20 de novembro

aline-miguel-08

O sol brilhando, esquentando o esgoto
Os meus ali, eu olhando pela brecha
Ontem fui numa entrevista de emprego
Sou preto, mais uma porta que se fecha
Meu pai salvou seu povo com uma só flecha
Eu estou dois anos vivendo de bico
Colocando gesso e encaixando tijolos
Montando móveis na mansão do rico
Lembro do meu primo, o Tico
Cansou de apenas sonhar em usar um adiddas
Foi pra vida loca e até que viveu bem
Mas hoje, na prisão, chora suas feridas
Ao chorar meu sofrimento e agonia
Ninguém se compadece de minha clemência
Os pretos na periferia estão morrendo
Mas foda-se, não precisamos de dia da consciência
Hoje, quem sou, foi moldado pela desobediência
E é por isso que eu cheguei aqui
Aceitam dia pra tudo
Menos em homenagem à meu rei Zumbi
Esse dia vem para aumentar minha força
Minha força e vontade de partir para a derrubada
Já homenageamos muito Tirandentes
Hoje viemos homenagear Dandara
Chega, meu povo não para
Tentaram esconder na geladeira
Não adianta
Hoje vim falar de Juliano Moreira
Acabou a submissão derradeira
Sou preto e orgulhoso que se assume
Vim falar de Acotirene, Luiza Maihin
E também da vó de Zumbi, Aqualtune
Quer saber o que é coisa preto?
Coisa de preto é o samba
A poesia e o direito
Vamos falar de Luiz Gama
Pela arte preta, não há quem não gama
Cultura preta e quilombola,
Salve Jovelina, Alcione, Martinho,
Dicró ,Leci, Cadeia e Cartola
É tanto preto me fazendo orgulhoso
Eles ensinando, eu vivendo e aprendendo
Não esquecerei de Abdias do Nascimento
São tantos que não cabem num só 20 de novembro

Imagem: Aline Miguel

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