para provar, termos resposta ao nome que eles mesmos colocaram no movimento que combatiam. Quer inversão maior e mais desnecessária?

A discussão que venho fazer neste espaço é a seguinte:

O dia da Consciência Negra vem sendo cooptado em seu sentido e prática. O intuito da criação deste dia jamais foi homenagear a população negra. Pelo contrário, nunca se pediu homenagem. O motivo real é o despertar da consciência da população negra, em resumo, as práticas escolares, as homenagens públicas e as placas de rua são uma parte importante, mas não é sobre isso que se trata, não é a finalidade e não faz nem cócegas perto da real intenção proposta.

Debater conscientização me causa certo arrepio na espinha, e sempre me questionei: se a consciência é fruto do processo de desenvolvimento da consciência de si, como conscientizar alguém? Colocar em alguém “consciência” seria impossível e/ou contraditório, uma vez que é um processo individual e gradual, nunca instantâneo e menos ainda implantado.

Neste momento, aquele grupo que adora distorcer as coisas para dar aval aos seus pensamentos começa a me agradecer acreditando que, justamente por isso, não haveria de ter dia da consciência negra, tolos.

Esta data serve para que criemos mecanismos que possibilitem à população negra entender o processo histórico brasileiro e seus desdobramentos na realidade atual, conhecer a história do Brasil e, em especial, a história da população negra nesta trajetória marcada por trabalho e sangue desta gente.

Veja bem, quem acha que o dia da consciência negra serve para despertar em alguém alguma coisa, toma este equívoco como premissa e combate a “imposição ideológica” que nunca existirá pela impossibilidade de existência deste fenômeno. No entanto, aqueles que entendem o que se propõe e sentem medo dos desdobramentos, atacam porque têm medo do resultado previsto e da possibilidade de perda de suas regalias bancadas pela sistemática manutenção da população negra na situação de exclusão, lembrando que sempre existirão exceções como artistas, atletas, intelectuais e outras categorias.

No fim das contas, qual é a intenção desta data então?

Comece a entender a seguinte lógica e responda você mesmo:

A cada vez que você foi à escola e aprendeu sobre como o corpo funciona, não soube mais sobre si?

Não compreendeu melhor o porque certas coisas acontecem contigo?

Ao aprender sobre seu corpo, seu funcionamento, seus limites e possibilidades, saiu deste processo da mesma forma que entrou ou saiu mais ciente de si?

Alguém precisou te dizer que era seu dever olhar de forma diferente para o seu corpo?

Ao falar sobre seu corpo e a história dele na natureza, precisaram te obrigar a se imaginar como parte e resultado desta história?

Alguém impediu que você chegasse a conclusões sobre si?

Sendo assim, me responda:

No fim das contas, qual é a intenção desta data então?

Acerca da resposta, caso sua ascendência seja caucasiana,  atente-se: a consciência é NEGRA.

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